174 - Três tempos pra brilhar

Por Mauro Paz

Sentado no caixote de madeira, o menino observa a mãe registrar as compras do cliente. Frutas, verduras e diversas embalagens empoleiram-se nas estantes do pequeno mercadinho, no pé do Morro do Rato. Pessoas entram, cumprimentam, escolhem os produtos, contam as moedas e saem. O menino conhece a rotina. Sua brincadeira preferida é imitar a mãe atendendo a clientela do armazém.

Do outro lado da praça, o garoto vê a fogueira acessa e a roda formada embaixo da marquise. Junta-se ao grupo. Meninos, meninas, aproximadamente setenta menores. Falam ao mesmo tempo. O garoto só pensa em arrumar o que comer. A grana do dia virou pó. A busca por comida junto aos amigos é sem sucesso. Resta subir no telhado da banca de revista para ver, entre os prédios, o canto de céu.

A tarde é quente. No bairro chique, a multidão circula com pressa. O suor brota da pele preta do homem no ponto de ônibus. Bermuda e regata. Ele é alto, magro, os braços longilíneos têm músculos desenhados. Pela calçada, a estudante anda, confere os livros. O ônibus está atrasado. Ela esbarra no homem. Desculpa-se sem resposta.

A mãe do menino dá o troco à senhora com a sacola cheia de bananas. A senhora despede-se, sai. Silêncio no armazém. A mãe pega o menino no colo. Beija. Na rua, passos. Coloca o menino sobre a caixa de madeira. O menino levanta. Na ponta dos pés espia sobre o balcão.

Do alto da banca de revistas o garoto avista dois carros estacionando na rua lateral. As assistentes sociais que sempre trazem sopa nas noites de frio. Grita aos companheiros, “ as tia da sopa tão aí”. Pula do telhado da banca. A roda se desfaz. Acordam os que dormem. A mensagem replica-se: “as tia da sopa tão aí… as tia da sopa tão aí…”

Um, sete, quatro, no letreiro. O ônibus vem lento. A estudante dá um passo pra frente, estica o pescoço. Analfabeto, o homem apenas reconhece os números. O um, sete, quatro também é o seu ônibus. Aproximam-se do meio-fio.

Vinte e poucos anos, pele escura, cabelo raspado, bermuda e regata. Entra no armazém, olha as prateleiras. Procura por algum produto em particular. “Posso ajudar?”, pergunta a mãe. Puxando a faca das costas, anuncia, “É um assalto, dona. Não grita, que te furo”. O menino chora. A mãe entrega o dinheiro do caixa. “Quero tudo, porra. Não sacaneia que te furo, vadia”, grita o assaltante.

A molecada corre em busca de sopa. Há alguns metros para chegarem, as portas dos carros se abrem. Saltam oito homens. As máscaras de ninja vazam o ódio pelos buracos dos olhos. Os encapuzados sacam pistolas. Começa a caçada. O primeiro tiro amortece no peito de uma menina de nove anos. Os menores se dispersam. Os homens perseguem. O garoto corre. Corre. Corre mais do que as pernas podem correr.

O ônibus encosta. A estudante e o homem sobem. Quatro passageiros, agora seis. A menina passa pela roleta. Antes de o ônibus arrancar, o homem saca o trinta e oito e grita, “É nóis. Passa grana, filho da puta. Passa a grana”. Os passageiros se abaixam nos bancos. O trocador começa a tirar o dinheiro do caixa. O motorista salta do carro. O homem olha pra traz surpreso com a fuga. Vira-se, firma a arma na cabeça do cobrador.

“Não tem mais nada, moço”, grita a mãe, em histeria. O assaltante reforça, “Já falei, caralho, se achar mais grana vou te fura, vadia”. Ele passa para parte de traz do balcão e revira as cadernetas de fiado. O menino agacha-se, enquanto a mãe chora com as mãos entre o rosto, “não te mais nada. Deixa nóis em paz”. O bandido encontra o fundo falso da caixa registradora. Notas presas com atilho. “Acha que sou otário, vadia? Acha que engana?” grita o assaltante alterado. A mãe sussurra repetidamente, “Vai embora. Deixa nóis em paz”. Rasga o ventre da mãe. Junta o dinheiro e corre. Com a faca cravada, a mulher cai de joelhos. O menino aproxima-se, a abraça. “Chama alguém, meu filho. Chama a tia.”

O garoto despista os atiradores. Está a duas quadras da praça. Tiros e gritos. Carros passam. Encontra um orelhão. Pega um papel amassado do bolso e liga pra assistente social. “Tão matano a gente, tia.Os home de máscara tão dano tiro em nóis”. A mulher diz estar a caminho, pede que ele fique em lugar seguro. O garoto desliga o telefone. Esconde-se debaixo de uma caminhonete estacionada ao lado do orelhão.

