Ilhas ao Litoral
Por Mauro Paz
Acorda com a visão turva. Levanta da cama, calça os chinelos e caminha até o banheiro. Lava o rosto. Toalha. Segue para sala de jantar. O café da manhã está posto. Senta-se. Belo dia. Enche a xícara com café. Os jornais, ordenados sobre a mesa. Passa o olho nas manchetes:
Jornal Folha do Brasil
“O mundo acaba hoje. Brasília em recesso”.
Jornal Vinte Quatro Horas
“O Fim da Terra. Vaticano velado em oração. Gaúcho está com Papa”.
Jornal Diário do País
“Últimos instantes. Americanos procuram por culpados no Irã”.
Termina de beber o café, levanta da mesa e segue até o closet. Terno preto, camisa branca, gravata azul. Pega o notebook. Desce as escadas. No carro, o motorista cumprimenta. Partem.
— O senhor leu os jornais hoje?
— Claro, como de costume.
— Bem, o Diário Popular diz que o mundo vai acabar, por isso, a prefeitura tá distribuindo roupas e mantimentos. Gostaria de saber, se depois de largar o senhor no escritório, poderia passar no local da distribuição.
— Não acho uma boa ideia. Preciso de você às nove horas, tenho uma reunião no outro lado da cidade.
O carro para. Uma grande multidão de refugiados tranca a avenida. No congestionamento, olha o Parque pela janela. Recorda a antiga promessa feita à primeira namorada: “No dia em que o mundo acabar, nos encontraremos no monumento central do Parque”.
Besteira de adolescentes. Precisa chegar ao escritório. A reunião com os americanos é às oito horas, porém a multidão não dá vez. Decidi caminhar, quer ganhar tempo. Antes de descer, instrui o motorista que vá direto ao escritório e entregue o notebook à secretária.
Caminha pelo Parque em meio às milhares de pessoas que vagam desordenadamente. Desvia de um, dois. Precisa chegar à avenida do lado oposto. Desvia de outro. Gritos. Cogita passar pelo monumento. Muda de ideia, ela não estaria lá. Além do mais, não pode se atrasar. Quando fez a promessa, não imaginava que, vindo de onde veio, seria um dos dez homens mais importantes do mundo.
Finalmente chega à avenida. Olha para trás, como se estivesse sepultando o passado no Parque. Percebe uma grande sombra engolindo a marca do sol no chão. Entre os prédios, surge a onda. Grande. Gorda. Recheada de pessoas e carros.
Atravessa a avenida e entra num conjunto comercial. Sobe pelas escadas de emergência até o terceiro andar. A onda quebra. Carros e pedestres são varridos. O nível da água atinge o segundo andar do prédio. Pega o celular.
— Alô? Bom dia. Gostaria que a senhora avisasse aos americanos que me atrasarei um pouquinho. A rua está um tanto alagada.
O nível da água desce rapidamente. Sai do prédio. Para. O Parque. A reunião. A ex-namorada. Os americanos. Uma segunda onda quebra. Por pouco não se afoga. A água o arrasta de volta para a avenida na qual descera do carro. Ajoelha-se. O céu ganha um tom alaranjado. Não há mais o que fazer. Cerra o punho e soca o chão ordenando que o mundo acabe.
No entanto, as coisas não são sempre como ele quer. O mundo não acaba e uma bolha gigante cresce no centro do Parque. A água salgada, que toma a cidade, escorre na direção da esfera. Cresce. Cresce. Cresce, engolindo o que encontra pela frente, inclusive a desmoralizada celebridade. No interior da bolha, um amontoado de pessoas, prédios, carros, bichos, objetos. Redonda, transparente e recheada, a bolha se estende até os limites da cidade. Para. Vibra por alguns instantes. Explode.
Um buraco do tamanho da ponta de um alfinete se abre no centro da barriga do desesperado protagonista. Tudo que estava no interior da bolha é sugado pelo orifício. Enjoado, sente um turbilhão penetrando-o, como se tivesse comido iogurte de ameixa. Por fim, o último fragmento da cidade é sorvido, um índio Kaingang. O minúsculo buraco desacopla da barriga tornando-se independente e engolindo o seu, até então, dono.
O homem acorda com a visão turva. Reconhece o banco detrás da velha Caravan prata de sua família. Na frente estão seus pais. O rádio da caminhonete toca a velha canção esquecida que ele nunca escutou. Volta a ter sete anos de idade. Pela janela, espia. Vê tudo o que entrou pelo buraco seguindo pela Freeway. A falsa e morna felicidade, finalmente, derrete tudo rumo ao Litoral.
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