Bastardos Inglórios e A garota azul do lago

Sábado, vi Bastardos Inglórios, com meu amigo Tiago Moralles. Não vou falar muito sobre o filme, pra não estragar a surpresa de quem quer ver. E se você não quer ver, deveria. É muito divertido. Além da atuação impagável do Brad Pitt e os personagens caricatos que são a marca do Tarantino, o filme faz uma reflexão muito boa sobre a produção cinematográfica.

No entanto, o filme de Tarantino foi a desculpa que faltava para eu adiar a escrita do romance que planejei para esse segundo semestre. Sábado mesmo dei início a uma novelinha trash: A garota azul do lago. Faz tempo que queria escrever algo bem fantasioso para diversão própria, sem grandes reflexos.

Então, aguarde. Serão seis capítulos, com direito a trilha sonora. Nessa semana, acabo o primeiro e decido como publicar.

Apenas o fim, menos ruim que Titanic*

Tudo que li sobre Apenas o Fim aponta o filme como um novo caminho para o cinema brasileiro. Tudo que vi em Apenas o Fim foi uma tentativa de imitar os filmes de Domingos de Oliveira e (que os deuses do cinema me perdoem) Masculino-Feminino, de Godard.

Porém, a comédia romântica, de Matheus Souza, ainda estudante de cinema, tem o mérito de ser produzida com apenas R$ 8 mil reais e uma câmera. Os diálogos, tão festejados por serem recheados de referências das últimas duas décadas, são bem escritos. A direção é bonitinha. Erika Mader comprova que é uma fofa. E Gregorio Dudivier está ótimo na imitação de Selton Melo.

Poderia dizer que Apenas o Fim é um filme inteligente caso eu nunca tivesse visto um. No entanto, defino como queridinho. E torço pra que Matheus Souza descole das referências acadêmicas e descubra seu caminho autêntico. Boa sorte, Matheus. É apenas o começo.

De qualquer forma, vale conferir no cinema, considerando que você pagou pra ver Titanic.

*Para os chatos: sei que “menos ruim” não existe.

Socos, chutes e cinema real

Esses dias, vi a regravação de Funny Games, de Michael Haneke. Como gostaria de ter escrito aquele roteiro. O mais parecido que cheguei foi com o conto Toc-toc, que está na antologia Duas Ruas de um Beco.

Pra quem não viu essa ou a primeira gravação de 1997, o filme conta a história de dois rapazes que resolvem violentar uma família de classe média alta americana. O motivo? Nenhum. Violência por violência, como vemos na vida real. No fim do filme, os rapazes têm uma interessante conversa sobre essa questão. O que acontece no cinema não é real? E o que acontece na vida é?

Acho que desde sempre a ficção e realidade se namoram, até por que uma depende da outra. Sexta passada fui ao noitão do Belas Artes, com alguns amigos. Entre os filmes estava A Onda , de Dennis Gansel. A Onda mostra esse ponto de intersecção entre real e ficção. Vi o filme todo sem saber que era uma história real. A fotografia é ótima, as atuações, o roteiro. Mas eu diria que é impossível de ser verdade que uma turma de escola, hoje, seja induzida a formar uma organização fascista, na traumatizada Alemanha. Poderia, se o filme não fosse baseado em fatos reais.

A violência humana é mais inverossímil do que a própria ficção. E como Michael Heaneke propõe, só ela já basta pra grudar uma bunda duas horas em frente da tela.

Sinédoque Nova York (muy bueno)

Primeiro filme dirigido pelo cultuado roteirista Charlie Kaufman (Brilho eterno de uma mente sem lembrança), Sinédoque Nova York discute o oficio da arte. O filme que conta a trajetória do dramaturgo Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) de forma nada linear. A vida inteira pode caber numa peça de teatro ou num filme. Ficção, sonho e real se confundem num debate sobre desejo, criação e existência.

Pode parecer confuso, mas o filme é simples: mostra que quase tudo vale quase nada nesse grande teatro. Boa direção de arte, interpretações e pedida para o final de semana. Aconselho.

