Fincapata e Toc-toc

Hoje é a vez de mais dos contos do Duas Ruas de um Beco, Fincapata e Toc-toc. O primeiro, no site, conta o que acontece quando a musa Claudia Caswel surge na vida de um rapaz ingênuo de uma pequena cidade do interior. O segundo, nas ruas, é o primeiro conto que escrevi tendo o frentista como protagonista. Toc-toc é inspirado num ex-vizinho que tive no apartamento da João Pessoa.

Fincapata está na Antologia Desamordaçados, lançada sábado (01/08) em Porto Alegre. Não pude comparecer, mas os relatos são ótimos. Na Feira do Livro terá outra tarde de autógrafos, espero que seja entre os dias que estarei por lá ministrando o curso sobre blogs literários.

É amanhã, sábado

No próximo sábado, 1º de Agosto, acontecerá o lançamento da antologia de contos dos alunos da Oficina de Criação Literária da PUC ministrada pelo escritor e Doutor em Letras Luiz Antonio de Assis Brasil, no Cultural. DesAMORdaçados apresenta o trabalho de treze autores e é editada pela Libretos, com organização de Assis Brasil e prefácio da escritora Cíntia Moscovich. Clô Barcellos assina o design gráfico do livro. A ilustração de capa é de Carlos Filho.

O evento integra uma nova programação, o BateBocaBom Cultural, um bate-papo informal em torno da temática de uma obra e ocorre no Caminho do Livro. A iniciativa é da Câmara Rio-Grandense do Livro, que promove o hábito da leitura e fomenta o mercado livreiro do centro da Capital. Nesta primeira edição, Luiz Antonio de Assis Brasil, Léa Masina e Marcelo Spalding debatem sobre Criação Ficcional no Auditótio Erico Verissimo.

A partir das 13h, no Map Café Cultural, os novos autores autografam ao som do piano de Geraldo Flach.

DesAMORdaçados apresenta três contos de cada um dos participantes, alguns oriundos do universo das letras, como Gabriela Silva e Viviane Grespan; outros da Comunicação Social - Marinella Peruzzo, Luciane Godinho da Silva, Ana Santos, Ana Kessler e Mauro Paz ou do Direito - Elisa Beylouni, Mariza Baur e Cícero Krupp da Luz. E alguns, ainda, de áreas diversas, como Juliana Eichenberg (biologia), Leonardo Wittmann (cinema) e Stela Rates (farmácia). No exercício da busca de uma dicção narrativa, todos já revelam sua personalidade literária.

A oficina foi instituída em 1985 e funciona, de modo ininterrupto há 24 anos, no âmbito do Curso de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, sendo a mais antiga em atividade no Brasil. Nela já passaram nomes que hoje figuram a literatura do sul e do Brasil: Letícia Wierschowski, Amilcar Bettega, Daniel Galera, Cíntia Moscovich, Marcelo Spalding, Carol Bensimon, Bernardo Moraes, Monique Revillion, entre outros tantos. Em 2005, recebeu o prêmio “Fato Literário”, quando comemorou 20 anos de existência.

Serviço:

O quê: lançamento de DesAMORdaçados - antologia dos contos

Quando: 1º de agosto

Onde:Instituto Cultural - R. Riachuelo, 1257 - Centro - Porto Alegre

Hora: 11:30

DesAMORdaçados - Editora Libretos, 2009 - 160 páginas - Preço – R$ 25,00 - Formato: 14cm x 21cm - ISBN – 978-85-88412-26-2 - Org: Luiz Antonio de Assis Brasil

A arte de produzir efeito sem causa

Terminei de ler “A arte de produzir efeito sem causa”, de Lourenço Mutarelli, autor de “Cheiro do Ralo” e gostei muito. Com uma escrita precisa, Lourenço cria uma espiral decadente que começa quando Júnior larga a mulher, o emprego e vai morar no apartamento do pai. Do sofá pra, pro bar. Do bar, por aí. Sem perspectiva, Júnior empurra os dias, até que chega a primeira caixa.

Assim como em “Trilogia de NY”, de Paul Auster, o mistério que permeia “A arte de produzir efeito sem causa” é pano de fundo para discutir questões existenciais da personagem.
Escute também a opinião do autor:

Duelo Fail

Praça, bancos, olhos, sei
As folhas murchas, lei
Cores de outono ao longe
E sob meus sapatos
O rio de esponjas se abriu

Damas, noite, copos, seis
Cartas, fumaça, reis
Trinca de Ases, sobras de outro baralho
E alguém viu

Fotos da viagem
Notícias breves
A vida toda cabe num trem
Partiu

Letra de música que escrevi para a Banda da Clint, extinta Device.
Essas e outras gravações toscas, clique aqui.

Casa Abandonada

Hoje que descobri esse clipe novo da Pública. Muito bacana e ainda tem o Marcelão e o Fred. Como não vi antes.

Lembrando, amanhã tem show dos caras em São Paulo com a Apolonio. Confira aqui.