“Anda rápido, com essa porra, cumpadi”, fala ao trocador. Do lado de fora do ônibus, curiosos. Chega uma viatura de polícia. Descem dois policiais. Um aproxima-se do ônibus, o outro fica junto à porta do carro, dando cobertura. “Tá veno, filho da puta, os cana chegaram. Agora já é”, pula a roleta e dá uma gravata no trocador. “Deixa eu sai, senão estoro a cabeça desse filho da puta”, grita aos policiais por uma das janelas. “Larga a arma que tudo vai ficar bem. Ninguém quer te fazer mal”, replica o policial próximo ao ônibus. O homem quer só escapar vivo. Talvez levar o tocador por algumas quadras e depois sumir entre os prédios. “Polícia é tudo filho da puta, irmão. Cês só qué dá esculacho. Não largo porra nenhuma. Deixa eu passar senão apago esse merda”.

O menino corre pela rua. Vê os carros passando. Precisa atravessar. A casa da tia fica do outro lado. Toma coragem, espera, corre. Chega à porta, “tia, mamãe tá machucada”. A mulher pega a criança no colo a corre para bar. A mãe está deitada de bruços. A tia larga o menino no chão. Aproxima-se da irmã. Vira-a. “Ela tá dormino?”, pergunta o menino. A mulher cala, chora. Pega-o no colo e leva pra casa.

Os gritos e tiros cessam. O garroto aguarda uns instantes. Sai debaixo da caminhonete. Desconfiado, caminha em direção da praça. Sirenes. Da ponta da quadra avista as ambulâncias. Aproxima-se. Muitos dos companheiros chorando. O saco preto é colocado na van branca. Em meio à confusão, a assistente social. “Tá bem, garoto?”, pergunta a mulher. Com o olhar estático, nada responde.

“Não tenho nada a perder. Não tenho mãe. Sobrevivi à chacina. Meu santo é forte, cumpadi. Deixa eu passa, filho da puta”, grita o homem da janela do coletivo. O trocador treme sentindo o cano frio tocando repetidas vezes o seu crânio. O homem agrupa os demais passageiros no banco último banco. A estudante escreve com batom no vidro: “Ele vai matar geral”. Mais duas viaturas chegam. Uma pequena multidão cerca o coletivo. Repórteres. Sem soltar do pescoço do trocador, o homem senta junto aos reféns no último banco. Respira fundo. Olha a estudante. Lembra da vida que não teve. Solta o trocador. Puxa a estudante, dá a gravata. Pela janela, grita: “Se não deixar eu passar, vou matar essa daqui. Vai ser no dez”. Caminha com a garota pelo corredor do ônibus em contagem regressiva. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três…

A Comerciante Maria Rosa de Oliveira foi morta a facadas, na tarde de ontem, enquanto atendia seu armazém na subida do Moro do Rato. A polícia acredita que Maria Rosa tenha sido atingida por reagir a um provável assalto. No entanto, são apenas especulações. Os investigadores esperam esclarecer maiores detalhes sobre o ocorrido assim que encontrarem o filho da comerciante, única testemunha do crime. Com apenas seis anos, o menino – desaparecido desde as dezessete horas de ontem - foi deixado em casa pela tia, que saíra para cuidar da remoção do corpo.

“Estamos aqui na décima terceira DP, onde estão sendo ouvidos os sobreviventes da chacina ocorrida há poucas horas no centro da cidade. Oito crianças foram assassinadas friamente por atiradores não identificados…”. Lentes de câmeras. O garoto precisa sair dali. “O que vai ser de nóis, tia? Vão prende?”, pergunta a assistente social. “Não. Pode ir, já te interrogaram”. Cabos, luzes. Policiais armados. Choro. O garoto sai quieto, em meio bagunça da DP. Precisa achar um canto pra dormir.

“… após a tentativa de assalto mal sucedida a um ônibus da linha 174, o homem, de vinte e poucos anos e de nome ainda desconhecido, fez o trocador e cinco passageiros de reféns. A negociação foi tensa. Quando todos acreditavam que a situação se estenderia por horas, o seqüestrador surpreendeu a todos ao descer do ônibus usando a estudante Marcela Silva como escudo. Na tentativa de neutralizá-lo, um policial, de nome não divulgado pelo Batalhão de Operações Especiais, alvejou a estudante, que foi removida já sem vida para o Pronto Socorro da cidade. Encaminhado para a DP o assaltante foi acidentalmente morto. Segundo relato dos policiais que o escoltavam, tiveram que usar de muita forma para imobilizá-lo devido à grande agitação. O que ocasionou a morte não intencional do bandido…”

174 - Três tempos pra brilhar

Por Mauro Paz

Sentado no caixote de madeira, o menino observa a mãe registrar as compras do cliente. Frutas, verduras e diversas embalagens empoleiram-se nas estantes do pequeno mercadinho, no pé do Morro do Rato. Pessoas entram, cumprimentam, escolhem os produtos, contam as moedas e saem. O menino conhece a rotina. Sua brincadeira preferida é imitar a mãe atendendo a clientela do armazém.