Debate sobre Exterminador do Futuro

Para promover o lançamento do filme O Exterminador do Futuro: A Salvação, na primeira edição do evento Multiverso o tema do debate é “Homem versus Máquina “. Na ocasião os participantes Gelson Weschenfelder (filósofo), Edson Gandolfi (publicitário) e Frederico Pinto (cineasta) discutem a luta pela supremacia entre as inteligências da humanidade e das máquinas nos filmes da franquia e projetam o novo filme da série . O evento, com mediação da jornalista Maressah Sampaio (RBS), tem entrada franca e ocorre na Fnac do BarraShoppingSul (Av. Diário de Notícias, 300. Porto Alegre /RS) às 19h30 da próxima quarta-feira, dia 3 de junho.

Além do debate, haverá sorteios de brindes e de ingressos do novo filme. Nesta edição o evento Multiverso, pertencente às produtoras Joy e Smash, está sendo organizado em conjunto com a Espaço Z, e conta com apoio da Fnac e da Obladi Produções.

O Exterminador do Futuro: A Salvação, é o quarto filme da franquia, e ao contrário dos anteriores não se passa no presente e sim no ano pós-apocalíptico de 2018. O agora líder da resistência John Connor(Christian Bale) luta contra a Skynet e seu exército de Exterminadores. Mas o futuro o qual Connor foi criado para acreditar foi alterado em parte pela aparição de Marcus Wright (Sam Worthington), um estranho cuja última lembrança é de estar no corredor da morte. Connor precisa descobrir se Marcus foi enviado do futuro ou se resgatado do passado. Enquanto a Skynet prepara seu ataque final, Connor e Marcus embarcam em uma odisséia que leva ambos ao centro de operações da Skynet onde eles descobrem um terrível segredo por trás da possível aniquilação da raça humana.

O elenco do filme conta também com Common, Helena Bonham Carter, Bryce Dallas Howard e Chris Browning. O roteiro é de Michael Ferris e John Brancato (de O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas), enquanto a direção está a cargo de McG (de As Panteras e As Panteras: Detonando). A estreia no Brasil ocorrerá no dia 5 de junho.

Feliz Natal de Selton Mello

Dois irmãos. Uma mãe depressiva. Um pai malandro. Crianças. Amigos sem perspectiva. E o passado. Todos os ingredientes para uma GRANDE festa de natal. Assim é o primeiro filme dirigido por Selton Mello, Feliz Natal, que estreou em 2008. Além de um roteiro bem composto, a direção de Selton é impecável: trilha, cores, detalhes e planos fechados transmitem toda a angústia e tensão que um rencontro com a família pode causar num homem que busca por si mesmo. Ótimo filme, pena que o Brasil vai demorar para descobrir. Fosse europeu, teríamos filas nos cinemas cults.

EUA, um pais fora de série

Início da década de 80. À mesa, os vinte membros da direção da GM. Silêncio. Jack Smith passa a mão na nuca, tenta uma posição na cadeira.

— Isso deve ser piada, Jack — diz o presidente. — Todos aqui sabemos que pequenos geram lucros pequenos, e veículos grandes, lucros enormes.

Jack argumenta que o Japão vive uma nova fase do automobilismo, carros menores, mais baratos, mas vendas em grande escala. Gargalhada geral.

— Você está dizendo que os orientais vão nos ensinar a fazer carro? — o presidente joga o relatório sobre a mesa. — Além do mais, o relatório sugere que mudemos a linha de produção para utilizando apenas a metade dos funcionários. Impossível. A GM é a número um, reúne grandes marcas, e é isso que vendemos aqui: a força americana.

Quase trinta anos depois, a GM está perto da concordata, enquanto a Toyota é a primeira do mundo. Bem, não só na produção de carros que os EUA se tornaram anacrônico, mas também nas estruturas administrativas, postura diplomática e, principalmente, nos hábitos de consumo. E é sobre isso que trata Gran Torino, filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood.  Walt Kowalski é um veterano da guerra da Coréia e ex-operário da linha de montagem da Ford que, pressionado por seus vizinhos imigrantes, confrontar-se com um jovem que tenta roubar seu valioso Gran Torino 1972. Recomendo como obra cinematográfica e, também, para entender um pouco da crise que passamos.