Fio do bigode

Quadrado, essa noite, o mundo se parte
Janelas batem. E trancados a gente vai ter que mudar
Mesmo que um beijo cale meus olhos
Mesmo que as horas ceguem o peito
Mesmo que rebente o barco das pedras
Mesmo que nem mesmo sejamos nós mesmos
E lá fora guarda-chuvas caiam
E mamutes rasguem flores
E o deserto engula todas as ilhas
Esses outros vão ter que mudar
Deixe verter, rolar, roubar
Eu também sei quase nada daqui
E com tuas pernas tão longas o céu vai ter que mudar

Escrevi hoje no ônibus. Achei melhor postar logo pra me livrar. Odeio meus poemas.

Por Vinte Minutos

Mauro Paz, 24/06/2005

Ele sentou, olhou para o relógio e viu que estava vinte minutos atrasado. Em noites frias como aquela, detestava deixa-la esperando, mas não podia fazer mais nada. Se não fosse o tempo que ele perdeu com o zíper emperrado, chegaria a tempo. O grande problema de chegar atrasado era ela desconfiar e indagar sobre o que estava fazendo, com quem e onde. Como iria responder a essas perguntas? Ele não podia deixar dúvidas. No decorrer dos cinco anos em que estavam juntos, ela se mostrou uma companheira quase perfeita, com ressalva a fumar de manhã cedo.

Na sala, ela batia o pé. Via a novela das oito e pensava como esconderia quando ele chegasse. Há dias que estava saturada, sentia vontade de contar tudo: como, porque, com quem. No entanto, não sabia se valeria a união de cinco anos, pois ele era cara quase perfeito, com ressalva a mijar fora da patente.

O ônibus dobra a última esquina antes do ponto. Lembra de limpar as mãos. A sujeira o denunciaria de cara. Pegou um papel de dentro da pasta e limpou dedo por dedo, depois as palmas.

O cachorro da primeira casa da rua latiu. Ela sabia que ele estava chegando. Olhou para o forno, a carne não estava pronta. Percebeu as duas xícaras na mesa. Levantou e guardou uma.

Ele chegou. Contaram do dia. Jantaram. Transaram. Dormiram quase certos de que era o melhor a fazer.

Floresta de Esmeraldas

Não nega que sou
Não nega que tem asas cobertas
Por penas de falcão

Não nega que vou
Não nega que o mar escorre solto
Nas fendas da tua mão

Palavras, roupas, portas,
todas querendo o real
Na sala, a velha rouca
chora as flores de um funeral

Tuas sombras da caverna
Mantém nossa conversa
Mais além, o tempo mais além

Os teus olhos derretidos
Contêm os comprimidos cor do sol,
o brilho cor dum anzol
partido lá na casa onde
a ideia quer pescar.

Letra de uma música que escrevi por esses dias.
Caso queira escutar está com outras gravações toscas aqui.

O Beco

Mauro Paz 20/07/2005

O BECO é frio, escuro e não espera. Estava lá mais uma vez. Detestava o lugar, mas não havia outro caminho. Era necessário. Calculou as circunstâncias, no entanto o contexto QUASE o obrigava. Por mais que se importasse, há situações em que é obrigado a pensar: o mundo que se exploda, agora sou eu.

Sempre teve culpa por escolhas assim. Preocupa-se com a opinião dos demais. Muitos o consideram covarde por essas atitudes, como se nunca passassem pelo BECO.

Tentou esquecer a opinião pública. Bateu a poeira. E fugiu, com a esperança de que, DESTA VEZ, ninguém o tenha visto com as mãos sujas.

Lançamento Desamordaçados

Amigos de Porto Alegre, provavelmente, não estarei no lançamento. Peço, porém, que compareçam e compre o livro. Tirando meus contos, tem coisa muito boa no livro.

Boneco e Tua mãe e outras garotas

Hoje é o dia de mais dois contos do Duas Ruas de um Beco. Boneco está no site e Tua mãe e outras garotas, nas ruas. Esse segundo conto é muito especial pra mim, pois conta a história de uma amiga. Leia aqui a história real. Caso não o encontre pelas ruas, está na antologia Desamordaçados, que será lançada dia 01/08, em Porto Alegre.

Rodrigo

Por Mauro Paz

Vermelho, preto e verde é só o que Rodrigo enxerga. Final da Copa do Brasil. Flamengo e Internacional. Setenta mil pessoas no Maracanã. Trinta e cinco minutos do segundo tempo, zero-a-zero. O empate leva o time gaúcho ao título. A multidão rubro e negra grita a cada lance.

Rogério para Marquinhos, que dribla o meia do Internacional e devolve pra Rogério. O craque entra na grande área. Prepara o chute. Derrubado. A torcida levanta num grito só.

