Fincapata
Por Mauro Paz
Como qualquer garoto de 16 anos, era óbvio que Marcelo conhecia Claudia Caswell, a rainha do pornô. O que ele não entendia era como a loira aparecera, naquele final de tarde, na sua minúscula cidade, mais especificamente, dentro da oficina do seu pai.
Ao celular, ali no meio da garagem, Claudia parecia muito melhor do que nos filmes. Mais vistosa. Mais elegante. Uma verdadeira diva. Cintura fina. Pernas longas desenhadas pela calça jeans que ressaltavam também a bela bunda da atriz. Sapatos vermelhos combinavam com a pequena bolsa. Os óculos escuros prendiam os longos cabelos, enquanto o top preto com decote generoso apresentava os argumentos que a tornaram ícone de uma geração.
— Não. Já falei. Eles não tinham meu nome na reserva do hotel... É, agora eu fico nesse fim de mundo sem ter onde dormir.
Fim de mundo não. Marcelo não gostava que falassem mal de sua cidade. Nos tempos da Fábrica, foi próspera. Seu pai, assim como boa parte dos moradores, trabalhou lá. Porém, para a geração do garoto, só restou o prédio abandonado e as histórias dos mais velhos.
— Ela está um pouco nervosa — disse o pai de Marcelo. Tentou explicar que havia outro hotel para os lados da praça, mas Claudia nem deu ouvidos. Sacou o celular e, desde então, não calou a boca. Entre graxa e apertões, o pai pediu a Marcelo que a levasse ao hotel assim que desligasse. Precisava voltar ao trabalho, o carro do prefeito era para o fim da tarde.
Marcelo dificilmente não atendia a um pedido do pai. Nesse caso, em especial, como poderia recusar a simples tarefa de acompanhar a musa por três ou quatro quadras? Depois de mais alguns minutos de caretas e palavrões, Claudia desligou o telefone. Olhou ao redor.
— Quem é você, garoto?
— Marcelo.
— Marcelo? Onde seu pai se meteu?
— Ele precisava terminar um serviço. Pediu que eu te levasse ao outro hotel da cidade.
— Outro hotel? Ótimo. Meu agente é tão imbecil que nem sabia que este buraco tem outro hotel.
— Pois é, tem. Quer que eu te leve? — disse seco.
— Claro. Senão vou ter que dormir na rua. E de mais a mais, gosto de andar acompanhada por franguinhos como tu.
Franguinho? Marcelo era quase um homem. Tinha o corpo bem composto, alguns fios de barba e havia comido umas três gurias. Bem, certo que nenhuma que se comparasse à Claudia. Aliás, na cidade toda, mulher nenhuma chegava aos seus pés: viva, cheia de sim, elegante e gostosa. Muito gostosa. Ser chamado de “franguinho” era quase um elogio, vindo de quem vinha.
Partiram. Começava a escurecer. Andando pela calçada, Marcelo espiava os peitos da atriz que destoava da paisagem simplória da cidade. Percebendo a inquietação do garoto, Claudia não se conteve:
— Sabe quem eu sou?
— Não — disse Marcelo. As mãos do garoto transpiravam.
— Duvido que um guri da tua idade não saiba quem eu sou. Já deve ter me prestado muitas homenagens — retrucou a loira, com ar de deboche. Ele sacudiu a cabeça negando.
— Sou Claudia Caswell. Já escutou esse nome?
Marcelo teve vergonha de admitir que era fã de seus filmes. Mentiu mais uma vez. Os olhos inquietos do garoto denunciavam. Claudia gostava da situação: um menino matuto do interior embasbacado com a sua fenomenal presença. Aquilo a excitava. Sentia-se na obrigação de ensinar a arte do sexo aos iniciantes. Queria também aquele aluno.
— Se nunca escutou falar no meu nome, procure. Está na idade de descobrir.
Ele sabia muito bem do que a atriz falava. Conhecia todos os seus filmes. De fato, tinha ao lado a maior e mais criativa instrutora sexual que poderia um dia desejar. Porém, o pensamento ia além. Imaginava-se a nova celebridade da cidade. Podia escutar os outros garotos falando “Aquele que vai caminhando é o Marcelo, amigo de Claudia Caswell. Cara de sorte”. Até as cocotinhas o valorizariam, pois uma mulher como Claudia não escolheria um amigo sem segundas intenções.
— Tem algum lugar para sair aqui? — disse a loira, cansada do silêncio do rapaz. — Como vocês se divertem?
Marcelo respondeu que o local mais divertido da cidade era o Pub, um pequeno, porém simpático bar que ficava na quadra seguinte. Claudia se animou com a ideia. Não poderia passar a noite sem uns drinks.
— Será que está aberto?
— Acho que sim. É hora do happy hour.
