Uma questão de bom senso

Por Mauro Paz

Paulo queria mudar o mundo através da ciência. Por esse motivo, formou-se em Biologia com especialização em Genética Humana. Acreditava que tornaria a humanidade menos egoísta descobrindo a forma de alterar a essência do comportamento humano por meio de combinações genéticas.

Durante a graduação, foi um aluno exemplar, participando de projetos de iniciação científica e de diversos trabalhos de extensão. Previsivelmente, ao término dessa etapa, ingressou no Mestrado, período no qual se dedicou assiduamente a pesquisa sobre as influências de cargas genéticas no comportamento humano. Devido aos grandes progressos de sua dissertação, foi convidado pela Universidade a ingressar no Doutorado.
Dessa forma, aos vinte e oito anos, possuía o título de Doutor em Genética Humana, o reconhecimento do mundo acadêmico e uma bela proposta de trabalho. O maior Laboratório de Genética Humana do mundo se dispunha a lhe pagar uma pequena fortuna anual para que continuasse com a pesquisa.

Era jovem, inteligente e com a oportunidade de trabalho que sempre aspirou. Entretanto, o idealista, obcecado em levar mais fraternidade ao mundo, tornou-se alheio aos que o cercavam. Falava pouco com os familiares e somente o necessário com os colegas da Universidade. Em seu currículo amoroso, não incluía nenhuma namorada, ficante ou simples paquera. 

Também pudera, o grande número de horas debruçado sobre livros e a má alimentação tornaram sua aparência repugnante. A obesidade somou-se ao desleixo. Não fazia a barba, aparava os cabelos ou as unhas. Vestia-se sempre com a mesma muda de roupa, a qual lavava apenas nos finais de semana, momento em que trajava exclusivamente pijama. De fato, pouco ligava para aparência. Considerava a sua missão muito maior do que simplórios protocolos sociais. Seguia arduamente os estudos sempre só.

Diversas vezes, esteve, como convidado, nas mais renomadas universidades do planeta. Ao retornar das viagens, sequer sentia a falta de alguém para lhe recepcionar. As experiências bastavam-lhe.

Assim foi até completar cinquenta e quatro anos, quando finalmente descobriu a maneira de alterar o comportamento humano. Utilizando cobaias voluntárias, podia potencializar características, como amizade, companheirismo, compaixão; assim como, suprimir tantas outras, como egoísmo, inveja e ódio. O inverso também era possível.

Logo ao confirmar o sucesso dos primeiros testes, comunicou a descoberta ao Diretor de Desenvolvimento e Pesquisas do Laboratório que o contratara. O superior parabenizou-o e marcou a data para a amostra da comprovação.

Uma semana depois, Paulo apresentou a descoberta para uma boquiaberta banca de cientistas e executivos do Laboratório que se aglomerou no Centro de Pesquisas. Realmente era possível alterar o comportamento humano através de modificações genéticas. O Prêmio Nobel, apenas uma questão de tempo.

Terminada a apresentação, os executivos se reuniram em sessão fechada numa salinha conjugada ao Centro de Pesquisas. Paulo divagava sobre todas as mudanças que a descoberta promoveria. Depois de duas horas, teve fim a reunião. Os engravatados saíram da saleta, cumprimentaram-no e o mais velho do grupo dedicou algumas palavras de gratidão ao pesquisador. Dando seguimento, o velho preencheu o cheque de bonificação, solicitou que o material final lhe fosse enviado e comunicou o desligamento de Paulo junto ao laboratório. Tudo de acordo com o que determinava o contrato.

Um dia após o encerramento das pesquisas, o biólogo entrou numa grande depressão. Dedicara boa parte da vida aos estudos, que, até então, foram sua única razão de existir. Outro fato que o decepcionou profundamente foi o laboratório não demonstrar interesse em utilizar a descoberta para promover uma melhora das relações humanas. O grupo de executivos justificou que a humanidade não estava madura o suficiente para tamanha modificação. Conversa fiada. Sabia que o motivo tinha explicação financeira.

Paulo precisava de um novo norte, um novo motivo que o impulsionasse a viver. Cogitou pesquisar outro tema, mas nenhum assunto o animava. Depois de ver sua grande descoberta deixada de lado, não queria buscar por qualquer outra resposta.

O pijama transformou-se em traje oficial. Pouco saia de casa. Vagava de um lado para o outro olhando as velhas anotações. Mais de uma vez, pensou em abreviar a vida. Faltou coragem. Outra ideia foi comprar um animal de estimação, porém a rinite alérgica o impediu.

A essa altura da vida, seus pais já eram mortos. Sem parentes próximos ou amigos que pudessem se preocupar com sua saúde, era indiferente se passasse um dia ou um ano trancado em casa. E assim, sete anos passaram. Dava as caras na rua só para comprar mantimentos ou algum jornal.