A onda vermelha rompe a tensão superficial do ar. Verde e azul é só o que Rodrigo vê. Sozinho, inerte. Rodrigo, a grama, o céu, Rodrigo. Inspira, escuta o vento cortar o gramado. Cada vez mais perto. Mais forte. Mais perto. Mais forte. Corre, corre. Corre tão rápido que o cérebro não comanda as pernas. Os passos se perdem na imensidão verde e azul desprovida de uma única árvore para Rodrigo agarrar.

O vento segue no encalço de Rodrigo, brinca de o alcançar. O azul começa a devorar o verde à sua frente. No mesmo passo em que o chão acaba, o vento arremessa Rodrigo de volta ao estádio.

Apito, o juiz dá tiro de meta. A torcida cala, explode. A multidão rubra e negra derrama-se no gramado. Destroça o juiz. Rodrigo assiste imóvel ao espetáculo de som e fúria e tempo real.

Não Toca

Por Mauro Paz (07/2005)


São onze e quarenta e nove, quarta-feira, e ninguém ligou. Passou o dia todo em casa e nada. O telefone podia estar quebrado. Pegou o celular e fez o teste: o telefone fixo chamou sem problema algum. Estanho que durante um dia todo ninguém ligue. Veja bem, devemos levar em conta que da hora em que acordou, oito e dez da manhã, até agora, onze e cinquenta da noite, são quinze horas e quarenta minutos sem nenhum telefone chamar. Ou seja, ninguém sentiu a sua falta nem ao menos para resolver algum problema.

Num momento como esse, começa a se perguntar: O que fiz errado? Sou um bom amigo, filho exemplar, dedicado namorado? O quê? Nem a namorada ligou e já são onze e cinquenta e dois. Come o último bombom da caixa, serve um cálice de vinho. O que aconteceu tão interessante durante o dia que ninguém se dignou a pegar o telefone sequer para ver como estava?
Onze e cinquenta e cinco o telefone toca.

— Alô.
— Alô. Topa sexo anal?
— Como?
— É, por traz. Tipo cachorro.
— Com quem o senhor quer falar?
— Marcelão Vinte Centímetros.
— Meu senhor, aqui não tem nenhum Marcelão.
— Mas não precisa ser o Marcelão. Quantos centímetros tu tem? Topa sexo anal?
— Meu senhor, ligou pro número errado, aqui moro só eu, e não trabalho nesse ramo.
— Ok. Mas sabe de alguém que possa quebrar o galho?
— Não, meu senhor. Boa noite.

Onze e cinquenta e oito e o único telefonema foi de um velho à procura de sexo anal. Tem dias na vida em que só coisas estranhas acontecem. Pega o jornal de domingo > classificados > acompanhantes: Carla, morena, tipo ninfeta, universitária, corpo escultura. Prazer garantido.
Na última esperança de que alguém ligue, mira fixamente o celular. Meia-noite, quinta–feira, não se contem:

— Alô, Carla?
— Sim.
— Topa sexo anal?

A Praia e velhos contos

Como anunciei no Twitter, encontrei no HD alguns contos que escrevi entre 2004 e 2005. Não dá pra dizer que todos são contos, mas sofrerão algumas mudanças e virão para o blog. Além de fugirem da minha atual proposta de escrita, não há unidade alguma no conjunto desses textos. Postarei no blog porque acho interessante o registro dessa fase passada. O primeiro da série é A Praia.

A Praia

Por Mauro Paz

Dez da manhã. O céu sem nuvens, nada de vento. Escuto o mar, pessoas se divertindo e Jammin, do Bob Marley. Pego a prancha e caminho. A areia é fina, branca, polvilhada. A água verde toca os pés, morna. Não há corrente. Chego fácil ao outside. Cinco ou seis surfistas alternam-se nas ondas. Um metro e meio, tubulares. Remo. Dropo. A onda derrete rápida. Corro a parede, nenhuma preocupação. Distribuo o repertório.

A onda acaba na beira da praia. Remo em direção ao outside. Nuvens, a água marrom. Vento. Os banhistas saem da beira. O mar inquieta-se. Ao fundo, engorda a onda. Tem a altura de um prédio de sete andares. Alguns remam para dropá-la. Remo rumo ao outside. A onda quebra, arremessa-me na beira. A água toma a praia, e as cadeiras, e as bancas, e o cimento do calçadão.

Uma série de cinco ondas se levanta. Pessoas gritam, correm, retornam pra pegar pertences. Sacudo a cabeça. Testo os sentidos. E volto a remar. Subo a parede da primeira onda. Não consigo furar. Quebra. Estrondo. Luta. A água entra pelo pulmão. O corpo afunda. Canso. E acordo pronto pra surfar.

O Assalto e O Diário

Estou muito satisfeito com o resultado do Duas Ruas de um Beco.  Amanhã completa um mês que tudo começou e o projeto já soma mais de 2000 acessos e 300 contos pelas ruas. Acredito que apenas com a versão impressa, o texto nunca conseguiria essa abrangência.

Segunda, 22/07, mais dois contos seguiram seus rumos: O Assalto pelas ruas e O Diário no site.

