Rodrigo

Por Mauro Paz

Vermelho, preto e verde é só o que Rodrigo enxerga. Final da Copa do Brasil. Flamengo e Internacional. Setenta mil pessoas no Maracanã. Trinta e cinco minutos do segundo tempo, zero-a-zero. O empate leva o time gaúcho ao título. A multidão rubro e negra grita a cada lance.

Rogério para Marquinhos, que dribla o meia do Internacional e devolve pra Rogério. O craque entra na grande área. Prepara o chute. Derrubado. A torcida levanta num grito só.

A onda vermelha rompe a tensão superficial do ar. Verde e azul é só o que Rodrigo vê. Sozinho, inerte. Rodrigo, a grama, o céu, Rodrigo. Inspira, escuta o vento cortar o gramado. Cada vez mais perto. Mais forte. Mais perto. Mais forte. Corre, corre. Corre tão rápido que o cérebro não comanda as pernas. Os passos se perdem na imensidão verde e azul desprovida de uma única árvore para Rodrigo agarrar.

O vento segue no encalço de Rodrigo, brinca de o alcançar. O azul começa a devorar o verde à sua frente. No mesmo passo em que o chão acaba, o vento arremessa Rodrigo de volta ao estádio.

Apito, o juiz dá tiro de meta. A torcida cala, explode. A multidão rubra e negra derrama-se no gramado. Destroça o juiz. Rodrigo assiste imóvel ao espetáculo de som e fúria e tempo real.

Não Toca

Por Mauro Paz (07/2005)


São onze e quarenta e nove, quarta-feira, e ninguém ligou. Passou o dia todo em casa e nada. O telefone podia estar quebrado. Pegou o celular e fez o teste: o telefone fixo chamou sem problema algum. Estanho que durante um dia todo ninguém ligue. Veja bem, devemos levar em conta que da hora em que acordou, oito e dez da manhã, até agora, onze e cinquenta da noite, são quinze horas e quarenta minutos sem nenhum telefone chamar. Ou seja, ninguém sentiu a sua falta nem ao menos para resolver algum problema.

Num momento como esse, começa a se perguntar: O que fiz errado? Sou um bom amigo, filho exemplar, dedicado namorado? O quê? Nem a namorada ligou e já são onze e cinquenta e dois. Come o último bombom da caixa, serve um cálice de vinho. O que aconteceu tão interessante durante o dia que ninguém se dignou a pegar o telefone sequer para ver como estava?
Onze e cinquenta e cinco o telefone toca.

— Alô.
— Alô. Topa sexo anal?
— Como?
— É, por traz. Tipo cachorro.
— Com quem o senhor quer falar?
— Marcelão Vinte Centímetros.
— Meu senhor, aqui não tem nenhum Marcelão.
— Mas não precisa ser o Marcelão. Quantos centímetros tu tem? Topa sexo anal?
— Meu senhor, ligou pro número errado, aqui moro só eu, e não trabalho nesse ramo.
— Ok. Mas sabe de alguém que possa quebrar o galho?
— Não, meu senhor. Boa noite.

Onze e cinquenta e oito e o único telefonema foi de um velho à procura de sexo anal. Tem dias na vida em que só coisas estranhas acontecem. Pega o jornal de domingo > classificados > acompanhantes: Carla, morena, tipo ninfeta, universitária, corpo escultura. Prazer garantido.
Na última esperança de que alguém ligue, mira fixamente o celular. Meia-noite, quinta–feira, não se contem:

— Alô, Carla?
— Sim.
— Topa sexo anal?

A Praia e velhos contos

Como anunciei no Twitter, encontrei no HD alguns contos que escrevi entre 2004 e 2005. Não dá pra dizer que todos são contos, mas sofrerão algumas mudanças e virão para o blog. Além de fugirem da minha atual proposta de escrita, não há unidade alguma no conjunto desses textos. Postarei no blog porque acho interessante o registro dessa fase passada. O primeiro da série é A Praia.