Aulas de cinema nas escolas

Semana passada recebi a divulgação da II Jornada de Literatura e outras linguagens. O Evento rolou na PUCSP, e não pude deixar de ir. Quatro painéis compunham a programação: Literatura x Teatro, Literatura x Ensino, Literatura x tradução e Literatura x Artes Plásticas. De todos, o que mais chamou atenção foi Literatura x Ensino, apresentado pelo Dr. Emerson de Pietri (UNICAMP). Em sua pesquisa, Emerson trata da forma com que os livros didáticos apresentam os textos literários. Como ele demonstrou, diversos livros recortam trechos importantes de poemas e apresentam apenas momentos secundários de clássicos da prosa.

Concordo com Emerson sobre as más escolhas editorias para a composição dos livros didáticos. No entanto, acredito que o conceito de ensino de literatura está errado na sua totalidade. O acesso da população geral à literatura é recente, data do romantismo (século XIX), pouco mais de duzentos anos. O cinema completa cem anos e nunca se discutiu dar aulas de cinema nas escolas. E as pessoas continuam assistindo apenas os blockbusters. Imagine você na sétima série obrigado a ver Terra em Transe do Glauber Rocha. Provavelmente, acharia tão chato quanto ler Iracema com essa mesma idade.

Amo a literatura. Porém, não foi o medíocre panorama da história literária que vi na escola que me fez apaixonar. Ler - assim como assistir um filme, ir a uma exposição de artes plásticas ou peça de teatro - é um processo de sensibilidade que deve ser desenvolvido gradualmente, não forçado goela abaixo.  A literatura que é apresentada nas escolas só tem um objetivo: formar o aluno para o vestibular, para que tenha uma profissão e seja um consumidor. E, na maioria dos casos, o livro não estará na lista de compras.

É importante que um adolescente saiba que José de Alencar inventou o imaginário da nação brasileira com sua literatura? Sim é. Mais importante, porém, é que ele seja um ser humano capaz de se comover lendo a morte da cachorra Baleia, assim como se comoveu vendo a morte de Mufasa, pai do Rei Leão.

Trecho da Morte da Baleia - (Vidas Secas/Graciliano Ramos)

“A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.

Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

— Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.

Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinha Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:

— Capeta excomungado.

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco-, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, sinha Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.

Caiu antes de alcançar essa cova arredada Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.

Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.

Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.

Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.

Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.

Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar, as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinha Vitória guardava o cachimbo.”

Morte de Mufasa

Os inocentes

Ontem, na aula de escrita dramática do mestre Ivo Bender vi o filme “Os Inocentes” (Jack Clayton, 1961), adaptação William Archibald e Truman Capote para a novela “A Volta do Parafuso”, de Henry James. O filme é uma obra-prima do terror psicológico.
A temática principal da obra é mostrar a perda da inocência: a história gira em torno de uma governanta (Deborah Kerr) que, destinada a tomar conta de duas crianças num casarão no interior da Inglaterra, começa a desconfiar que fantasmas estão as corrompendo. Tanto no filme, quanto no texto de Henry nunca se tem a certeza da existência dos fantasmas (que podem ser apenas frutos da imaginação da governanta).
A direção de Jack Clayton filme é precisa: climas soturnos e atmosfera claustrofóbica típica das mansões e castelos ingleses. Ao contrário de outros clássicos do terror, o filme não abusa do contraste entre preto e branco. As sombras são suaves, mas carregadas do mal e escondendo segredos terríveis.
O filme foi um grande sucesso de público, virou clássico do cinema e estabeleceu parâmetros, suscitando uma série de imitações. Por isso, caso consiga o DVD, não perca a oportunidade de ver.