Julho tem Pública em São Paulo

Pra quem não conhece, a Pública é uma das boas novidades da nova geração do Rock Gaúcho. Com dez anos de estrada, a banda está no segundo disco, Como Num Filme Sem Um Fim (2009). Arranjos modernos, não modernosos, dão corpo às melodias que deixam o pé inquieto. As letras têm o rock como protagonista: um cara entre a adolescência e a idade adulta vagando por aí. Pela autenticidade, curti trabalho dos caras desde que vi o belo clipe de Long Plays, música do primeiro disco, Polaris.
Nunca escutou? Então, baixe Como Num Filme Sem Um Fim, é free. E, em julho,confira ao vivo Pública + Apolonio em duas apresentações:

17 de julho: [APOLONIO e Publica (RS)] CB BAR - SÃO PAULO/SP

18 de julho: [APOLONIO e Publica (RS)] JIVE - SÃO PAULO/SP

Festa do Teatro 2009

Não, não se trata de nenhuma balada em um teatro abandonado. De 19 a 28 de junho acontece, em São Paulo, a Festa do Teatro, um evento que prevê a distribuição de 30 mil ingressos. A programação abrange desde peças de pequenos grupos até grandes produções. Mas fique atendo a retirada dos ingressos acontecem apenas dias 18, 23 e 26. Confira a data e horário para retiradas de ingressos na programação.

Apenas o fim, menos ruim que Titanic*

Tudo que li sobre Apenas o Fim aponta o filme como um novo caminho para o cinema brasileiro. Tudo que vi em Apenas o Fim foi uma tentativa de imitar os filmes de Domingos de Oliveira e (que os deuses do cinema me perdoem) Masculino-Feminino, de Godard.

Porém, a comédia romântica, de Matheus Souza, ainda estudante de cinema, tem o mérito de ser produzida com apenas R$ 8 mil reais e uma câmera. Os diálogos, tão festejados por serem recheados de referências das últimas duas décadas, são bem escritos. A direção é bonitinha. Erika Mader comprova que é uma fofa. E Gregorio Dudivier está ótimo na imitação de Selton Melo.

Poderia dizer que Apenas o Fim é um filme inteligente caso eu nunca tivesse visto um. No entanto, defino como queridinho. E torço pra que Matheus Souza descole das referências acadêmicas e descubra seu caminho autêntico. Boa sorte, Matheus. É apenas o começo.

De qualquer forma, vale conferir no cinema, considerando que você pagou pra ver Titanic.

*Para os chatos: sei que “menos ruim” não existe.

Socos, chutes e cinema real

Esses dias, vi a regravação de Funny Games, de Michael Haneke. Como gostaria de ter escrito aquele roteiro. O mais parecido que cheguei foi com o conto Toc-toc, que está na antologia Duas Ruas de um Beco.

Pra quem não viu essa ou a primeira gravação de 1997, o filme conta a história de dois rapazes que resolvem violentar uma família de classe média alta americana. O motivo? Nenhum. Violência por violência, como vemos na vida real. No fim do filme, os rapazes têm uma interessante conversa sobre essa questão. O que acontece no cinema não é real? E o que acontece na vida é?

Acho que desde sempre a ficção e realidade se namoram, até por que uma depende da outra. Sexta passada fui ao noitão do Belas Artes, com alguns amigos. Entre os filmes estava A Onda , de Dennis Gansel. A Onda mostra esse ponto de intersecção entre real e ficção. Vi o filme todo sem saber que era uma história real. A fotografia é ótima, as atuações, o roteiro. Mas eu diria que é impossível de ser verdade que uma turma de escola, hoje, seja induzida a formar uma organização fascista, na traumatizada Alemanha. Poderia, se o filme não fosse baseado em fatos reais.

A violência humana é mais inverossímil do que a própria ficção. E como Michael Heaneke propõe, só ela já basta pra grudar uma bunda duas horas em frente da tela.

Caetano deprimido?

Li uma crítica de Pedro Alexandre Sanche, na Roling Stone de abril, detonando o disco novo do Caetano Zii & Zie. Além de dar apenas duas estrelas e meias, dizia que o disco mostra “um Caetano transparente, mas duro de ouvir. À gosma roxa de Cê somam-se agora modos de cantar do dono da banda, entre agressivo e lamuriosos ”.

Concordo que o Zii & Zie, a começar pelo nome, não é um disco de fácil digestão. Porém, euma bela obra na qual Caetano ensina os moderninhos como transitar entre a MPB e o Rock. As letras de fato são extremas: tristeza, consolo, resmungos. Está tudo lá. Poderia dizer, também, que se trata de Caetano transparente e deprimido. No entanto, prefiro considerar a grande sensibilidade de um poeta-musical que consegue contrapor a tensão entre o novo e o velho de forma tão sincera que soa como a própria dor.

Escute e tire suas conclusões. Eu dou quatro estrelas.