A Praia

Por Mauro Paz

Dez da manhã. O céu sem nuvens, nada de vento. Escuto o mar, pessoas se divertindo e Jammin, do Bob Marley. Pego a prancha e caminho. A areia é fina, branca, polvilhada. A água verde toca os pés, morna. Não há corrente. Chego fácil ao outside. Cinco ou seis surfistas alternam-se nas ondas. Um metro e meio, tubulares. Remo. Dropo. A onda derrete rápida. Corro a parede, nenhuma preocupação. Distribuo o repertório.

A onda acaba na beira da praia. Remo em direção ao outside. Nuvens, a água marrom. Vento. Os banhistas saem da beira. O mar inquieta-se. Ao fundo, engorda a onda. Tem a altura de um prédio de sete andares. Alguns remam para dropá-la. Remo rumo ao outside. A onda quebra, arremessa-me na beira. A água toma a praia, e as cadeiras, e as bancas, e o cimento do calçadão.

Uma série de cinco ondas se levanta. Pessoas gritam, correm, retornam pra pegar pertences. Sacudo a cabeça. Testo os sentidos. E volto a remar. Subo a parede da primeira onda. Não consigo furar. Quebra. Estrondo. Luta. A água entra pelo pulmão. O corpo afunda. Canso. E acordo pronto pra surfar.

O Assalto e O Diário

Estou muito satisfeito com o resultado do Duas Ruas de um Beco.  Amanhã completa um mês que tudo começou e o projeto já soma mais de 2000 acessos e 300 contos pelas ruas. Acredito que apenas com a versão impressa, o texto nunca conseguiria essa abrangência.

Segunda, 22/07, mais dois contos seguiram seus rumos: O Assalto pelas ruas e O Diário no site.

Julho tem Pública em São Paulo

Pra quem não conhece, a Pública é uma das boas novidades da nova geração do Rock Gaúcho. Com dez anos de estrada, a banda está no segundo disco, Como Num Filme Sem Um Fim (2009). Arranjos modernos, não modernosos, dão corpo às melodias que deixam o pé inquieto. As letras têm o rock como protagonista: um cara entre a adolescência e a idade adulta vagando por aí. Pela autenticidade, curti trabalho dos caras desde que vi o belo clipe de Long Plays, música do primeiro disco, Polaris.
Nunca escutou? Então, baixe Como Num Filme Sem Um Fim, é free. E, em julho,confira ao vivo Pública + Apolonio em duas apresentações:

17 de julho: [APOLONIO e Publica (RS)] CB BAR - SÃO PAULO/SP

18 de julho: [APOLONIO e Publica (RS)] JIVE - SÃO PAULO/SP

Festa do Teatro 2009

Não, não se trata de nenhuma balada em um teatro abandonado. De 19 a 28 de junho acontece, em São Paulo, a Festa do Teatro, um evento que prevê a distribuição de 30 mil ingressos. A programação abrange desde peças de pequenos grupos até grandes produções. Mas fique atendo a retirada dos ingressos acontecem apenas dias 18, 23 e 26. Confira a data e horário para retiradas de ingressos na programação.

Apenas o fim, menos ruim que Titanic*

Tudo que li sobre Apenas o Fim aponta o filme como um novo caminho para o cinema brasileiro. Tudo que vi em Apenas o Fim foi uma tentativa de imitar os filmes de Domingos de Oliveira e (que os deuses do cinema me perdoem) Masculino-Feminino, de Godard.

Porém, a comédia romântica, de Matheus Souza, ainda estudante de cinema, tem o mérito de ser produzida com apenas R$ 8 mil reais e uma câmera. Os diálogos, tão festejados por serem recheados de referências das últimas duas décadas, são bem escritos. A direção é bonitinha. Erika Mader comprova que é uma fofa. E Gregorio Dudivier está ótimo na imitação de Selton Melo.

