Boneco

Por Mauro Paz

Claudia Caswell precisa tomar uma atitude. Tem cinco dias que seu namorido começou a pirar. O galã prestativo e amável, não diz mais nada com nada. Ontem foi oficialmente dispensado pelo Estúdio. Tinha uma gravação agendada e não compareceu. Nem ao menos telefonou justificando a falta. Claudia argumentou com o diretor executivo. Disse que ele estava passando por alguns problemas, mas logo voltaria a ativa. O diretor não quis saber. Independente das belas perfomances que o parceiro de Claudia já desempenhou, irresponsabilidade não combina com dinheiro.

Sentada na poltrona rosa choque, Claudia procura uma saída para sua relação. Continuar com um cara sem utilidade, não faz o menor sentido. No entanto, ela sofre. Sabe que o coitado não tem onde cair morto. Veio do interior para estudar medicina, mas não deu pé. Pouca grana. O trabalho de frentista não possibilitava tempo pra estudar. Acabou no Estúdio por indicação de uma amiga da cidade natal que participara de alguns filmes.
Como não pensou nisso antes? Entrar em contato com a família é uma boa solução. Certamente o levariam de volta para o interior. Assim, o maluquinho teria um lar e Claudia sua vida de volta. Divas não podem ser babás de marmanjos.

Claudia levanta. Vai até a mesa de cabeceira do quarto. Vasculha as gavetas. Quinquilharias. Encontra a velha agenda. Letra “C” de casa. Número com DDD estranho. Provavelmente é esse. Chama. Chama. Chama. A pessoa do outro lado afirma não ter parentes e que aquele número é seu faz dois anos.

Claudia atira a agenda em cima da cama. Pega a carteira de cigarros no braço da poltrona e caminha até a cozinha. Enche a xícara. Nada como café e crivo para um reconforto instantâneo. Retorna à sala. Senta na poltrona.
Matá-lo é uma alternativa. Porém, não tem coragem. É uma estrela, uma diva. Divas não pegam em armas.
Liga a televisão.

“Conheça o novo Coisificador Plus. Só o Coisificador Plus transforma seu parente querido no objeto que mais combina com ele. Veja o exemplo de Rosane Maria:
— Minha mãe estava velha. Não tínhamos mais o que fazer com ela. A coitadinha andava pelos cantos e não dizia coisa com coisa. Então optamos pelo Coisificador Plus. Foi uma nova oportunidade. Hoje ela é essa bela estante. Sem dúvida foi a melhor forma de manter a mamãe conosco.

Não perca tempo. O Coisificador Plus faz uma completa análise psicológica e transforma seu ente querido no objeto que mais combina com ele. Não é magia, é tecnologia. Dê utilidade àquele que já não faz nada que preste.
As primeiras cem ligações terão direito a um preço promocional...”

Exatamente disso que Claudia precisa. Livrar-se do parceiro, sem sujar as mãos e ainda decorar o apartamento com um belo suvenir. Em que objeto será que o Coisificador Plus o transformaria? Provavelmente num consolo bem grande, mas isso pouco importa.

Larga o cigarro no cinzeiro, tira o telefone do gancho e disca. A menina que atende é bem educada. Comunica que aquela é a ligação de número vinte e cinco, portanto, tem direito ao desconto promocional. Ótimo. Desde o lançamento de Macacos me Mordam, Claudia não vê dinheiro entrar na conta.

Explica para a menina que se trata de um caso de loucura e que o “paciente” pode reagir com violência. A recepcionista a tranquiliza explicando que a equipe está preparada para casos assim. O importante é que cinquenta por cento do valor seja depositado na conta da empresa até vinte e quatro horas antes do processo e que os dois compareçam no consultório pontualmente. Do restante eles cuidam, inclusive da entrega do produto final, caso o resultado seja um refrigerador, roupeiro ou algum outro objeto de difícil transporte.

Perfeito. Ansiosa, Claudia marca para amanhã, duas da tarde. Fará o depósito imediatamente.