Fincapata e Toc-toc

Hoje é a vez de mais dos contos do Duas Ruas de um Beco, Fincapata e Toc-toc. O primeiro, no site, conta o que acontece quando a musa Claudia Caswel surge na vida de um rapaz ingênuo de uma pequena cidade do interior. O segundo, nas ruas, é o primeiro conto que escrevi tendo o frentista como protagonista. Toc-toc é inspirado num ex-vizinho que tive no apartamento da João Pessoa.

Fincapata está na Antologia Desamordaçados, lançada sábado (01/08) em Porto Alegre. Não pude comparecer, mas os relatos são ótimos. Na Feira do Livro terá outra tarde de autógrafos, espero que seja entre os dias que estarei por lá ministrando o curso sobre blogs literários.

É amanhã, sábado

No próximo sábado, 1º de Agosto, acontecerá o lançamento da antologia de contos dos alunos da Oficina de Criação Literária da PUC ministrada pelo escritor e Doutor em Letras Luiz Antonio de Assis Brasil, no Cultural. DesAMORdaçados apresenta o trabalho de treze autores e é editada pela Libretos, com organização de Assis Brasil e prefácio da escritora Cíntia Moscovich. Clô Barcellos assina o design gráfico do livro. A ilustração de capa é de Carlos Filho.

O evento integra uma nova programação, o BateBocaBom Cultural, um bate-papo informal em torno da temática de uma obra e ocorre no Caminho do Livro. A iniciativa é da Câmara Rio-Grandense do Livro, que promove o hábito da leitura e fomenta o mercado livreiro do centro da Capital. Nesta primeira edição, Luiz Antonio de Assis Brasil, Léa Masina e Marcelo Spalding debatem sobre Criação Ficcional no Auditótio Erico Verissimo.

A partir das 13h, no Map Café Cultural, os novos autores autografam ao som do piano de Geraldo Flach.

DesAMORdaçados apresenta três contos de cada um dos participantes, alguns oriundos do universo das letras, como Gabriela Silva e Viviane Grespan; outros da Comunicação Social - Marinella Peruzzo, Luciane Godinho da Silva, Ana Santos, Ana Kessler e Mauro Paz ou do Direito - Elisa Beylouni, Mariza Baur e Cícero Krupp da Luz. E alguns, ainda, de áreas diversas, como Juliana Eichenberg (biologia), Leonardo Wittmann (cinema) e Stela Rates (farmácia). No exercício da busca de uma dicção narrativa, todos já revelam sua personalidade literária.

A oficina foi instituída em 1985 e funciona, de modo ininterrupto há 24 anos, no âmbito do Curso de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, sendo a mais antiga em atividade no Brasil. Nela já passaram nomes que hoje figuram a literatura do sul e do Brasil: Letícia Wierschowski, Amilcar Bettega, Daniel Galera, Cíntia Moscovich, Marcelo Spalding, Carol Bensimon, Bernardo Moraes, Monique Revillion, entre outros tantos. Em 2005, recebeu o prêmio “Fato Literário”, quando comemorou 20 anos de existência.

Serviço:

O quê: lançamento de DesAMORdaçados - antologia dos contos

Quando: 1º de agosto

Onde:Instituto Cultural - R. Riachuelo, 1257 - Centro - Porto Alegre

Hora: 11:30

DesAMORdaçados - Editora Libretos, 2009 - 160 páginas - Preço – R$ 25,00 - Formato: 14cm x 21cm - ISBN – 978-85-88412-26-2 - Org: Luiz Antonio de Assis Brasil

A arte de produzir efeito sem causa

Terminei de ler “A arte de produzir efeito sem causa”, de Lourenço Mutarelli, autor de “Cheiro do Ralo” e gostei muito. Com uma escrita precisa, Lourenço cria uma espiral decadente que começa quando Júnior larga a mulher, o emprego e vai morar no apartamento do pai. Do sofá pra, pro bar. Do bar, por aí. Sem perspectiva, Júnior empurra os dias, até que chega a primeira caixa.

Assim como em “Trilogia de NY”, de Paul Auster, o mistério que permeia “A arte de produzir efeito sem causa” é pano de fundo para discutir questões existenciais da personagem.
Escute também a opinião do autor:

Duelo Fail

Praça, bancos, olhos, sei
As folhas murchas, lei
Cores de outono ao longe
E sob meus sapatos
O rio de esponjas se abriu

Damas, noite, copos, seis
Cartas, fumaça, reis
Trinca de Ases, sobras de outro baralho
E alguém viu

Fotos da viagem
Notícias breves
A vida toda cabe num trem
Partiu

Letra de música que escrevi para a Banda da Clint, extinta Device.
Essas e outras gravações toscas, clique aqui.

Casa Abandonada

Hoje que descobri esse clipe novo da Pública. Muito bacana e ainda tem o Marcelão e o Fred. Como não vi antes.

Lembrando, amanhã tem show dos caras em São Paulo com a Apolonio. Confira aqui.