Poderia dizer que Apenas o Fim é um filme inteligente caso eu nunca tivesse visto um. No entanto, defino como queridinho. E torço pra que Matheus Souza descole das referências acadêmicas e descubra seu caminho autêntico. Boa sorte, Matheus. É apenas o começo.

De qualquer forma, vale conferir no cinema, considerando que você pagou pra ver Titanic.

*Para os chatos: sei que “menos ruim” não existe.

Socos, chutes e cinema real

Esses dias, vi a regravação de Funny Games, de Michael Haneke. Como gostaria de ter escrito aquele roteiro. O mais parecido que cheguei foi com o conto Toc-toc, que está na antologia Duas Ruas de um Beco.

Pra quem não viu essa ou a primeira gravação de 1997, o filme conta a história de dois rapazes que resolvem violentar uma família de classe média alta americana. O motivo? Nenhum. Violência por violência, como vemos na vida real. No fim do filme, os rapazes têm uma interessante conversa sobre essa questão. O que acontece no cinema não é real? E o que acontece na vida é?

Acho que desde sempre a ficção e realidade se namoram, até por que uma depende da outra. Sexta passada fui ao noitão do Belas Artes, com alguns amigos. Entre os filmes estava A Onda , de Dennis Gansel. A Onda mostra esse ponto de intersecção entre real e ficção. Vi o filme todo sem saber que era uma história real. A fotografia é ótima, as atuações, o roteiro. Mas eu diria que é impossível de ser verdade que uma turma de escola, hoje, seja induzida a formar uma organização fascista, na traumatizada Alemanha. Poderia, se o filme não fosse baseado em fatos reais.

A violência humana é mais inverossímil do que a própria ficção. E como Michael Heaneke propõe, só ela já basta pra grudar uma bunda duas horas em frente da tela.

Caetano deprimido?

Li uma crítica de Pedro Alexandre Sanche, na Roling Stone de abril, detonando o disco novo do Caetano Zii & Zie. Além de dar apenas duas estrelas e meias, dizia que o disco mostra “um Caetano transparente, mas duro de ouvir. À gosma roxa de Cê somam-se agora modos de cantar do dono da banda, entre agressivo e lamuriosos ”.

Concordo que o Zii & Zie, a começar pelo nome, não é um disco de fácil digestão. Porém, euma bela obra na qual Caetano ensina os moderninhos como transitar entre a MPB e o Rock. As letras de fato são extremas: tristeza, consolo, resmungos. Está tudo lá. Poderia dizer, também, que se trata de Caetano transparente e deprimido. No entanto, prefiro considerar a grande sensibilidade de um poeta-musical que consegue contrapor a tensão entre o novo e o velho de forma tão sincera que soa como a própria dor.

Escute e tire suas conclusões. Eu dou quatro estrelas.

Alcides e Rodando

Hoje, mais dois contos de Duas Ruas de um Beco seguem seus rumos: Alcides pelas ruas e Rodando no site do projeto.

Pra quem ainda não sabe, Duas Ruas de um Beco é um projeto de publicação que iniciei dia 25/05. A cada duas semanas, um conto vai pras ruas e outro para o site do projeto. Acompanhe e mande sua opinião.

Sinédoque Nova York (muy bueno)

Primeiro filme dirigido pelo cultuado roteirista Charlie Kaufman (Brilho eterno de uma mente sem lembrança), Sinédoque Nova York discute o oficio da arte. O filme que conta a trajetória do dramaturgo Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) de forma nada linear. A vida inteira pode caber numa peça de teatro ou num filme. Ficção, sonho e real se confundem num debate sobre desejo, criação e existência.

Pode parecer confuso, mas o filme é simples: mostra que quase tudo vale quase nada nesse grande teatro. Boa direção de arte, interpretações e pedida para o final de semana. Aconselho.