Nem bem desliga o telefone e tem tudo planejado. Dirá que marcou médico para analisar a questão da memória dele. Irão conversando no táxi e ele só se dará conta de que não está num consultório médico, quando a equipe do Coisificador Plus o tiver imobilizado.
Toca o telefone.

“Alô. Querido, como vai? Nosso roteiro está pronto? Ótimo, mas amanhã não posso. Tenho compromisso. O diretor disse que não grava se não resolvermos tudo amanhã? Quem ele pensa que é? Deve ter esquecido que está tratando com Claudia Caswell, não com qualquer rameira. Aham, o dinheiro é dele e as coisas devem ser como ele quer. Filho da mãe! E a liberdade do artista onde fica? Ok, nos encontramos com esse porco amanhã às onze. Dou um jeito no meu compromisso. Saudade de ti, querido. Beijocas!”

Tudo que ela não precisa. Uma reunião horas antes de se livrar do mala, ou melhor, transformá-lo numa. Paciência. Depois vê como resolve. Melhor correr antes que o banco feche e não dê para depositar o dinheiro.

Aviso Importante
[Caso você tenha dificuldade em abstrair que o próximo parágrafo refere-se ao dia que segue, espere para continuar lendo o restante do conto amanhã. Assim o tempo da ficção ficará de acordo com o tempo da sua entediante realidade.]

Treze e cinquenta. Nada do imbecil aparecer. Claudia bate pé na sala de espera. Era certo que ele se esqueceria do combinado na noite anterior. Porém, não havia outro jeito. A reunião era inadiável. De fato, seria muito para um sujeito naquele estado reparar no despertador, sair do apartamento, atacar um táxi e entregar o papel com o endereço ao motorista. Ao menos Claudia conseguiu definir o início das gravações do novo filme.
Chega o operador do Coisificador Plus. Reconhece Claudia. É seu fã. Não imaginava que ela seria tão gostosa pessoalmente. Analisa de cabo a rabo. Olhares devassos não a intimidam mais. Na verdade, até gosta. Considera reconhecimento pelo trabalho.

As mãos do operador transpiram. Está a poucos metros dos peitos de sua musa. Nem se lembra quantas homenagens prestou. Pergunta para Claudia se o paciente vai demorar. Ela diz não saber.

O funcionário explica que o equipamento tem um tempo de preparo e, depois do deadline, o processo recomeça do zero. Ela descruza as pernas. Pede um cigarro. O operador percebe a ausência de calcinha. O coração dispara. Pega o maço no bolso do jaleco. Aproxima-se para entregar o pito. Agarra-a. Ela reluta, no entanto já previa a situação. Não é a primeira tentativa de estupro pela qual passa.

O operador é mais maníaco do que ela imagina. Arrasta-a para dentro do Coisificador Plus. Ela grita. Ninguém aparece. Fecha a escotilha. Quer Claudia só pra si, mesmo que seja como um sofá ou uma mesinha de televisão, sobre a qual repousará os filmes de maior sucesso da diva.

O relógio apita. Quatorze horas. O processo começa. Zumbidos. Raios penetram na mente de Claudia rastreando a sua personalidade. Ela luta pra sair. Uma diva não pode acabar como um objeto. Imagina-se uma linda cômoda cor-de-rosa, gavetas abertas e o maldito operador se masturbando sobre ela. Podre. Homens são todos assim. As moléculas começam a se reordenar. O maníaco nem pisca de tanta emoção. Finalmente, aquele péssimo emprego lhe traz alguma felicidade. Sente-se devidamente recompensado. A máquina para. Ele esfrega as mãos. Abre a escotilha. Não pode acreditar. A diva Claudia Caswell agora é uma ovelha inflável. No entanto, todas as feições permanecem ali: a cabeleira loira, os seios, e principalmente os orifícios.

Dobra-a cuidadosamente e leva pro vestiário da empresa. Noite de fôlego.