Fio do bigode

Quadrado, essa noite, o mundo se parte
Janelas batem. E trancados a gente vai ter que mudar
Mesmo que um beijo cale meus olhos
Mesmo que as horas ceguem o peito
Mesmo que rebente o barco das pedras
Mesmo que nem mesmo sejamos nós mesmos
E lá fora guarda-chuvas caiam
E mamutes rasguem flores
E o deserto engula todas as ilhas
Esses outros vão ter que mudar
Deixe verter, rolar, roubar
Eu também sei quase nada daqui
E com tuas pernas tão longas o céu vai ter que mudar

Escrevi hoje no ônibus. Achei melhor postar logo pra me livrar. Odeio meus poemas.

Por Vinte Minutos

Mauro Paz, 24/06/2005

Ele sentou, olhou para o relógio e viu que estava vinte minutos atrasado. Em noites frias como aquela, detestava deixa-la esperando, mas não podia fazer mais nada. Se não fosse o tempo que ele perdeu com o zíper emperrado, chegaria a tempo. O grande problema de chegar atrasado era ela desconfiar e indagar sobre o que estava fazendo, com quem e onde. Como iria responder a essas perguntas? Ele não podia deixar dúvidas. No decorrer dos cinco anos em que estavam juntos, ela se mostrou uma companheira quase perfeita, com ressalva a fumar de manhã cedo.

Na sala, ela batia o pé. Via a novela das oito e pensava como esconderia quando ele chegasse. Há dias que estava saturada, sentia vontade de contar tudo: como, porque, com quem. No entanto, não sabia se valeria a união de cinco anos, pois ele era cara quase perfeito, com ressalva a mijar fora da patente.

O ônibus dobra a última esquina antes do ponto. Lembra de limpar as mãos. A sujeira o denunciaria de cara. Pegou um papel de dentro da pasta e limpou dedo por dedo, depois as palmas.

O cachorro da primeira casa da rua latiu. Ela sabia que ele estava chegando. Olhou para o forno, a carne não estava pronta. Percebeu as duas xícaras na mesa. Levantou e guardou uma.

Ele chegou. Contaram do dia. Jantaram. Transaram. Dormiram quase certos de que era o melhor a fazer.

Floresta de Esmeraldas

Não nega que sou
Não nega que tem asas cobertas
Por penas de falcão

Não nega que vou
Não nega que o mar escorre solto
Nas fendas da tua mão

Palavras, roupas, portas,
todas querendo o real
Na sala, a velha rouca
chora as flores de um funeral

Tuas sombras da caverna
Mantém nossa conversa
Mais além, o tempo mais além

Os teus olhos derretidos
Contêm os comprimidos cor do sol,
o brilho cor dum anzol
partido lá na casa onde
a ideia quer pescar.

Letra de uma música que escrevi por esses dias.
Caso queira escutar está com outras gravações toscas aqui.

O Beco

Mauro Paz 20/07/2005

O BECO é frio, escuro e não espera. Estava lá mais uma vez. Detestava o lugar, mas não havia outro caminho. Era necessário. Calculou as circunstâncias, no entanto o contexto QUASE o obrigava. Por mais que se importasse, há situações em que é obrigado a pensar: o mundo que se exploda, agora sou eu.

Sempre teve culpa por escolhas assim. Preocupa-se com a opinião dos demais. Muitos o consideram covarde por essas atitudes, como se nunca passassem pelo BECO.

Tentou esquecer a opinião pública. Bateu a poeira. E fugiu, com a esperança de que, DESTA VEZ, ninguém o tenha visto com as mãos sujas.

Lançamento Desamordaçados

Amigos de Porto Alegre, provavelmente, não estarei no lançamento. Peço, porém, que compareçam e compre o livro. Tirando meus contos, tem coisa muito boa no livro.

Boneco e Tua mãe e outras garotas

Hoje é o dia de mais dois contos do Duas Ruas de um Beco. Boneco está no site e Tua mãe e outras garotas, nas ruas. Esse segundo conto é muito especial pra mim, pois conta a história de uma amiga. Leia aqui a história real. Caso não o encontre pelas ruas, está na antologia Desamordaçados, que será lançada dia 01/08, em Porto Alegre.

Rodrigo

Por Mauro Paz

Vermelho, preto e verde é só o que Rodrigo enxerga. Final da Copa do Brasil. Flamengo e Internacional. Setenta mil pessoas no Maracanã. Trinta e cinco minutos do segundo tempo, zero-a-zero. O empate leva o time gaúcho ao título. A multidão rubro e negra grita a cada lance.

Rogério para Marquinhos, que dribla o meia do Internacional e devolve pra Rogério. O craque entra na grande área. Prepara o chute. Derrubado. A torcida levanta num grito só.

