O Diário

Por Mauro Paz

PRIMEIRO DIA
Não gosto muito de filmes americanos, mas, numa dessas madrugadas, vi um que até era bom. Contava a história de um taxista que, para fugir da monotonia, escrevia um diário. Considero um grande idiota aquele que repete tudo que vê na televisão. Porém, escrever um diário não é uma ideia tão má, ainda mais para um cara como eu, que passa o dia todo na rua.
Por isso, hoje, depois de terminar mais uma jornada de idas e vindas, passei no supermercado e comprei esse caderno. Sinceramente, minhas histórias são muito melhores que as dos filmes, pois os americanos só sabem contar uma única história: o bonzinho que liberta o mundo e come a gostosa no final.
Hoje, por exemplo, presenciei um episódio que nunca vi em filme algum. Eram sete da noite e eu contava os minutos pra largar o batente, quando entrou no carro uma dona de uns cinquenta e poucos anos. Loira, peitão, saia, coxas fortes. Resumindo, uma mulher bem conservada.  Parecia um pouco abatida. Imaginei que teria passado por um dia difícil no trabalho. Gosto de mulheres trabalhadoras. Preocupam-se mais com elas e menos com a vida dos outros.
Pediu para seguirmos em direção à zona norte. Durante o caminho, perguntou se eu era casado. Respondi que não. Começou a falar sobre paixão. Como qualquer homem de carne e osso, pensei que ela queria me dar, só depois percebi que aquela conversa tinha como motivo um coração partido. De certo, algum canalha deveria ter desapontado profundamente aquela coroa boazuda. Poucas coisas me doem tanto quanto ver uma mulher gostosa sofrendo por um canalha. Como era de se esperar, ela começou um longo monólogo no qual repetia inúmeras vezes as palavras paixão, traída e morte. 
Até esse ponto tudo igual aos filmes americanos. Eu conseguia até prever o final: depois de salvar o mundo, o cara bonzinho ligaria pedindo desculpas e comeria a coroa boazuda e eu, o taxista fudido, voltaria sozinho pra casa e acabaria na bronha. 
Porém, a surpresa veio quando chegamos ao endereço que ela pediu. Logo que parei o carro, saiu de dentro do prédio uma morena alta, magra, linda, de uns vinte poucos anos. Filha do casal de desentendidos, concluí. Mero engano. A dona pagou a corrida e nem quis o troco. Desceu correndo e grudou um beijo daqueles na morena. Depois do beijo, a dona se desmanchou em choro implorando pra que a morena não fosse embora. Esforço vão. A morena soltou-se dos braços da coroa e partiu em outro táxi. Jogada na calçada, ficou a dona soluçando.
Mulher chorando é de última. Fui obrigado a ir embora. No caminho para o supermercado, fiquei imaginando tudo que aquelas duas deviam fazer na cama. Puta baixaria. Particularmente, não tenho nada contra. Até lembrei daquela música do Raul, Rock das Aranhas. Foda é que, mesmo sem a aparição do bonzinho-comedor-de-coroas-boazudas-carentes, a bronha foi o meu fim. Pelo menos agora tenho um diário.

SEGUNDO DIA
Tanto escrevi, ontem, sobre os americanos e seus filmes clichês, que hoje apareceram no meu taxi três gringos. Foram do Plaza ao aeroporto. Em todos esses anos trabalhando com táxi, fiz diversas corridas com americanos. O engraçando é que, em todas as corridas, eles sempre ficam fazendo piadinhas em inglês sobre mim. De certo, acham que sou um subdesenvolvido-de-merda que não fala a língua do império. Hoje não foi diferente. Os três malandros engravatados falaram da minha barriga e que não entendiam como eu podia ser tão gordo num país em que faltava comida pra tanta gente. O mais saliente até levantou a hipótese de que a minha pança explicava a fome no Brasil, pois eu comia tudo e não deixava nada pra ninguém. Hilário, gringo de merda.
Depois que cansaram de fazer piadinhas sobre minha condição de obeso-terceiromundano, entraram num assunto realmente interessante. A viagem dos três ao Brasil foi para fechar acordo com uma empresa daqui que desenvolve ambientes em 3D. Pelo que entendi, eles planejam criar, no meio digital, uma simulação de realidade que tenha a Disney como temática. Só que fazer um mundo inteiro com ratos e patos falantes dá trabalho. Por isso, estão terceirizando a criação do ambiente com diversas empresas espalhadas pelo mundo. Por conta deles, os gringos, fica o desenvolvimento do chip que possibilitará às pessoas conectarem seus cérebros diretamente a esse ambiente artificial. Será um barato essa realidade de desenho animado. Tomara que existam taxis por lá.