Certo dia, ao consultar o saldo bancário, percebeu que a reserva de dinheiro estava acabando. Era imprescindível trabalhar, porém retornar à biologia, jamais. Guardou o extrato na carteira e saiu pela rua matutando sobre qual atividade exercer. Vendo um carro cruzar a esquina, teve o estalo. Compraria um táxi e dele tiraria o suficiente para se manter.

Consultou o departamento de trânsito sobre os valores para todos os trâmites. Estava dentro das suas possibilidades. No intervalo de dois meses, adquiriu o carro, instalou o taxímetro e regulamentou a papelada. Sentiu estranheza ao dirigir. Por anos não chegara perto de um volante, havia tirado a habilitação por insistência do pai. Contudo, não se intimidou, tratava-se de uma questão de prática.

Na primeira semana, descobriu que, além de uma boa fonte de dinheiro, o táxi era uma ótima forma de se reintegrar à sociedade. Agora pertencia a grande irmandade dos taxistas. Além disso, diariamente, conhecia dezenas de pessoas, cada qual com suas peculiaridades.

O táxi recheou sua vida de histórias que nunca viveria. Já no primeiro mês, acumulava dezenas de situações inusitadas que os passageiros lhe narravam. Passou a se interessar por histórias dos mais diferentes tipos. Por sugestão de alguns colegas de praça, chegou aos filmes de Claudia Caswell, a rainha do pornô. Jamais imaginara mulher tão extraordinária. Uma verdadeira musa. Recordista mundial em homenagens diárias. Seus filmes, verdadeiras obras-primas.

Como os outros fãs de Cláudia, ao acordar, ele preparava a munheca e descascava duas ou três, após o almoço mais uma; reservava a noite exclusivamente para ver um dos filmes da estrela e se acabar até cair no sono com o punho dormente.

Claudia, o táxi e as histórias dos passageiros resumiram a rotina do ex-cientista até seus sessenta e oito anos. Com essa idade, passou a sofrer de sérios problemas cardíacos. Teve que abandonar a direção. Faleceu por conta de um ataque fulminante antes mesmo dos setenta. A única convicção que levou para o túmulo foi de que o orgasmo é o mais próximo que um homem pode chegar da felicidade, porém, que preferencialmente provenha de uma bronha dedicada à eterna Claudia Caswell.

Compre a edição impressa de DUAS RUAS DE UM BECO.

Duas Ruas de um Beco

Uma questão de bom senso

Por Mauro Paz

Paulo queria mudar o mundo através da ciência. Por esse motivo, formou-se em Biologia com especialização em Genética Humana. Acreditava que tornaria a humanidade menos egoísta descobrindo a forma de alterar a essência do comportamento humano por meio de combinações genéticas.

Durante a graduação, foi um aluno exemplar, participando de projetos de iniciação científica e de diversos trabalhos de extensão. Previsivelmente, ao término dessa etapa, ingressou no Mestrado, período no qual se dedicou assiduamente a pesquisa sobre as influências de cargas genéticas no comportamento humano. Devido aos grandes progressos de sua dissertação, foi convidado pela Universidade a ingressar no Doutorado.
Dessa forma, aos vinte e oito anos, possuía o título de Doutor em Genética Humana, o reconhecimento do mundo acadêmico e uma bela proposta de trabalho. O maior Laboratório de Genética Humana do mundo se dispunha a lhe pagar uma pequena fortuna anual para que continuasse com a pesquisa.

Era jovem, inteligente e com a oportunidade de trabalho que sempre aspirou. Entretanto, o idealista, obcecado em levar mais fraternidade ao mundo, tornou-se alheio aos que o cercavam. Falava pouco com os familiares e somente o necessário com os colegas da Universidade. Em seu currículo amoroso, não incluía nenhuma namorada, ficante ou simples paquera. 

Também pudera, o grande número de horas debruçado sobre livros e a má alimentação tornaram sua aparência repugnante. A obesidade somou-se ao desleixo. Não fazia a barba, aparava os cabelos ou as unhas. Vestia-se sempre com a mesma muda de roupa, a qual lavava apenas nos finais de semana, momento em que trajava exclusivamente pijama. De fato, pouco ligava para aparência. Considerava a sua missão muito maior do que simplórios protocolos sociais. Seguia arduamente os estudos sempre só.

Diversas vezes, esteve, como convidado, nas mais renomadas universidades do planeta. Ao retornar das viagens, sequer sentia a falta de alguém para lhe recepcionar. As experiências bastavam-lhe.

Assim foi até completar cinquenta e quatro anos, quando finalmente descobriu a maneira de alterar o comportamento humano. Utilizando cobaias voluntárias, podia potencializar características, como amizade, companheirismo, compaixão; assim como, suprimir tantas outras, como egoísmo, inveja e ódio. O inverso também era possível.