A onda vermelha rompe a tensão superficial do ar. Verde e azul é só o que Rodrigo vê. Sozinho, inerte. Rodrigo, a grama, o céu, Rodrigo. Inspira, escuta o vento cortar o gramado. Cada vez mais perto. Mais forte. Mais perto. Mais forte. Corre, corre. Corre tão rápido que o cérebro não comanda as pernas. Os passos se perdem na imensidão verde e azul desprovida de uma única árvore para Rodrigo agarrar.

O vento segue no encalço de Rodrigo, brinca de o alcançar. O azul começa a devorar o verde à sua frente. No mesmo passo em que o chão acaba, o vento arremessa Rodrigo de volta ao estádio.

Apito, o juiz dá tiro de meta. A torcida cala, explode. A multidão rubra e negra derrama-se no gramado. Destroça o juiz. Rodrigo assiste imóvel ao espetáculo de som e fúria e tempo real.

Não Toca

Por Mauro Paz (07/2005)


São onze e quarenta e nove, quarta-feira, e ninguém ligou. Passou o dia todo em casa e nada. O telefone podia estar quebrado. Pegou o celular e fez o teste: o telefone fixo chamou sem problema algum. Estanho que durante um dia todo ninguém ligue. Veja bem, devemos levar em conta que da hora em que acordou, oito e dez da manhã, até agora, onze e cinquenta da noite, são quinze horas e quarenta minutos sem nenhum telefone chamar. Ou seja, ninguém sentiu a sua falta nem ao menos para resolver algum problema.

Num momento como esse, começa a se perguntar: O que fiz errado? Sou um bom amigo, filho exemplar, dedicado namorado? O quê? Nem a namorada ligou e já são onze e cinquenta e dois. Come o último bombom da caixa, serve um cálice de vinho. O que aconteceu tão interessante durante o dia que ninguém se dignou a pegar o telefone sequer para ver como estava?
Onze e cinquenta e cinco o telefone toca.

— Alô.
— Alô. Topa sexo anal?
— Como?
— É, por traz. Tipo cachorro.
— Com quem o senhor quer falar?
— Marcelão Vinte Centímetros.
— Meu senhor, aqui não tem nenhum Marcelão.
— Mas não precisa ser o Marcelão. Quantos centímetros tu tem? Topa sexo anal?
— Meu senhor, ligou pro número errado, aqui moro só eu, e não trabalho nesse ramo.
— Ok. Mas sabe de alguém que possa quebrar o galho?
— Não, meu senhor. Boa noite.

Onze e cinquenta e oito e o único telefonema foi de um velho à procura de sexo anal. Tem dias na vida em que só coisas estranhas acontecem. Pega o jornal de domingo > classificados > acompanhantes: Carla, morena, tipo ninfeta, universitária, corpo escultura. Prazer garantido.
Na última esperança de que alguém ligue, mira fixamente o celular. Meia-noite, quinta–feira, não se contem:

— Alô, Carla?
— Sim.
— Topa sexo anal?

A Praia e velhos contos

Como anunciei no Twitter, encontrei no HD alguns contos que escrevi entre 2004 e 2005. Não dá pra dizer que todos são contos, mas sofrerão algumas mudanças e virão para o blog. Além de fugirem da minha atual proposta de escrita, não há unidade alguma no conjunto desses textos. Postarei no blog porque acho interessante o registro dessa fase passada. O primeiro da série é A Praia.

A Praia

Por Mauro Paz

Dez da manhã. O céu sem nuvens, nada de vento. Escuto o mar, pessoas se divertindo e Jammin, do Bob Marley. Pego a prancha e caminho. A areia é fina, branca, polvilhada. A água verde toca os pés, morna. Não há corrente. Chego fácil ao outside. Cinco ou seis surfistas alternam-se nas ondas. Um metro e meio, tubulares. Remo. Dropo. A onda derrete rápida. Corro a parede, nenhuma preocupação. Distribuo o repertório.

A onda acaba na beira da praia. Remo em direção ao outside. Nuvens, a água marrom. Vento. Os banhistas saem da beira. O mar inquieta-se. Ao fundo, engorda a onda. Tem a altura de um prédio de sete andares. Alguns remam para dropá-la. Remo rumo ao outside. A onda quebra, arremessa-me na beira. A água toma a praia, e as cadeiras, e as bancas, e o cimento do calçadão.

Uma série de cinco ondas se levanta. Pessoas gritam, correm, retornam pra pegar pertences. Sacudo a cabeça. Testo os sentidos. E volto a remar. Subo a parede da primeira onda. Não consigo furar. Quebra. Estrondo. Luta. A água entra pelo pulmão. O corpo afunda. Canso. E acordo pronto pra surfar.

O Assalto e O Diário

Estou muito satisfeito com o resultado do Duas Ruas de um Beco.  Amanhã completa um mês que tudo começou e o projeto já soma mais de 2000 acessos e 300 contos pelas ruas. Acredito que apenas com a versão impressa, o texto nunca conseguiria essa abrangência.

Segunda, 22/07, mais dois contos seguiram seus rumos: O Assalto pelas ruas e O Diário no site.