Frio, vento e o DVD acústico Superguidis

O vento sul entrava pela fresta da japona. Eram dezoito horas, eu e mais cinco ou seis pessoas esperávamos em frente ao Cultura Rock Clube. Depois de vinte minutos, no frio, finalmente deixaram que entrássemos. Quarenta minutos na ante-sala e trinta minutos aguardado os músicos passarem o som. O show da Superguidis começou com uma hora e trinta de atraso. Na platéia gente de todas as idades. Encontrei um ex-aluno e um ex-professor. A informalidade de todos estarem em casa, fez com que a banda se enrolasse ainda mais entre uma música e outra. Pouco se perdeu, porém, nas adaptações para violão dos rocks.

Os riffs, a levada e, principalmente as letras, fazem com que eu considere a Superguidis a melhor banda gaúcha, depois da parada da Ultramen. Não só o sotaque entrega que os rapazes são do sul, a forma simples com que mostram o cotidiano e refletem sobre temas universais sem sair de perto de casa, também. Como nos versos de “Mais um dia de cão”:

Moro nesse mesmo bairro a mais de vinte anos
Já plantei o meu destino em mudas de eucalipto
A cidade fede
A cidade engorda
A cidade arrota os ossos-do-ofício

Hoje eu já não mais esqueço por onde andei
o que eu passei em mais um dia de cão

Tem uns três anos que admiro o trabalho da Superguidis, porém só ontem os escutei ao vivo. Confirmei minha impressão: são autênticos. Talvez por não serem da capital, o quarteto é de Guaiba (cidade satélite), não caiam nos mesmos vícios das bandas de Porto Alegre. Também, por isso, não tenham o devido reconhecimento na Capital gaúcha. No entanto, isso pouco importa, os guris tão no caminho certo e fora do RS tem grande reconhecimento. Tanto que”A Amarga Sinfonia do Superstar” (2006) foi considerado um dos melhores álbuns de rock pela BIZZ e pela Tramavirtual.

Agora é só aguardar o DVD. Tentem me achar. Estava com a tradicional jaqueta laranja. Escute mais Superguidis no myspace.

Debate sobre Exterminador do Futuro

Para promover o lançamento do filme O Exterminador do Futuro: A Salvação, na primeira edição do evento Multiverso o tema do debate é “Homem versus Máquina “. Na ocasião os participantes Gelson Weschenfelder (filósofo), Edson Gandolfi (publicitário) e Frederico Pinto (cineasta) discutem a luta pela supremacia entre as inteligências da humanidade e das máquinas nos filmes da franquia e projetam o novo filme da série . O evento, com mediação da jornalista Maressah Sampaio (RBS), tem entrada franca e ocorre na Fnac do BarraShoppingSul (Av. Diário de Notícias, 300. Porto Alegre /RS) às 19h30 da próxima quarta-feira, dia 3 de junho.

Além do debate, haverá sorteios de brindes e de ingressos do novo filme. Nesta edição o evento Multiverso, pertencente às produtoras Joy e Smash, está sendo organizado em conjunto com a Espaço Z, e conta com apoio da Fnac e da Obladi Produções.

O Exterminador do Futuro: A Salvação, é o quarto filme da franquia, e ao contrário dos anteriores não se passa no presente e sim no ano pós-apocalíptico de 2018. O agora líder da resistência John Connor(Christian Bale) luta contra a Skynet e seu exército de Exterminadores. Mas o futuro o qual Connor foi criado para acreditar foi alterado em parte pela aparição de Marcus Wright (Sam Worthington), um estranho cuja última lembrança é de estar no corredor da morte. Connor precisa descobrir se Marcus foi enviado do futuro ou se resgatado do passado. Enquanto a Skynet prepara seu ataque final, Connor e Marcus embarcam em uma odisséia que leva ambos ao centro de operações da Skynet onde eles descobrem um terrível segredo por trás da possível aniquilação da raça humana.