TERCEIRO DIA
Depois dos comentários dos gringos sobre a minha contribuição para a fome no país, resolvi perder a barriga, que de fato está um pouco grande. Acordei duas horas antes do habitual e fui andar de bicicleta. Ninguém mais respeita ciclista nesta cidade. Pedalar durante trinta minutos se tornou um ato suicida. Muitos carros nas ruas. Vou ter que achar outro esporte.
Comentei minha aventura bicicletística com um casal que levei ao centro pela tarde. Eles me aconselharam a fazer ioga, pois com o peso que estou, esportes que exijam muito podem comprometer o coração. Convenhamos, ioga é coisa de viado. Não consigo me imaginar fazendo aqueles movimentos de tartaruga reumática.
Foda-se o casal, só sabiam reclamar. Seguiram da casa deles, na Zona Sul, até o centro falando mal de políticos: O senador fulano é um canalha, não tem vergonha de pagar suas contas com dinheiro público. O deputado tal está enrolado numa maracutaia das grandes, o presidente só faz vista grossa. Tropa de sem vergonha...
Até concordo com eles. Se pudesse escolher, não votaria nunca mais. Independente de qual candidato se vote, mais cedo ou mais tarde, ele vai estar na capa dos jornais acusado de alguma mutreta. A política não tem mais jeito. Qualquer um vira candidato: deputado-apresentador-de-telejornal, vereadora-dançarina-de-banda-baiana e governador-ator-de-filme-de-ação.
O povo hoje vota em imagens vazias, porque não há mais ideais. As pessoas se tornaram animais impulsionados pelo sexo. Há quem diga que são impulsionadas pelo dinheiro, mas eu acredito que o dinheiro é só pretexto, um meio pra se conseguir mais e mais sexo.
Por falar em sexo, preciso achar um esporte seguro pra perder essa barriga senão não como mais ninguém.

QUARTO DIA
Os homens preferem as loiras e eu não sou diferente. Hoje de tarde, lamentei profundamente por ainda não ter me livrado desta barriga, quando uma loira de cinema entrou no meu carro. Mesmo com a barriga sobrando, dei sorte. A princesa sentou no banco da frente.
Modelo de exportação. Peitos saltando da blusa, cinco litros de leite frouxo. Coxas fortes que me obrigaram a tirar umas casquinhas nas trocas das marchas. Deve passar horas na academia, até porque uma bunda daquelas não vem de fábrica.
Além de boa, a loira até que é inteligente. Falou do aquecimento global. Disse que achava bacana meu táxi ser movido a gás, porque assim polui menos e blá, blá, blá...
Enquanto a gostosa falava em salvar a natureza, eu abstraia todas as formas que os peitos dela podiam imitar: melão, bola de vôlei, capacete de astronauta. Entre todas, minha hipótese preferida foi dois travesseiros, nos quais eu me acomodaria enquanto vejo futebol na televisão.
Tenho consciência dos problemas ambientais, mas não consegui deixar de olhar praqueles dois vulcões. Interagia respondendo sim ou não.Volta e meia, eu forçava uma manobra brusca, só para ver eles balançar. Maravilha.
Por último, os ubres saculejando me lembraram da minha barriga e de que alguma medida deve ser tomada, caso contrário, peitões como aqueles só nos sonhos mesmo.