— Ótimo. Então, você me acompanha.
O celular tocou. Sem parar de caminhar, ela abriu a bolsa e atendeu. Era o agente que recebeu os xingamentos mais improváveis que Marcelo havia escutado. Em meio aquele bombardeio de elogios, a dupla chegou à frente do Pub. Marcelo preferiu não interromper a ligação, apenas indicou com o braço.
O bar estava cheio. Entraram. Claudia acenou para um cara sentado na mesa ao fundo. Encaminhou-se para lá. Marcelo não entendia como ela poderia conhecer alguém lá dentro. Chegaram à mesa. Ainda falando ao celular, ela cumprimentou o estranho, sentou. Tinha uns vinte anos, magro, barba por fazer. No braço direito, a manga da camiseta deixava à mostra um pedaço da tatuagem de dragão.
Em poucos segundo, todos no bar reconheceram Claudia. Uma pequena multidão se aglomerou em volta da mesa. Marcelo foi, aos poucos, afastado. Claudia permanecia compenetrada em acabar com seu agente, enquanto alguns gaiatos tiravam fotos.
Marcelo estava em segundo plano, se é que ainda existia algum plano para ele. Deveria saber que uma musa não tem privacidade e entrar no Pub poderia resultar naquele tumulto. Para fazer tempo, foi ao banheiro. Abriu o zíper e falou com seu pênis: “Viu? Aquilo sim é mulher”. Sacudiu o amigo e o reabrigou na cueca.
Quando voltou ao saguão do bar, não havia Claudia, nem cara estranho, muito menos multidão. Onde diabos todos foram? Mal terminou de questionar e percebeu a bolsa vermelha sobre a mesa. Precisava devolver. Seria mais um pretexto para estar com Claudia, que ficaria grata e, provavelmente, lhe daria uma boa recompensa.
Correu até a mesa, apanhou a bolsa e ganhou a rua. Deduziu que para fugir da multidão, Claudia pedira ao tatuado que a levasse até o hotel da praça. Com sorte, encontraria os dois na recepção, preenchendo o cadastro.
O hotel era próximo, Marcelo chegou rápido, porém ninguém na recepção tinha notícias da loira. Agradeceu e saiu. Na calçada, refletia sobre a validade de abrir a bolsa na tentativa de achar algum contato que o levasse à diva. Antes de se decidir, reconheceu o tatuado indo uns cem metros a frente. Chamou. Nada. Apertou o passo para alcançá-lo.
O estranho entrou na antiga Fábrica. Marcelo sabia que o prédio servia de ponto de encontro para skatistas e viciados. Fazer o que? Precisava devolver a bolsa. Entrou também. Nunca havia colocado os pés lá. O lugar fedia. Pelo chão, meia dúzia de pessoas dormiam embaladas por um punk rock infernal. Perto de uma das grandes janelas, a roda de viciados compartilhava da mesma seringa. O olhar amedrontado de Marcelo varria o lugar. Nem sinal. Escutou um skate se aproximando, era ele.
— Amigo, preciso falar com você – gritou Marcelo. Nenhuma reação. O tatuado seguia com seu carrinho pelo saguão da Fábrica. Pulava os obstáculos indo de uma ponta à outra repetidamente. Marcelo se pôs no caminho do skate. O tatuado desceu do carrinho pegando-o com uma das mãos.
— Tá maluco, retardado? Se meter na minha frente assim – disse o tatuado. Os olhos vermelhos, a voz enrolada. Marcelo precisava descobrir onde Claudia estava e cair fora daquele lugar.
— Só quero saber onde foi a Claudia. Preciso devolver a bolsa.
— Não sei de Claudia nenhuma.
— Como não sabe? Ela é sua amiga. Tava na sua mesa do Pub.
— Amiguinho, não sei de Claudia nenhuma, porra — ameaçando Marcelo com o skate.
Assustado, Marcelo juntou uma barra de ferro do chão e apontou para o tatuado.
— Valente, hein? Vem até aqui. Atravessa na frente do meu skate e ainda me ameaça com um pedaço de ferro.
— Sem confusão. Só quero saber onde está a Claudia. Tenho que devolver a bolsa.
— Já disse que não sei de Claudia — gritou o tatuado atacando-o com o skate. Marcelo esquivou-se, retrucou com a barra na nuca.
A barra. O sangue. O corpo. As testemunhas.
Marcelo disparou. As pernas descontroladas foram até a oficina do pai. Suspirou seguro. Ninguém por perto. Não havia saída, teria que abrir a bolsa. A carteira de identidade solta em meio aos badulaques e a etiqueta falsificada certificavam que aquela não era a bolsa de Claudia Caswell.
A cidadela foi pequena pra culpa do rapaz.
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