O elenco do filme conta também com Common, Helena Bonham Carter, Bryce Dallas Howard e Chris Browning. O roteiro é de Michael Ferris e John Brancato (de O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas), enquanto a direção está a cargo de McG (de As Panteras e As Panteras: Detonando). A estreia no Brasil ocorrerá no dia 5 de junho.

Metamorfose

Resposta errada, diz o Gênio. Raios translúcidos saem de suas mãos. Penetram meu peito. O estômago revira, como ao efeito de iogurte de ameixa. Sacripantas! Contraio os músculos. Inútil. As narinas se alargam, a boca. Pêlos vertem da pele. O focinho cresce ao rosto. Orelhas se esticam. Minhas feições a mercê da satânica massinha de modelar. Os dedos contraem-se. Ganho grandes cascos. Pernas, braços mudam de articulações. Ah, se minha mãe me visse assim. “Não criei filho pra andar de quatro.” Por fim, o mais desmoralizante, um rabo longo e peludo na ponta. Ao menos, agora posso excluir os e-mails “aumente seu pênis”.

Exercício de implícitos

Nem lembrava que tinha escrito esse texto. A Ana Santo lembrou ontem. É divertido até.

- Vaca.
- Ainda acordado?
- Rameira.
- Agressão gratuita?
- Quantos?
- Nenhum, mas bem que…
- Quem nasce para vintém, nunca chega a tostão.
- Pelo menos, naquele tempo, tinha o que comer.
- Belo prêmio por sustentar você e a velha.
- Não preciso de nada seu. Posso me virar sozinha.
- Isso não é nenhuma novidade.
- Não vou mais suportar isso. Longe daqui, mamãe não escutará mais suas baixarias.
- A velha até surda é.
- Mas sente o cheiro de podre.
- Já vão tarde.
- Um minuto. (silêncio) Esse apartamento é de mamãe?
- Então eu parto, mas minha viagem não tem volta.
Do quarto:
- Presenteou algum dos seus machos com meu revólver?
- Pagou a última conta de luz com ele.
- Devia ter desconfiado. Casando com uma p… minha vida seria uma zona.

No ar: Duas Ruas de um Beco

Hoje dei início ao projeto DUAS RUAS DE UM BECO. Mais do que uma antologia de contos, DUAS RUAS DE UM BECO é uma proposta alternativa que rompe com o mercado editorial e alia internet e livro impresso de forma independente. Ao todo são 16 contos.  A cada duas semanas, um novo conto ganhará as ruas de diversas cidades do Brasil e, simultaneamente, o conto irmão estará em www.mauropaz.com.br/duasruas.

Juntar os 16 contos, tarefa impossível.

Mas você pode adquirir o impresso exclusivo com os 16 contos, pelo contato: paz.mauro@gmail.com

Acompanhe.

A revolução da mídia participativa

Valeu a pena ficar acordado até tarde. Era quase duas da manhã quando Nanni Rios postou no twitter o link do vídeo abaixo no qual Henry Jenkins, teórico da mídia, fala sobre as transformações que a mídia participava está promovendo. Vale cada segundo. Amanhã pretendo escrever sobre.

174 - Três tempos pra brilhar

Por Mauro Paz

Sentado no caixote de madeira, o menino observa a mãe registrar as compras do cliente. Frutas, verduras e diversas embalagens empoleiram-se nas estantes do pequeno mercadinho, no pé do Morro do Rato. Pessoas entram, cumprimentam, escolhem os produtos, contam as moedas e saem. O menino conhece a rotina. Sua brincadeira preferida é imitar a mãe atendendo a clientela do armazém.

Do outro lado da praça, o garoto vê a fogueira acessa e a roda formada embaixo da marquise. Junta-se ao grupo. Meninos, meninas, aproximadamente setenta menores. Falam ao mesmo tempo. O garoto só pensa em arrumar o que comer. A grana do dia virou pó. A busca por comida junto aos amigos é sem sucesso. Resta subir no telhado da banca de revista para ver, entre os prédios, o canto de céu.