QUINTO DIA
Acordei cedo, precisava achar uma academia. Por sorte, encontrei pertinho do meu prédio. Não é muito grande, mas, de manhã bem cedo, não tem quase ninguém.
Na avaliação física, o médico da academia repetiu a fala do casal-mala: Pega leve, senão pode comprometer o coração. Antes de ele terminar o discurso, fui avisando que não faria ioga. O médico riu e disse que eu poderia escolher qualquer atividade, mas, inicialmente, aconselhava caminhadas na esteira.
Agora, os dias da minha pança estão contados. Saí da academia mais tranquilo. Ainda bem, pois o trabalho foi puxado. Aconteceu um evento no Plaza e fiz umas seis corridas entre o aeroporto e o hotel. Lá pela terceira corrida, me lembrei dos gringos que querem fazer um mundo virtual temático.
Quando me aposentei, prometi que não me envolveria mais com questões da ciência. Trinta anos trancado dentro de um laboratório é pra deixar qualquer um maluco. No entanto, não resisti. Cheguei em casa e corri para a internet. Precisava tirar as informações dos gringos a limpo.
Certas coisas, realmente têm que acontecer. Vasculhando a web, descobri que o plano dos gringos era algo muito maior do que uma brincadeira virtual. Eles pretendem dominar a humanidade jogando todas as pessoas do planeta para dentro de uma nova e alienada realidade. A intenção deles é arrecadar a energia presente nos corpos dos habitantes do grande cartoon para que assim tenham o combustível necessário para uma pequena elite colonizar Marte. Num primeiro momento, a ideia parece impossível. Porém o plano prevê uma grande arquitetura social.
Para induzir os habitantes da Terra a trocarem a vida real pela simulação, eles contam com políticos e grandes empresas de comunicação que a cada dia instauram o pânico entre as populações.
Tudo se encaixa. Acho que estão conseguindo o que querem. Entre todos que embarcam no táxi a desesperança é uma constante.

SEXTO DIA
Não dormi na noite passada. Fiquei pensando sobre o plano dos gringos. Isso fudeu meu dia, não tive ânimo para ir à academia e quase dormir na direção.
Decidi que preciso fazer algo para impedir que a humanidade seja escravizada nesse grande desenho animado. É complicado imaginar como fazer alguém fugir dessa arquitetura social. Eu mesmo estava aceitando que o mundo não tem mais solução.
Depois de horas rodando e cinco cafés expressos, cheguei a uma conclusão satisfatória. Vou desenvolver um chip que, ao ser implantado, faça com que a pessoa lembre-se apenas do dia anterior e seu desejo de aparecer seja multiplicado por mil. Assim, esse super-herói-pop estará sempre na mídia em situações inusitadas, tirando a atenção da massa para os problemas explorados pelo plano dos gringos.
Procurei entre os meus antigos arquivos do laboratório e achei bastante material sobre o desenvolvimento de microchips e compatibilidade com o cérebro humano. Hoje mesmo coloco a mão na massa.

SÉTIMO DIA
Infelizmente não vou poder escrever. O desenvolvimento do microchip está tomando todo meu tempo livre.

 OITAVO DIA
Continuo sem tempo.

NONO DIA
Finalmente acabei o microchip que salvará a humanidade. Sua implantação é simples: um rápido disparo com pistola injetável na nádega do indivíduo e pronto.
Preciso agora achar a pessoa ideal para se tornar o ídolo efêmero. O herói precisa ser bonito, forte, inteligente. Por isso, não poderá ter uma barriga como a minha. Levarei sempre a pistola comigo. Mais cedo ou mais tarde aparece a pessoa certa.
Hoje vou dormir melhor.