Do outro lado da praça, o garoto vê a fogueira acessa e a roda formada embaixo da marquise. Junta-se ao grupo. Meninos, meninas, aproximadamente setenta menores. Falam ao mesmo tempo. O garoto só pensa em arrumar o que comer. A grana do dia virou pó. A busca por comida junto aos amigos é sem sucesso. Resta subir no telhado da banca de revista para ver, entre os prédios, o canto de céu.

A tarde é quente. No bairro chique, a multidão circula com pressa. O suor brota da pele preta do homem no ponto de ônibus. Bermuda e regata. Ele é alto, magro, os braços longilíneos têm músculos desenhados. Pela calçada, a estudante anda, confere os livros. O ônibus está atrasado. Ela esbarra no homem. Desculpa-se sem resposta.

A mãe do menino dá o troco à senhora com a sacola cheia de bananas. A senhora despede-se, sai. Silêncio no armazém. A mãe pega o menino no colo. Beija. Na rua, passos. Coloca o menino sobre a caixa de madeira. O menino levanta. Na ponta dos pés espia sobre o balcão.

Do alto da banca de revistas o garoto avista dois carros estacionando na rua lateral. As assistentes sociais que sempre trazem sopa nas noites de frio. Grita aos companheiros, “ as tia da sopa tão aí”. Pula do telhado da banca. A roda se desfaz. Acordam os que dormem. A mensagem replica-se: “as tia da sopa tão aí… as tia da sopa tão aí…”

Um, sete, quatro, no letreiro. O ônibus vem lento. A estudante dá um passo pra frente, estica o pescoço. Analfabeto, o homem apenas reconhece os números. O um, sete, quatro também é o seu ônibus. Aproximam-se do meio-fio.

Vinte e poucos anos, pele escura, cabelo raspado, bermuda e regata. Entra no armazém, olha as prateleiras. Procura por algum produto em particular. “Posso ajudar?”, pergunta a mãe. Puxando a faca das costas, anuncia, “É um assalto, dona. Não grita, que te furo”. O menino chora. A mãe entrega o dinheiro do caixa. “Quero tudo, porra. Não sacaneia que te furo, vadia”, grita o assaltante.

A molecada corre em busca de sopa. Há alguns metros para chegarem, as portas dos carros se abrem. Saltam oito homens. As máscaras de ninja vazam o ódio pelos buracos dos olhos. Os encapuzados sacam pistolas. Começa a caçada. O primeiro tiro amortece no peito de uma menina de nove anos. Os menores se dispersam. Os homens perseguem. O garoto corre. Corre. Corre mais do que as pernas podem correr.

O ônibus encosta. A estudante e o homem sobem. Quatro passageiros, agora seis. A menina passa pela roleta. Antes de o ônibus arrancar, o homem saca o trinta e oito e grita, “É nóis. Passa grana, filho da puta. Passa a grana”. Os passageiros se abaixam nos bancos. O trocador começa a tirar o dinheiro do caixa. O motorista salta do carro. O homem olha pra traz surpreso com a fuga. Vira-se, firma a arma na cabeça do cobrador.

“Não tem mais nada, moço”, grita a mãe, em histeria. O assaltante reforça, “Já falei, caralho, se achar mais grana vou te fura, vadia”. Ele passa para parte de traz do balcão e revira as cadernetas de fiado. O menino agacha-se, enquanto a mãe chora com as mãos entre o rosto, “não te mais nada. Deixa nóis em paz”. O bandido encontra o fundo falso da caixa registradora. Notas presas com atilho. “Acha que sou otário, vadia? Acha que engana?” grita o assaltante alterado. A mãe sussurra repetidamente, “Vai embora. Deixa nóis em paz”. Rasga o ventre da mãe. Junta o dinheiro e corre. Com a faca cravada, a mulher cai de joelhos. O menino aproxima-se, a abraça. “Chama alguém, meu filho. Chama a tia.”

O garoto despista os atiradores. Está a duas quadras da praça. Tiros e gritos. Carros passam. Encontra um orelhão. Pega um papel amassado do bolso e liga pra assistente social. “Tão matano a gente, tia.Os home de máscara tão dano tiro em nóis”. A mulher diz estar a caminho, pede que ele fique em lugar seguro. O garoto desliga o telefone. Esconde-se debaixo de uma caminhonete estacionada ao lado do orelhão.