A tarde é quente. No bairro chique, a multidão circula com pressa. O suor brota da pele preta do homem no ponto de ônibus. Bermuda e regata. Ele é alto, magro, os braços longilíneos têm músculos desenhados. Pela calçada, a estudante anda, confere os livros. O ônibus está atrasado. Ela esbarra no homem. Desculpa-se sem resposta.

A mãe do menino dá o troco à senhora com a sacola cheia de bananas. A senhora despede-se, sai. Silêncio no armazém. A mãe pega o menino no colo. Beija. Na rua, passos. Coloca o menino sobre a caixa de madeira. O menino levanta. Na ponta dos pés espia sobre o balcão.

Do alto da banca de revistas o garoto avista dois carros estacionando na rua lateral. As assistentes sociais que sempre trazem sopa nas noites de frio. Grita aos companheiros, “ as tia da sopa tão aí”. Pula do telhado da banca. A roda se desfaz. Acordam os que dormem. A mensagem replica-se: “as tia da sopa tão aí… as tia da sopa tão aí…”

Um, sete, quatro, no letreiro. O ônibus vem lento. A estudante dá um passo pra frente, estica o pescoço. Analfabeto, o homem apenas reconhece os números. O um, sete, quatro também é o seu ônibus. Aproximam-se do meio-fio.

Vinte e poucos anos, pele escura, cabelo raspado, bermuda e regata. Entra no armazém, olha as prateleiras. Procura por algum produto em particular. “Posso ajudar?”, pergunta a mãe. Puxando a faca das costas, anuncia, “É um assalto, dona. Não grita, que te furo”. O menino chora. A mãe entrega o dinheiro do caixa. “Quero tudo, porra. Não sacaneia que te furo, vadia”, grita o assaltante.

A molecada corre em busca de sopa. Há alguns metros para chegarem, as portas dos carros se abrem. Saltam oito homens. As máscaras de ninja vazam o ódio pelos buracos dos olhos. Os encapuzados sacam pistolas. Começa a caçada. O primeiro tiro amortece no peito de uma menina de nove anos. Os menores se dispersam. Os homens perseguem. O garoto corre. Corre. Corre mais do que as pernas podem correr.

O ônibus encosta. A estudante e o homem sobem. Quatro passageiros, agora seis. A menina passa pela roleta. Antes de o ônibus arrancar, o homem saca o trinta e oito e grita, “É nóis. Passa grana, filho da puta. Passa a grana”. Os passageiros se abaixam nos bancos. O trocador começa a tirar o dinheiro do caixa. O motorista salta do carro. O homem olha pra traz surpreso com a fuga. Vira-se, firma a arma na cabeça do cobrador.

“Não tem mais nada, moço”, grita a mãe, em histeria. O assaltante reforça, “Já falei, caralho, se achar mais grana vou te fura, vadia”. Ele passa para parte de traz do balcão e revira as cadernetas de fiado. O menino agacha-se, enquanto a mãe chora com as mãos entre o rosto, “não te mais nada. Deixa nóis em paz”. O bandido encontra o fundo falso da caixa registradora. Notas presas com atilho. “Acha que sou otário, vadia? Acha que engana?” grita o assaltante alterado. A mãe sussurra repetidamente, “Vai embora. Deixa nóis em paz”. Rasga o ventre da mãe. Junta o dinheiro e corre. Com a faca cravada, a mulher cai de joelhos. O menino aproxima-se, a abraça. “Chama alguém, meu filho. Chama a tia.”

O garoto despista os atiradores. Está a duas quadras da praça. Tiros e gritos. Carros passam. Encontra um orelhão. Pega um papel amassado do bolso e liga pra assistente social. “Tão matano a gente, tia.Os home de máscara tão dano tiro em nóis”. A mulher diz estar a caminho, pede que ele fique em lugar seguro. O garoto desliga o telefone. Esconde-se debaixo de uma caminhonete estacionada ao lado do orelhão.