Logo ao confirmar o sucesso dos primeiros testes, comunicou a descoberta ao Diretor de Desenvolvimento e Pesquisas do Laboratório que o contratara. O superior parabenizou-o e marcou a data para a amostra da comprovação.

Uma semana depois, Paulo apresentou a descoberta para uma boquiaberta banca de cientistas e executivos do Laboratório que se aglomerou no Centro de Pesquisas. Realmente era possível alterar o comportamento humano através de modificações genéticas. O Prêmio Nobel, apenas uma questão de tempo.

Terminada a apresentação, os executivos se reuniram em sessão fechada numa salinha conjugada ao Centro de Pesquisas. Paulo divagava sobre todas as mudanças que a descoberta promoveria. Depois de duas horas, teve fim a reunião. Os engravatados saíram da saleta, cumprimentaram-no e o mais velho do grupo dedicou algumas palavras de gratidão ao pesquisador. Dando seguimento, o velho preencheu o cheque de bonificação, solicitou que o material final lhe fosse enviado e comunicou o desligamento de Paulo junto ao laboratório. Tudo de acordo com o que determinava o contrato.

Um dia após o encerramento das pesquisas, o biólogo entrou numa grande depressão. Dedicara boa parte da vida aos estudos, que, até então, foram sua única razão de existir. Outro fato que o decepcionou profundamente foi o laboratório não demonstrar interesse em utilizar a descoberta para promover uma melhora das relações humanas. O grupo de executivos justificou que a humanidade não estava madura o suficiente para tamanha modificação. Conversa fiada. Sabia que o motivo tinha explicação financeira.

Paulo precisava de um novo norte, um novo motivo que o impulsionasse a viver. Cogitou pesquisar outro tema, mas nenhum assunto o animava. Depois de ver sua grande descoberta deixada de lado, não queria buscar por qualquer outra resposta.

O pijama transformou-se em traje oficial. Pouco saia de casa. Vagava de um lado para o outro olhando as velhas anotações. Mais de uma vez, pensou em abreviar a vida. Faltou coragem. Outra ideia foi comprar um animal de estimação, porém a rinite alérgica o impediu.

A essa altura da vida, seus pais já eram mortos. Sem parentes próximos ou amigos que pudessem se preocupar com sua saúde, era indiferente se passasse um dia ou um ano trancado em casa. E assim, sete anos passaram. Dava as caras na rua só para comprar mantimentos ou algum jornal.

Certo dia, ao consultar o saldo bancário, percebeu que a reserva de dinheiro estava acabando. Era imprescindível trabalhar, porém retornar à biologia, jamais. Guardou o extrato na carteira e saiu pela rua matutando sobre qual atividade exercer. Vendo um carro cruzar a esquina, teve o estalo. Compraria um táxi e dele tiraria o suficiente para se manter.

Consultou o departamento de trânsito sobre os valores para todos os trâmites. Estava dentro das suas possibilidades. No intervalo de dois meses, adquiriu o carro, instalou o taxímetro e regulamentou a papelada. Sentiu estranheza ao dirigir. Por anos não chegara perto de um volante, havia tirado a habilitação por insistência do pai. Contudo, não se intimidou, tratava-se de uma questão de prática.

Na primeira semana, descobriu que, além de uma boa fonte de dinheiro, o táxi era uma ótima forma de se reintegrar à sociedade. Agora pertencia a grande irmandade dos taxistas. Além disso, diariamente, conhecia dezenas de pessoas, cada qual com suas peculiaridades.

O táxi recheou sua vida de histórias que nunca viveria. Já no primeiro mês, acumulava dezenas de situações inusitadas que os passageiros lhe narravam. Passou a se interessar por histórias dos mais diferentes tipos. Por sugestão de alguns colegas de praça, chegou aos filmes de Claudia Caswell, a rainha do pornô. Jamais imaginara mulher tão extraordinária. Uma verdadeira musa. Recordista mundial em homenagens diárias. Seus filmes, verdadeiras obras-primas.

Como os outros fãs de Cláudia, ao acordar, ele preparava a munheca e descascava duas ou três, após o almoço mais uma; reservava a noite exclusivamente para ver um dos filmes da estrela e se acabar até cair no sono com o punho dormente.

Claudia, o táxi e as histórias dos passageiros resumiram a rotina do ex-cientista até seus sessenta e oito anos. Com essa idade, passou a sofrer de sérios problemas cardíacos. Teve que abandonar a direção. Faleceu por conta de um ataque fulminante antes mesmo dos setenta. A única convicção que levou para o túmulo foi de que o orgasmo é o mais próximo que um homem pode chegar da felicidade, porém, que preferencialmente provenha de uma bronha dedicada à eterna Claudia Caswell.

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