DÉCIMO DIA
Depois de terminar o microchip, consegui tranquilidade para voltar à academia, até mesmo porque lá poderia achar a cobaia ideal para aplicação do dispositivo. Então, de manhã bem cedo, peguei a pistola e saí. Ninguém. No horário em que vou, só o instrutor está por lá. Porém, ele não preenche o quesito inteligência.
Terminei minha série de exercícios, tomei uma ducha e segui até a padaria do Carlos. Por volta das oito da manhã, todos os taxistas do centro se encontram por lá. Tinha a esperança de achar algum colega que pudesse ser o novo herói da humanidade. Nada. Percebi que o segundo estepe não é uma exclusividade do meu táxi. Quase todos os motoristas também estão fora de forma. Resultado de horas e horas ao volante.
Depois de um café e um sonho, rodei até o ponto. As nove horas apareceu o primeiro passageiro. Magro, alto, terno listra de giz e gel no cabelo. Um cara apresentável, inteligente, mas pedante. Deus do céu, que figura chata. Fiquei imaginando as atrocidades que aquele sujeito poderia fazer, caso eu injetasse o microchip na bunda dele. Desceu no Fórum Central.
Não cheguei a rodar vinte metros e uma mulher atacou o carro. Não havia pensado na possibilidade de uma mulher ter o dispositivo implantado. No entanto, se eu escolhesse uma mulher, com certeza, não seria como aquela perua. Cinquenta e tantos anos e metida a guriazinha. A roupa justa marcava todas as pelancas. Pelo ar de superioridade, deve trabalhar no Fórum. Pior que funcionário público é funcionário público da justiça. Além de vagabundos, são metidos.
A querida pediu que eu a levasse até o shopping, ali perto. Dez da manhã e a folgada deixando o trabalho para ir às compras com o dinheiro dos impostos que pago. Pouca vergonha, mas fazer o quê? Meu trabalho é levar as pessoas para cima e para baixo. Larguei a pelancuda no shopping e fiquei pelo ponto dali mesmo.
Dez e meia, eu escutava as notícias no rádio quando ele apareceu. Alto, bonito, forte, um cara simpático. Não gosto de reparar em homens, mas essa situação extrema exige que todos os fatores sejam bem pensados.
O cara queria ir a um estúdio na zona leste. Eu precisava saber se era um ser pensante, ou se por trás daquela embalagem teria só estopa. Puxei papo falando do tempo. Ele falou do calor, mas sequer mencionou o assunto do aquecimento global. Passei para o tema futebol. Respondeu que não tem acompanhado muito porque seu time está em baixa e o trabalho de ator lhe tira muito tempo. Perfeito, pensei, o homem tem facilidade com as câmeras. Arrematei minha dúvida de que ele seria a pessoa ideal quanto falou que futebol é dominação e ele a abomina, pois a liberdade é a base de uma sociedade equilibrada.
Seguimos a conversa até o endereço indicado. No momento em que levantou para sair do carro, saquei a pistola e disparei contra a bunda dele.  O problema foi que ele não encarou bem o fato. Agarrou a gola da minha camisa e me esmurrou muitas vezes. Pessoas se aglomeram para ver o espancamento. Nenhum policial apareceu. Não percebi quando ele parou de bater. Acho que apaguei.
Boa escolha. Homem de atitude. Agora é só esperar e ver ele salvar o mundo diariamente.

Ou compre a edição impressa de DUAS RUAS DE UM BECO.

Duas Ruas de um Beco

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Por Mauro Paz

PRIMEIRO DIA
Não gosto muito de filmes americanos, mas, numa dessas madrugadas, vi um que até era bom. Contava a história de um taxista que, para fugir da monotonia, escrevia um diário. Considero um grande idiota aquele que repete tudo que vê na televisão. Porém, escrever um diário não é uma ideia tão má, ainda mais para um cara como eu, que passa o dia todo na rua.
Por isso, hoje, depois de terminar mais uma jornada de idas e vindas, passei no supermercado e comprei esse caderno. Sinceramente, minhas histórias são muito melhores que as dos filmes, pois os americanos só sabem contar uma única história: o bonzinho que liberta o mundo e come a gostosa no final.
Hoje, por exemplo, presenciei um episódio que nunca vi em filme algum. Eram sete da noite e eu contava os minutos pra largar o batente, quando entrou no carro uma dona de uns cinquenta e poucos anos. Loira, peitão, saia, coxas fortes. Resumindo, uma mulher bem conservada.  Parecia um pouco abatida. Imaginei que teria passado por um dia difícil no trabalho. Gosto de mulheres trabalhadoras. Preocupam-se mais com elas e menos com a vida dos outros.
Pediu para seguirmos em direção à zona norte. Durante o caminho, perguntou se eu era casado. Respondi que não. Começou a falar sobre paixão. Como qualquer homem de carne e osso, pensei que ela queria me dar, só depois percebi que aquela conversa tinha como motivo um coração partido. De certo, algum canalha deveria ter desapontado profundamente aquela coroa boazuda. Poucas coisas me doem tanto quanto ver uma mulher gostosa sofrendo por um canalha. Como era de se esperar, ela começou um longo monólogo no qual repetia inúmeras vezes as palavras paixão, traída e morte. 
Até esse ponto tudo igual aos filmes americanos. Eu conseguia até prever o final: depois de salvar o mundo, o cara bonzinho ligaria pedindo desculpas e comeria a coroa boazuda e eu, o taxista fudido, voltaria sozinho pra casa e acabaria na bronha. 
Porém, a surpresa veio quando chegamos ao endereço que ela pediu. Logo que parei o carro, saiu de dentro do prédio uma morena alta, magra, linda, de uns vinte poucos anos. Filha do casal de desentendidos, concluí. Mero engano. A dona pagou a corrida e nem quis o troco. Desceu correndo e grudou um beijo daqueles na morena. Depois do beijo, a dona se desmanchou em choro implorando pra que a morena não fosse embora. Esforço vão. A morena soltou-se dos braços da coroa e partiu em outro táxi. Jogada na calçada, ficou a dona soluçando.
Mulher chorando é de última. Fui obrigado a ir embora. No caminho para o supermercado, fiquei imaginando tudo que aquelas duas deviam fazer na cama. Puta baixaria. Particularmente, não tenho nada contra. Até lembrei daquela música do Raul, Rock das Aranhas. Foda é que, mesmo sem a aparição do bonzinho-comedor-de-coroas-boazudas-carentes, a bronha foi o meu fim. Pelo menos agora tenho um diário.