“Anda rápido, com essa porra, cumpadi”, fala ao trocador. Do lado de fora do ônibus, curiosos. Chega uma viatura de polícia. Descem dois policiais. Um aproxima-se do ônibus, o outro fica junto à porta do carro, dando cobertura. “Tá veno, filho da puta, os cana chegaram. Agora já é”, pula a roleta e dá uma gravata no trocador. “Deixa eu sai, senão estoro a cabeça desse filho da puta”, grita aos policiais por uma das janelas. “Larga a arma que tudo vai ficar bem. Ninguém quer te fazer mal”, replica o policial próximo ao ônibus. O homem quer só escapar vivo. Talvez levar o tocador por algumas quadras e depois sumir entre os prédios. “Polícia é tudo filho da puta, irmão. Cês só qué dá esculacho. Não largo porra nenhuma. Deixa eu passar senão apago esse merda”.

O menino corre pela rua. Vê os carros passando. Precisa atravessar. A casa da tia fica do outro lado. Toma coragem, espera, corre. Chega à porta, “tia, mamãe tá machucada”. A mulher pega a criança no colo a corre para bar. A mãe está deitada de bruços. A tia larga o menino no chão. Aproxima-se da irmã. Vira-a. “Ela tá dormino?”, pergunta o menino. A mulher cala, chora. Pega-o no colo e leva pra casa.

Os gritos e tiros cessam. O garroto aguarda uns instantes. Sai debaixo da caminhonete. Desconfiado, caminha em direção da praça. Sirenes. Da ponta da quadra avista as ambulâncias. Aproxima-se. Muitos dos companheiros chorando. O saco preto é colocado na van branca. Em meio à confusão, a assistente social. “Tá bem, garoto?”, pergunta a mulher. Com o olhar estático, nada responde.

“Não tenho nada a perder. Não tenho mãe. Sobrevivi à chacina. Meu santo é forte, cumpadi. Deixa eu passa, filho da puta”, grita o homem da janela do coletivo. O trocador treme sentindo o cano frio tocando repetidas vezes o seu crânio. O homem agrupa os demais passageiros no banco último banco. A estudante escreve com batom no vidro: “Ele vai matar geral”. Mais duas viaturas chegam. Uma pequena multidão cerca o coletivo. Repórteres. Sem soltar do pescoço do trocador, o homem senta junto aos reféns no último banco. Respira fundo. Olha a estudante. Lembra da vida que não teve. Solta o trocador. Puxa a estudante, dá a gravata. Pela janela, grita: “Se não deixar eu passar, vou matar essa daqui. Vai ser no dez”. Caminha com a garota pelo corredor do ônibus em contagem regressiva. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três…

A Comerciante Maria Rosa de Oliveira foi morta a facadas, na tarde de ontem, enquanto atendia seu armazém na subida do Moro do Rato. A polícia acredita que Maria Rosa tenha sido atingida por reagir a um provável assalto. No entanto, são apenas especulações. Os investigadores esperam esclarecer maiores detalhes sobre o ocorrido assim que encontrarem o filho da comerciante, única testemunha do crime. Com apenas seis anos, o menino – desaparecido desde as dezessete horas de ontem - foi deixado em casa pela tia, que saíra para cuidar da remoção do corpo.

“Estamos aqui na décima terceira DP, onde estão sendo ouvidos os sobreviventes da chacina ocorrida há poucas horas no centro da cidade. Oito crianças foram assassinadas friamente por atiradores não identificados…”. Lentes de câmeras. O garoto precisa sair dali. “O que vai ser de nóis, tia? Vão prende?”, pergunta a assistente social. “Não. Pode ir, já te interrogaram”. Cabos, luzes. Policiais armados. Choro. O garoto sai quieto, em meio bagunça da DP. Precisa achar um canto pra dormir.