Julho tem Pública em São Paulo

Pra quem não conhece, a Pública é uma das boas novidades da nova geração do Rock Gaúcho. Com dez anos de estrada, a banda está no segundo disco, Como Num Filme Sem Um Fim (2009). Arranjos modernos, não modernosos, dão corpo às melodias que deixam o pé inquieto. As letras têm o rock como protagonista: um cara entre a adolescência e a idade adulta vagando por aí. Pela autenticidade, curti trabalho dos caras desde que vi o belo clipe de Long Plays, música do primeiro disco, Polaris.
Nunca escutou? Então, baixe Como Num Filme Sem Um Fim, é free. E, em julho,confira ao vivo Pública + Apolonio em duas apresentações:

17 de julho: [APOLONIO e Publica (RS)] CB BAR - SÃO PAULO/SP

18 de julho: [APOLONIO e Publica (RS)] JIVE - SÃO PAULO/SP

Festa do Teatro 2009

Não, não se trata de nenhuma balada em um teatro abandonado. De 19 a 28 de junho acontece, em São Paulo, a Festa do Teatro, um evento que prevê a distribuição de 30 mil ingressos. A programação abrange desde peças de pequenos grupos até grandes produções. Mas fique atendo a retirada dos ingressos acontecem apenas dias 18, 23 e 26. Confira a data e horário para retiradas de ingressos na programação.

Apenas o fim, menos ruim que Titanic*

Tudo que li sobre Apenas o Fim aponta o filme como um novo caminho para o cinema brasileiro. Tudo que vi em Apenas o Fim foi uma tentativa de imitar os filmes de Domingos de Oliveira e (que os deuses do cinema me perdoem) Masculino-Feminino, de Godard.

Porém, a comédia romântica, de Matheus Souza, ainda estudante de cinema, tem o mérito de ser produzida com apenas R$ 8 mil reais e uma câmera. Os diálogos, tão festejados por serem recheados de referências das últimas duas décadas, são bem escritos. A direção é bonitinha. Erika Mader comprova que é uma fofa. E Gregorio Dudivier está ótimo na imitação de Selton Melo.

Poderia dizer que Apenas o Fim é um filme inteligente caso eu nunca tivesse visto um. No entanto, defino como queridinho. E torço pra que Matheus Souza descole das referências acadêmicas e descubra seu caminho autêntico. Boa sorte, Matheus. É apenas o começo.

De qualquer forma, vale conferir no cinema, considerando que você pagou pra ver Titanic.

*Para os chatos: sei que “menos ruim” não existe.

Socos, chutes e cinema real

Esses dias, vi a regravação de Funny Games, de Michael Haneke. Como gostaria de ter escrito aquele roteiro. O mais parecido que cheguei foi com o conto Toc-toc, que está na antologia Duas Ruas de um Beco.

Pra quem não viu essa ou a primeira gravação de 1997, o filme conta a história de dois rapazes que resolvem violentar uma família de classe média alta americana. O motivo? Nenhum. Violência por violência, como vemos na vida real. No fim do filme, os rapazes têm uma interessante conversa sobre essa questão. O que acontece no cinema não é real? E o que acontece na vida é?

Acho que desde sempre a ficção e realidade se namoram, até por que uma depende da outra. Sexta passada fui ao noitão do Belas Artes, com alguns amigos. Entre os filmes estava A Onda , de Dennis Gansel. A Onda mostra esse ponto de intersecção entre real e ficção. Vi o filme todo sem saber que era uma história real. A fotografia é ótima, as atuações, o roteiro. Mas eu diria que é impossível de ser verdade que uma turma de escola, hoje, seja induzida a formar uma organização fascista, na traumatizada Alemanha. Poderia, se o filme não fosse baseado em fatos reais.

A violência humana é mais inverossímil do que a própria ficção. E como Michael Heaneke propõe, só ela já basta pra grudar uma bunda duas horas em frente da tela.

Caetano deprimido?

Li uma crítica de Pedro Alexandre Sanche, na Roling Stone de abril, detonando o disco novo do Caetano Zii & Zie. Além de dar apenas duas estrelas e meias, dizia que o disco mostra “um Caetano transparente, mas duro de ouvir. À gosma roxa de Cê somam-se agora modos de cantar do dono da banda, entre agressivo e lamuriosos ”.

Concordo que o Zii & Zie, a começar pelo nome, não é um disco de fácil digestão. Porém, euma bela obra na qual Caetano ensina os moderninhos como transitar entre a MPB e o Rock. As letras de fato são extremas: tristeza, consolo, resmungos. Está tudo lá. Poderia dizer, também, que se trata de Caetano transparente e deprimido. No entanto, prefiro considerar a grande sensibilidade de um poeta-musical que consegue contrapor a tensão entre o novo e o velho de forma tão sincera que soa como a própria dor.

Escute e tire suas conclusões. Eu dou quatro estrelas.