SEGUNDO DIA
Tanto escrevi, ontem, sobre os americanos e seus filmes clichês, que hoje apareceram no meu taxi três gringos. Foram do Plaza ao aeroporto. Em todos esses anos trabalhando com táxi, fiz diversas corridas com americanos. O engraçando é que, em todas as corridas, eles sempre ficam fazendo piadinhas em inglês sobre mim. De certo, acham que sou um subdesenvolvido-de-merda que não fala a língua do império. Hoje não foi diferente. Os três malandros engravatados falaram da minha barriga e que não entendiam como eu podia ser tão gordo num país em que faltava comida pra tanta gente. O mais saliente até levantou a hipótese de que a minha pança explicava a fome no Brasil, pois eu comia tudo e não deixava nada pra ninguém. Hilário, gringo de merda.
Depois que cansaram de fazer piadinhas sobre minha condição de obeso-terceiromundano, entraram num assunto realmente interessante. A viagem dos três ao Brasil foi para fechar acordo com uma empresa daqui que desenvolve ambientes em 3D. Pelo que entendi, eles planejam criar, no meio digital, uma simulação de realidade que tenha a Disney como temática. Só que fazer um mundo inteiro com ratos e patos falantes dá trabalho. Por isso, estão terceirizando a criação do ambiente com diversas empresas espalhadas pelo mundo. Por conta deles, os gringos, fica o desenvolvimento do chip que possibilitará às pessoas conectarem seus cérebros diretamente a esse ambiente artificial. Será um barato essa realidade de desenho animado. Tomara que existam taxis por lá.

TERCEIRO DIA
Depois dos comentários dos gringos sobre a minha contribuição para a fome no país, resolvi perder a barriga, que de fato está um pouco grande. Acordei duas horas antes do habitual e fui andar de bicicleta. Ninguém mais respeita ciclista nesta cidade. Pedalar durante trinta minutos se tornou um ato suicida. Muitos carros nas ruas. Vou ter que achar outro esporte.
Comentei minha aventura bicicletística com um casal que levei ao centro pela tarde. Eles me aconselharam a fazer ioga, pois com o peso que estou, esportes que exijam muito podem comprometer o coração. Convenhamos, ioga é coisa de viado. Não consigo me imaginar fazendo aqueles movimentos de tartaruga reumática.
Foda-se o casal, só sabiam reclamar. Seguiram da casa deles, na Zona Sul, até o centro falando mal de políticos: O senador fulano é um canalha, não tem vergonha de pagar suas contas com dinheiro público. O deputado tal está enrolado numa maracutaia das grandes, o presidente só faz vista grossa. Tropa de sem vergonha...
Até concordo com eles. Se pudesse escolher, não votaria nunca mais. Independente de qual candidato se vote, mais cedo ou mais tarde, ele vai estar na capa dos jornais acusado de alguma mutreta. A política não tem mais jeito. Qualquer um vira candidato: deputado-apresentador-de-telejornal, vereadora-dançarina-de-banda-baiana e governador-ator-de-filme-de-ação.
O povo hoje vota em imagens vazias, porque não há mais ideais. As pessoas se tornaram animais impulsionados pelo sexo. Há quem diga que são impulsionadas pelo dinheiro, mas eu acredito que o dinheiro é só pretexto, um meio pra se conseguir mais e mais sexo.
Por falar em sexo, preciso achar um esporte seguro pra perder essa barriga senão não como mais ninguém.