“… após a tentativa de assalto mal sucedida a um ônibus da linha 174, o homem, de vinte e poucos anos e de nome ainda desconhecido, fez o trocador e cinco passageiros de reféns. A negociação foi tensa. Quando todos acreditavam que a situação se estenderia por horas, o seqüestrador surpreendeu a todos ao descer do ônibus usando a estudante Marcela Silva como escudo. Na tentativa de neutralizá-lo, um policial, de nome não divulgado pelo Batalhão de Operações Especiais, alvejou a estudante, que foi removida já sem vida para o Pronto Socorro da cidade. Encaminhado para a DP o assaltante foi acidentalmente morto. Segundo relato dos policiais que o escoltavam, tiveram que usar de muita forma para imobilizá-lo devido à grande agitação. O que ocasionou a morte não intencional do bandido…”

Stand up Literatura com Andréa del Fuego

Data: 17/05 – domingo
Local: Av. Paulista, 509 – Cerqueira César – Tel.: 2167-9900
Horário: 15h
Convidada: Andrea del Fuego

Sinopse: Programa quinzenal, com uma hora de duração, transmitido ao vivo pela TV Cronópios www.cronopios.com.br.
O programa é uma adaptação para a Literatura do gênero de comédia muito em voga nos EUA, o Stand UP Comedy. Na nossa versão, contará com um convidado por programa, que lerá seus textos” em pé” diante de uma platéia e com transmissão ao vivo pela Internet. O público participa no local e também por meio de chat.

A convidada deste domingo é a poeta Andréa del Fuego. Andréa del Fuego é autora da trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu (projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo) e dos juvenis Sociedade da Caveira de Cristal e Quase caio; integra as antologias: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, Capitu mandou flores (Geração Editorial, 2008), entre outras. É graduanda em Filosofia na PUC-SP e mantém o blog www.delfuego.zip.net

Literatura sem papel #Blooks

Dando sequência às atividades da Exposição Blooks, ontem (13/05), aconteceu a mesa de debates [Literatura sem papel]. Apresentada por Xico Sá a mesa contou com participação de Ana Paula Maia, João Paulo Cuenca e Samir Mesquita, todos autores que iniciaram a publicação dos seus textos na internet.

A primeira provocação de Xico Sá foi se os autores acreditavam no fim do livro impresso. Ana Paula, partindo da experiência própria, disse que o não acredita no fim do livro, pois a internet é apenas uma primeira etapa de publicação. Samir acrescentou que a internet é um poderoso instrumento para a divulgação do texto, que contribui para que leitores distantes comprem os livros.

Sobre a existência de uma literatura própria para a internet, Cuenca fez questão de deixar claro que hoje a internet não passa de um meio, não compondo um novo gênero. Coisa que repito faz tempo. Ana Paula também manteve essa opinião. Até mesmo Samir, que tem sua obra em microcontos totalmente em sintonia com os novos suportes como o Twitter, afirmou que não escrevia especificamente pensando no meio, apenas o utiliza.

A mesa terminou com um tom pessimista quanto ao futuro da literatura, estabelecido por Cuenca que trouxe o tema do pequeno espaço que a literatura ocupa na sociedade brasileira.
Acredito que um novo gênero nascido na internet para internet, ainda não esteja difundido. O que existem são apenas experimentações como fiz com a novela Desfocado. No entanto, tratando-se de linguagem, a transformação é eminente. O leitor de blog não tem tempo nem paciência para longos textos. A transformação quanto à estrutura da narrativa é uma constante na trajetória da literatura: a epopéia, o romance, o conto, o microconto. Não há como um autor contemporâneo adotar a forma descritiva de José de Alencar, por exemplo. Não cola, o leitor da metrópole, mesmo na década de 1980, já não tinha tempo para essa escrita. Por isso, acredito que a internet esteja tornando a linguagem ainda mais enxuta.

A discussão sobre estruturas e linguagem própria para a internet deve seguir na mesa da semana que vem: [hiperlíngua: transformações da palavra].

Confira a programação da Blooks