Compre a edição impressa de DUAS RUAS DE UM BECO.

Duas Ruas de um Beco

Boneco

Por Mauro Paz

Claudia Caswell precisa tomar uma atitude. Tem cinco dias que seu namorido começou a pirar. O galã prestativo e amável, não diz mais nada com nada. Ontem foi oficialmente dispensado pelo Estúdio. Tinha uma gravação agendada e não compareceu. Nem ao menos telefonou justificando a falta. Claudia argumentou com o diretor executivo. Disse que ele estava passando por alguns problemas, mas logo voltaria a ativa. O diretor não quis saber. Independente das belas perfomances que o parceiro de Claudia já desempenhou, irresponsabilidade não combina com dinheiro.

Sentada na poltrona rosa choque, Claudia procura uma saída para sua relação. Continuar com um cara sem utilidade, não faz o menor sentido. No entanto, ela sofre. Sabe que o coitado não tem onde cair morto. Veio do interior para estudar medicina, mas não deu pé. Pouca grana. O trabalho de frentista não possibilitava tempo pra estudar. Acabou no Estúdio por indicação de uma amiga da cidade natal que participara de alguns filmes.
Como não pensou nisso antes? Entrar em contato com a família é uma boa solução. Certamente o levariam de volta para o interior. Assim, o maluquinho teria um lar e Claudia sua vida de volta. Divas não podem ser babás de marmanjos.

Claudia levanta. Vai até a mesa de cabeceira do quarto. Vasculha as gavetas. Quinquilharias. Encontra a velha agenda. Letra “C” de casa. Número com DDD estranho. Provavelmente é esse. Chama. Chama. Chama. A pessoa do outro lado afirma não ter parentes e que aquele número é seu faz dois anos.

Claudia atira a agenda em cima da cama. Pega a carteira de cigarros no braço da poltrona e caminha até a cozinha. Enche a xícara. Nada como café e crivo para um reconforto instantâneo. Retorna à sala. Senta na poltrona.
Matá-lo é uma alternativa. Porém, não tem coragem. É uma estrela, uma diva. Divas não pegam em armas.
Liga a televisão.

“Conheça o novo Coisificador Plus. Só o Coisificador Plus transforma seu parente querido no objeto que mais combina com ele. Veja o exemplo de Rosane Maria:
— Minha mãe estava velha. Não tínhamos mais o que fazer com ela. A coitadinha andava pelos cantos e não dizia coisa com coisa. Então optamos pelo Coisificador Plus. Foi uma nova oportunidade. Hoje ela é essa bela estante. Sem dúvida foi a melhor forma de manter a mamãe conosco.

Não perca tempo. O Coisificador Plus faz uma completa análise psicológica e transforma seu ente querido no objeto que mais combina com ele. Não é magia, é tecnologia. Dê utilidade àquele que já não faz nada que preste.
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Exatamente disso que Claudia precisa. Livrar-se do parceiro, sem sujar as mãos e ainda decorar o apartamento com um belo suvenir. Em que objeto será que o Coisificador Plus o transformaria? Provavelmente num consolo bem grande, mas isso pouco importa.

Larga o cigarro no cinzeiro, tira o telefone do gancho e disca. A menina que atende é bem educada. Comunica que aquela é a ligação de número vinte e cinco, portanto, tem direito ao desconto promocional. Ótimo. Desde o lançamento de Macacos me Mordam, Claudia não vê dinheiro entrar na conta.

Explica para a menina que se trata de um caso de loucura e que o “paciente” pode reagir com violência. A recepcionista a tranquiliza explicando que a equipe está preparada para casos assim. O importante é que cinquenta por cento do valor seja depositado na conta da empresa até vinte e quatro horas antes do processo e que os dois compareçam no consultório pontualmente. Do restante eles cuidam, inclusive da entrega do produto final, caso o resultado seja um refrigerador, roupeiro ou algum outro objeto de difícil transporte.