QUARTO DIA
Os homens preferem as loiras e eu não sou diferente. Hoje de tarde, lamentei profundamente por ainda não ter me livrado desta barriga, quando uma loira de cinema entrou no meu carro. Mesmo com a barriga sobrando, dei sorte. A princesa sentou no banco da frente.
Modelo de exportação. Peitos saltando da blusa, cinco litros de leite frouxo. Coxas fortes que me obrigaram a tirar umas casquinhas nas trocas das marchas. Deve passar horas na academia, até porque uma bunda daquelas não vem de fábrica.
Além de boa, a loira até que é inteligente. Falou do aquecimento global. Disse que achava bacana meu táxi ser movido a gás, porque assim polui menos e blá, blá, blá...
Enquanto a gostosa falava em salvar a natureza, eu abstraia todas as formas que os peitos dela podiam imitar: melão, bola de vôlei, capacete de astronauta. Entre todas, minha hipótese preferida foi dois travesseiros, nos quais eu me acomodaria enquanto vejo futebol na televisão.
Tenho consciência dos problemas ambientais, mas não consegui deixar de olhar praqueles dois vulcões. Interagia respondendo sim ou não.Volta e meia, eu forçava uma manobra brusca, só para ver eles balançar. Maravilha.
Por último, os ubres saculejando me lembraram da minha barriga e de que alguma medida deve ser tomada, caso contrário, peitões como aqueles só nos sonhos mesmo.

QUINTO DIA
Acordei cedo, precisava achar uma academia. Por sorte, encontrei pertinho do meu prédio. Não é muito grande, mas, de manhã bem cedo, não tem quase ninguém.
Na avaliação física, o médico da academia repetiu a fala do casal-mala: Pega leve, senão pode comprometer o coração. Antes de ele terminar o discurso, fui avisando que não faria ioga. O médico riu e disse que eu poderia escolher qualquer atividade, mas, inicialmente, aconselhava caminhadas na esteira.
Agora, os dias da minha pança estão contados. Saí da academia mais tranquilo. Ainda bem, pois o trabalho foi puxado. Aconteceu um evento no Plaza e fiz umas seis corridas entre o aeroporto e o hotel. Lá pela terceira corrida, me lembrei dos gringos que querem fazer um mundo virtual temático.
Quando me aposentei, prometi que não me envolveria mais com questões da ciência. Trinta anos trancado dentro de um laboratório é pra deixar qualquer um maluco. No entanto, não resisti. Cheguei em casa e corri para a internet. Precisava tirar as informações dos gringos a limpo.
Certas coisas, realmente têm que acontecer. Vasculhando a web, descobri que o plano dos gringos era algo muito maior do que uma brincadeira virtual. Eles pretendem dominar a humanidade jogando todas as pessoas do planeta para dentro de uma nova e alienada realidade. A intenção deles é arrecadar a energia presente nos corpos dos habitantes do grande cartoon para que assim tenham o combustível necessário para uma pequena elite colonizar Marte. Num primeiro momento, a ideia parece impossível. Porém o plano prevê uma grande arquitetura social.
Para induzir os habitantes da Terra a trocarem a vida real pela simulação, eles contam com políticos e grandes empresas de comunicação que a cada dia instauram o pânico entre as populações.
Tudo se encaixa. Acho que estão conseguindo o que querem. Entre todos que embarcam no táxi a desesperança é uma constante.

SEXTO DIA
Não dormi na noite passada. Fiquei pensando sobre o plano dos gringos. Isso fudeu meu dia, não tive ânimo para ir à academia e quase dormir na direção.
Decidi que preciso fazer algo para impedir que a humanidade seja escravizada nesse grande desenho animado. É complicado imaginar como fazer alguém fugir dessa arquitetura social. Eu mesmo estava aceitando que o mundo não tem mais solução.
Depois de horas rodando e cinco cafés expressos, cheguei a uma conclusão satisfatória. Vou desenvolver um chip que, ao ser implantado, faça com que a pessoa lembre-se apenas do dia anterior e seu desejo de aparecer seja multiplicado por mil. Assim, esse super-herói-pop estará sempre na mídia em situações inusitadas, tirando a atenção da massa para os problemas explorados pelo plano dos gringos.
Procurei entre os meus antigos arquivos do laboratório e achei bastante material sobre o desenvolvimento de microchips e compatibilidade com o cérebro humano. Hoje mesmo coloco a mão na massa.