“Anda rápido, com essa porra, cumpadi”, fala ao trocador. Do lado de fora do ônibus, curiosos. Chega uma viatura de polícia. Descem dois policiais. Um aproxima-se do ônibus, o outro fica junto à porta do carro, dando cobertura. “Tá veno, filho da puta, os cana chegaram. Agora já é”, pula a roleta e dá uma gravata no trocador. “Deixa eu sai, senão estoro a cabeça desse filho da puta”, grita aos policiais por uma das janelas. “Larga a arma que tudo vai ficar bem. Ninguém quer te fazer mal”, replica o policial próximo ao ônibus. O homem quer só escapar vivo. Talvez levar o tocador por algumas quadras e depois sumir entre os prédios. “Polícia é tudo filho da puta, irmão. Cês só qué dá esculacho. Não largo porra nenhuma. Deixa eu passar senão apago esse merda”.

O menino corre pela rua. Vê os carros passando. Precisa atravessar. A casa da tia fica do outro lado. Toma coragem, espera, corre. Chega à porta, “tia, mamãe tá machucada”. A mulher pega a criança no colo a corre para bar. A mãe está deitada de bruços. A tia larga o menino no chão. Aproxima-se da irmã. Vira-a. “Ela tá dormino?”, pergunta o menino. A mulher cala, chora. Pega-o no colo e leva pra casa.

Os gritos e tiros cessam. O garroto aguarda uns instantes. Sai debaixo da caminhonete. Desconfiado, caminha em direção da praça. Sirenes. Da ponta da quadra avista as ambulâncias. Aproxima-se. Muitos dos companheiros chorando. O saco preto é colocado na van branca. Em meio à confusão, a assistente social. “Tá bem, garoto?”, pergunta a mulher. Com o olhar estático, nada responde.

“Não tenho nada a perder. Não tenho mãe. Sobrevivi à chacina. Meu santo é forte, cumpadi. Deixa eu passa, filho da puta”, grita o homem da janela do coletivo. O trocador treme sentindo o cano frio tocando repetidas vezes o seu crânio. O homem agrupa os demais passageiros no banco último banco. A estudante escreve com batom no vidro: “Ele vai matar geral”. Mais duas viaturas chegam. Uma pequena multidão cerca o coletivo. Repórteres. Sem soltar do pescoço do trocador, o homem senta junto aos reféns no último banco. Respira fundo. Olha a estudante. Lembra da vida que não teve. Solta o trocador. Puxa a estudante, dá a gravata. Pela janela, grita: “Se não deixar eu passar, vou matar essa daqui. Vai ser no dez”. Caminha com a garota pelo corredor do ônibus em contagem regressiva. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três…

A Comerciante Maria Rosa de Oliveira foi morta a facadas, na tarde de ontem, enquanto atendia seu armazém na subida do Moro do Rato. A polícia acredita que Maria Rosa tenha sido atingida por reagir a um provável assalto. No entanto, são apenas especulações. Os investigadores esperam esclarecer maiores detalhes sobre o ocorrido assim que encontrarem o filho da comerciante, única testemunha do crime. Com apenas seis anos, o menino – desaparecido desde as dezessete horas de ontem - foi deixado em casa pela tia, que saíra para cuidar da remoção do corpo.

“Estamos aqui na décima terceira DP, onde estão sendo ouvidos os sobreviventes da chacina ocorrida há poucas horas no centro da cidade. Oito crianças foram assassinadas friamente por atiradores não identificados…”. Lentes de câmeras. O garoto precisa sair dali. “O que vai ser de nóis, tia? Vão prende?”, pergunta a assistente social. “Não. Pode ir, já te interrogaram”. Cabos, luzes. Policiais armados. Choro. O garoto sai quieto, em meio bagunça da DP. Precisa achar um canto pra dormir.

“… após a tentativa de assalto mal sucedida a um ônibus da linha 174, o homem, de vinte e poucos anos e de nome ainda desconhecido, fez o trocador e cinco passageiros de reféns. A negociação foi tensa. Quando todos acreditavam que a situação se estenderia por horas, o seqüestrador surpreendeu a todos ao descer do ônibus usando a estudante Marcela Silva como escudo. Na tentativa de neutralizá-lo, um policial, de nome não divulgado pelo Batalhão de Operações Especiais, alvejou a estudante, que foi removida já sem vida para o Pronto Socorro da cidade. Encaminhado para a DP o assaltante foi acidentalmente morto. Segundo relato dos policiais que o escoltavam, tiveram que usar de muita forma para imobilizá-lo devido à grande agitação. O que ocasionou a morte não intencional do bandido…”