Perfeito. Ansiosa, Claudia marca para amanhã, duas da tarde. Fará o depósito imediatamente.

Nem bem desliga o telefone e tem tudo planejado. Dirá que marcou médico para analisar a questão da memória dele. Irão conversando no táxi e ele só se dará conta de que não está num consultório médico, quando a equipe do Coisificador Plus o tiver imobilizado.
Toca o telefone.

“Alô. Querido, como vai? Nosso roteiro está pronto? Ótimo, mas amanhã não posso. Tenho compromisso. O diretor disse que não grava se não resolvermos tudo amanhã? Quem ele pensa que é? Deve ter esquecido que está tratando com Claudia Caswell, não com qualquer rameira. Aham, o dinheiro é dele e as coisas devem ser como ele quer. Filho da mãe! E a liberdade do artista onde fica? Ok, nos encontramos com esse porco amanhã às onze. Dou um jeito no meu compromisso. Saudade de ti, querido. Beijocas!”

Tudo que ela não precisa. Uma reunião horas antes de se livrar do mala, ou melhor, transformá-lo numa. Paciência. Depois vê como resolve. Melhor correr antes que o banco feche e não dê para depositar o dinheiro.

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[Caso você tenha dificuldade em abstrair que o próximo parágrafo refere-se ao dia que segue, espere para continuar lendo o restante do conto amanhã. Assim o tempo da ficção ficará de acordo com o tempo da sua entediante realidade.]

Treze e cinquenta. Nada do imbecil aparecer. Claudia bate pé na sala de espera. Era certo que ele se esqueceria do combinado na noite anterior. Porém, não havia outro jeito. A reunião era inadiável. De fato, seria muito para um sujeito naquele estado reparar no despertador, sair do apartamento, atacar um táxi e entregar o papel com o endereço ao motorista. Ao menos Claudia conseguiu definir o início das gravações do novo filme.
Chega o operador do Coisificador Plus. Reconhece Claudia. É seu fã. Não imaginava que ela seria tão gostosa pessoalmente. Analisa de cabo a rabo. Olhares devassos não a intimidam mais. Na verdade, até gosta. Considera reconhecimento pelo trabalho.

As mãos do operador transpiram. Está a poucos metros dos peitos de sua musa. Nem se lembra quantas homenagens prestou. Pergunta para Claudia se o paciente vai demorar. Ela diz não saber.

O funcionário explica que o equipamento tem um tempo de preparo e, depois do deadline, o processo recomeça do zero. Ela descruza as pernas. Pede um cigarro. O operador percebe a ausência de calcinha. O coração dispara. Pega o maço no bolso do jaleco. Aproxima-se para entregar o pito. Agarra-a. Ela reluta, no entanto já previa a situação. Não é a primeira tentativa de estupro pela qual passa.

O operador é mais maníaco do que ela imagina. Arrasta-a para dentro do Coisificador Plus. Ela grita. Ninguém aparece. Fecha a escotilha. Quer Claudia só pra si, mesmo que seja como um sofá ou uma mesinha de televisão, sobre a qual repousará os filmes de maior sucesso da diva.

O relógio apita. Quatorze horas. O processo começa. Zumbidos. Raios penetram na mente de Claudia rastreando a sua personalidade. Ela luta pra sair. Uma diva não pode acabar como um objeto. Imagina-se uma linda cômoda cor-de-rosa, gavetas abertas e o maldito operador se masturbando sobre ela. Podre. Homens são todos assim. As moléculas começam a se reordenar. O maníaco nem pisca de tanta emoção. Finalmente, aquele péssimo emprego lhe traz alguma felicidade. Sente-se devidamente recompensado. A máquina para. Ele esfrega as mãos. Abre a escotilha. Não pode acreditar. A diva Claudia Caswell agora é uma ovelha inflável. No entanto, todas as feições permanecem ali: a cabeleira loira, os seios, e principalmente os orifícios.

Dobra-a cuidadosamente e leva pro vestiário da empresa. Noite de fôlego.

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