Rodando
Por Mauro Paz
— ... Sei que o senhor vai achar estranho, mas a minha vida se resume há três dias: ontem, hoje e amanhã. Acordei sem lembrar nada às treze horas do dia de ontem, e desde então não durmo. Estava numa cama de casal, o despertador do rádio-relógio apitava. A outra metade da cama também desarrumada, dois travesseiros. Na cadeira, roupas femininas. Levantei. Fui até a janela. Carros, ônibus, gente pra tudo que é lado. Não reconheci nada naquele apartamento, mas de fato é muito bem decorado. Acima da cabeceira da cama fica um quadro com o rosto de uma mulher repetido seis vezes, alternando cores fortes que imitam serigrafia. Na sala, móveis bonitos e volumosos também em cores vibrantes. A cozinha é básica: fogão, pia, geladeira, microondas, um balcão e dois bancos. Sobre o balcão, junto à xícara de café pela metade, achei um jornal e um bilhete com a frase “todos têm direito à quinze minutos de fama”, seguida por um endereço. Quem deixou aquele bilhete, sabe que seu conteúdo mexeria comigo. Após lê-lo, servi uma xícara de café. Sentei, folheei o jornal e, entre um gole e outro, fui reparando nas notícias e em seus protagonistas a gozar dos fatídicos quinze minutos. Políticos, bandas de rock, bandidos, modelos, jogadores de futebol, todos no centro das atenções. Então, estabeleci uma meta: viveria meus quinze minutos. O principal questionamento era como direcionar o foco pra minha pessoa. Folheando o jornal, percebi que os quinze minutos são destinados às pessoas que realmente fazem algo inovador. Por exemplo, assaltos a bancos acontecem todos os dias, porém nunca uma quadrilha cavou um túnel de duas quadras para entrar no cofre do Banco Central e roubar mais de cento e sessenta milhões. Um acontecimento desses, até então, só nos filmes americanos. Por isso, o jornal destinou três páginas ao assalto. Em contrapartida, acontecimentos triviais como atropelamentos, assassinatos e casos de prostituição infantil ganharam pequenas notas, pois fazem parte da mesmice urbana. Após pensar durante horas em algo inovador para o mundo das notícias, bolei um plano. E, neste exato momento, estamos indo em direção ao seu palco. Poderia te contar tudo, mas não terá a mesma graça de quando comprar o jornal amanhã. Já te escuto falando para o dono da banca: “estive com esse cara ontem”. Deve pensar que não tenho nada na cabeça, mas saiba que o mundo precisa de pessoas como eu. Tornar-se um ídolo é mais complexo do que imagina. Implica em esvaziar-se de si para existir apenas em meio aos fãs. Não é à toa que, em sua origem, a palavra “ídolo” quer dizer fantasma, espectro, imagem. Um ídolo é um simulacro cru do desejo coletivo. As pessoas não suportam a condição limitada que vivem, então diluem-se em ídolos. Eu, particularmente, acho isso tudo muito divertido. Veja só, para um cara como eu, que desconhece a própria identidade, que não sabe se é casado ou solteiro, se tem filhos ou não, que não sabe ao menos se o apartamento onde acordou é seu, o que resta? Nada, além de sumir como um fantasma. Eu poderia perder dias, talvéz, anos, pra descobrir minha verdadeira identidade, mas isso pouco importa. O passado é só uma mentira bem contada. Quero ser pop. E quero agora. Pode encostar atrás daquele carro rosa. Deste ponto sigo sozinho. Guarda o troco pro jornal de amanhã.
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