Power Horse
por Mauro Paz
Ela puxa o homem pela gola do casaco, beijo. Loira, olhos verdes e nariz fino. Ele se afasta, coloca os óculos escuros. Abre-se a porta do carona. Pernas compridas, saia curta. O sapato toca a calçada. Ela desce do esportivo vermelho. Bate a porta. Rebola pra dentro do prédio. O carro sai em disparada. Mulata, Olhos azuis, nariz fino. Ela puxa o homem pela gola do casaco, beijo. Ele se afasta, coloca os óculos escuros. Abre-se a porta do carona. Bunda grande, calça jeans. O sapato toca a calçada. Ela desce do esportivo vermelho. Bate a porta. Rebola pra dentro do prédio. O carro sai em disparada. Morena, olhos castanhos, nariz fino. Ela puxa o homem pela gola do casaco, beijo. Ele se afasta, coloca os óculos escuros. Abre-se a porta do carona. Coxas grossas, vestido justo. O sapato toca a calçada. Ela desce do esportivo vermelho. Bate a porta. Rebola pra dentro do prédio. O carro sai em disparada. A menina termina de pentear os cabelos. A mãe coloca os pratos na mesa. O esportivo entra na garagem. O homem tira os óculos, guarda-os no porta-luvas. Abre-se a porta do motorista. Ele desce. Bate a porta. Caminha até a sala, encontra a mulher terminando de pôr a mesa. A menina corre. Abraça o pai. A mulher sorri. O locutor assina “Novo Power Horse, dê mais tempo para sua família.”
Voltamos a apresentar.
Ao som da trilha de abertura, a grua passeia sobre a plateia batendo palmas. Plano geral. No centro do palco, sentados em poltronas, o apresentador e a convidada. Dançarinas com microsaias em segundo plano. Close. “Boa tarde. Voltamos com o Você é o Show, que hoje conta com a presença da super pornôstar, Claudia Caswell.” Close na loira, ela abana. Plano geral, apresentador e convidada, fechando até plano próximo ao apresentador. “Claudia, no próximo dia cinco será o lançamento do seu novo trabalho, Macacos me mordam. Esse é o seu vigésimo filme. Como faz para se reinventar constantemente?” Plano médio na convidada. “Sou uma mulher cheia de ideias. Quando menos espero, catapimba, surge algo novo na minha cabeça. O conceito de Macacos me mordam, por exemplo, nasceu de uma visita ao zoológico. Fiquei imaginando cenas em cima de árvores e liguei pro meu roteirista. Sempre que tenho uma ideia, ligo pra ele. Fazemos uma ótima dupla.” Risadas da plateia. Close no apresentador. “E conta pra nós: sempre foi uma pessoa criativa?” Close-up nos lábios carnudos de Cláudia, abrindo até close no lado direito do rosto. “Bem. Durante a infância fui uma menina sem sal, mas sempre tive certeza de que o destino reservava minha grande hora. Com a adolescência e o sexo, mudei a forma de ver o mundo. Descobri que fazia coisas que mais ninguém conseguia fazer. Desenvolvi a criatividade testando meus limites.” Plano médio nos dois. “Sempre que se fala em como Claudia Caswell chegou ao estrelato, muitas pessoas afirmam que você só conseguiu por ter muito dinheiro. Agora é a hora, Claudia. A plateia do Você é o Show quer saber a verdade.” Ela ajeita o cabelo e dispara: “As pessoas realmente falam demais. Sei que é difícil para muitas mulheres saberem que seus maridos, pais, filhos e vizinhos me desejam. Hoje sou uma diva e isso é fato. O que fui e o que fiz, não importa. Enquanto eu estou aqui do seu lado, ganhando um bom cachê para aparecer neste programa de quinta categoria, elas estão em casa lavando cuecas sujas. Dói ver uma mulher independente que soube subir na vida...”
Desliga a televisão. Levanta da poltrona rosa choque. Veste apenas uma camiseta estampada, Marilyn Monroe com o vestido esvoaçante. Caminha até o quarto. Tira a camiseta. Joga sobre a cadeira ao lado da cama. Mede-se no espelho. Estica as sobras. No roupeiro, seleciona: sutien, saia, top e sapato. Dispensa a calcinha vermelha. Veste-se apresada. A campainha toca. Corre pra atender. Ele é moreno, alto. Calça jeans, camiseta branca e barba por fazer. “Eu tô de saída./ Não foi aqui que pediram um eletricista? / Foi, mas não posso te receber agora. Era pra ter vindo duas horas atrás./ Desculpe. Sei que a senhora não tem nada a ver com meus problemas, mas tive que dar almoço à minha mãe doente./ Dispense “a senhora”./ Ok. Volto outro dia./ Não! Acabo de desistir do compromisso. Fique à vontade.”
Inacreditável. A primeira vez que saem e onde ele a leva? Num cinema pornô. Nos primeiros instantes, ela tem nojo de tudo aquilo. Poltronas velhas, cheiro de mofo, uma dezena de tarados se masturbando. Nunca tinha visto um filme daqueles. A introdução besta sobre uma mulher solitária e um eletricista, precede trinta minutos de sexo. O casal abstrai o filme e os punheteiros. Ensaia a própria coreografia na última fileira de poltronas. Sobem os créditos. Ela ajeita a saia. Ele fecha o zíper. São os últimos a sair. Caminham até o carro em frente ao cinema. Embarcam. Partem em direção ao prédio no qual ela mora. Estacionam. Ela o puxa pela gola do casaco, beijo. Ele se afasta, coloca os óculos escuros. Abre-se a porta do carona. O sapato toca a calçada. Ela desce do esportivo vermelho. Bate a porta. O Power Horse vermelho sai em disparada.
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