SÉTIMO DIA
Infelizmente não vou poder escrever. O desenvolvimento do microchip está tomando todo meu tempo livre.

 OITAVO DIA
Continuo sem tempo.

NONO DIA
Finalmente acabei o microchip que salvará a humanidade. Sua implantação é simples: um rápido disparo com pistola injetável na nádega do indivíduo e pronto.
Preciso agora achar a pessoa ideal para se tornar o ídolo efêmero. O herói precisa ser bonito, forte, inteligente. Por isso, não poderá ter uma barriga como a minha. Levarei sempre a pistola comigo. Mais cedo ou mais tarde aparece a pessoa certa.
Hoje vou dormir melhor.

DÉCIMO DIA
Depois de terminar o microchip, consegui tranquilidade para voltar à academia, até mesmo porque lá poderia achar a cobaia ideal para aplicação do dispositivo. Então, de manhã bem cedo, peguei a pistola e saí. Ninguém. No horário em que vou, só o instrutor está por lá. Porém, ele não preenche o quesito inteligência.
Terminei minha série de exercícios, tomei uma ducha e segui até a padaria do Carlos. Por volta das oito da manhã, todos os taxistas do centro se encontram por lá. Tinha a esperança de achar algum colega que pudesse ser o novo herói da humanidade. Nada. Percebi que o segundo estepe não é uma exclusividade do meu táxi. Quase todos os motoristas também estão fora de forma. Resultado de horas e horas ao volante.
Depois de um café e um sonho, rodei até o ponto. As nove horas apareceu o primeiro passageiro. Magro, alto, terno listra de giz e gel no cabelo. Um cara apresentável, inteligente, mas pedante. Deus do céu, que figura chata. Fiquei imaginando as atrocidades que aquele sujeito poderia fazer, caso eu injetasse o microchip na bunda dele. Desceu no Fórum Central.
Não cheguei a rodar vinte metros e uma mulher atacou o carro. Não havia pensado na possibilidade de uma mulher ter o dispositivo implantado. No entanto, se eu escolhesse uma mulher, com certeza, não seria como aquela perua. Cinquenta e tantos anos e metida a guriazinha. A roupa justa marcava todas as pelancas. Pelo ar de superioridade, deve trabalhar no Fórum. Pior que funcionário público é funcionário público da justiça. Além de vagabundos, são metidos.
A querida pediu que eu a levasse até o shopping, ali perto. Dez da manhã e a folgada deixando o trabalho para ir às compras com o dinheiro dos impostos que pago. Pouca vergonha, mas fazer o quê? Meu trabalho é levar as pessoas para cima e para baixo. Larguei a pelancuda no shopping e fiquei pelo ponto dali mesmo.
Dez e meia, eu escutava as notícias no rádio quando ele apareceu. Alto, bonito, forte, um cara simpático. Não gosto de reparar em homens, mas essa situação extrema exige que todos os fatores sejam bem pensados.
O cara queria ir a um estúdio na zona leste. Eu precisava saber se era um ser pensante, ou se por trás daquela embalagem teria só estopa. Puxei papo falando do tempo. Ele falou do calor, mas sequer mencionou o assunto do aquecimento global. Passei para o tema futebol. Respondeu que não tem acompanhado muito porque seu time está em baixa e o trabalho de ator lhe tira muito tempo. Perfeito, pensei, o homem tem facilidade com as câmeras. Arrematei minha dúvida de que ele seria a pessoa ideal quanto falou que futebol é dominação e ele a abomina, pois a liberdade é a base de uma sociedade equilibrada.
Seguimos a conversa até o endereço indicado. No momento em que levantou para sair do carro, saquei a pistola e disparei contra a bunda dele.  O problema foi que ele não encarou bem o fato. Agarrou a gola da minha camisa e me esmurrou muitas vezes. Pessoas se aglomeram para ver o espancamento. Nenhum policial apareceu. Não percebi quando ele parou de bater. Acho que apaguei.
Boa escolha. Homem de atitude. Agora é só esperar e ver ele salvar o mundo diariamente.

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