Ensaio Sobre a cegueira

Estréia nacional na última sexta-feira, o filme de Fernando Meireles, baseado na obra de José Saramago, surpreende. Uma epidemia de cegueira sem explicação leva a humanidade a potencializar seus impulsos animais. Cenas frias, cruas e de bela fotografia, somadas a um ritmo intrigante, grudam o espectador na cadeira.
Li que Fernando Meireles considerou como maior desafio prender o espectador uma vez que os personagens não criam uma identificação direta como manda os manuais de roteiro de Hollywood. Porém, não concordo com o diretor. A história de Saramago trata da essência humana, sendo impossível não haver identificação. O fato dos personagens não terem nomes e a narrativa não apresentar uma introdução pronta de cada estereotipo não interfere em nada.
Cenas do filme foram gravadas em diversas metrópoles do mundo para, também, contribuir com a indeterminação que suspende essa obra de ficção no plano do plausível.

O que Saramago achou:

Trailer

Ainda Orangotangos

Nesse findi, vi o Ainda Orangotangos, primeiro longa do diretor gaúcho Gustavo Spolidoro. O filme costura as histórias de seis contos do livro homónimo do escritor Paulo Scott. Até ai nada de extraordinário, certamente, você já viu um filme assim.
Porém, o bacana de Ainda Orangotangos é o fato de ser filmado num único plano sequência. Sim, a história começa e termina com apenas um fade out e impressiona com a bela fotografia, iluminação e a direção precisa, considerando que foi gravado em apenas 20h.
Pela espontaneidade e, quem sabe até pela performance de alguns atores, o filme pareceu-me um grande teatro passeando pelas ruas de Porto Alegre. E considero isso ótimo, esteticamente é a melhor coisa que vejo de cinema produzido aqui na Província de São Pedro desde Ilha das Flores, e vejo bastante coisa.
Quando li o livro de Paulo Scott, em 2006, havia gostado bastante das histórias insanas. Mas Ainda Orangotangos, o filme, quebra o clichê de que “o livro é bem melhor“. Nem melhor, nem pior, diferente: outra linguagem, outras imagens, outro tempo.

Por isso tudo vale você sair de casa e prestigiar.

Bastardos Inglórios e A garota azul do lago

Sábado, vi Bastardos Inglórios, com meu amigo Tiago Moralles. Não vou falar muito sobre o filme, pra não estragar a surpresa de quem quer ver. E se você não quer ver, deveria. É muito divertido. Além da atuação impagável do Brad Pitt e os personagens caricatos que são a marca do Tarantino, o filme faz uma reflexão muito boa sobre a produção cinematográfica.

No entanto, o filme de Tarantino foi a desculpa que faltava para eu adiar a escrita do romance que planejei para esse segundo semestre. Sábado mesmo dei início a uma novelinha trash: A garota azul do lago. Faz tempo que queria escrever algo bem fantasioso para diversão própria, sem grandes reflexos.

Então, aguarde. Serão seis capítulos, com direito a trilha sonora. Nessa semana, acabo o primeiro e decido como publicar.

Apenas o fim, menos ruim que Titanic*

Tudo que li sobre Apenas o Fim aponta o filme como um novo caminho para o cinema brasileiro. Tudo que vi em Apenas o Fim foi uma tentativa de imitar os filmes de Domingos de Oliveira e (que os deuses do cinema me perdoem) Masculino-Feminino, de Godard.

Porém, a comédia romântica, de Matheus Souza, ainda estudante de cinema, tem o mérito de ser produzida com apenas R$ 8 mil reais e uma câmera. Os diálogos, tão festejados por serem recheados de referências das últimas duas décadas, são bem escritos. A direção é bonitinha. Erika Mader comprova que é uma fofa. E Gregorio Dudivier está ótimo na imitação de Selton Melo.

Poderia dizer que Apenas o Fim é um filme inteligente caso eu nunca tivesse visto um. No entanto, defino como queridinho. E torço pra que Matheus Souza descole das referências acadêmicas e descubra seu caminho autêntico. Boa sorte, Matheus. É apenas o começo.

De qualquer forma, vale conferir no cinema, considerando que você pagou pra ver Titanic.

*Para os chatos: sei que “menos ruim” não existe.

Socos, chutes e cinema real

Esses dias, vi a regravação de Funny Games, de Michael Haneke. Como gostaria de ter escrito aquele roteiro. O mais parecido que cheguei foi com o conto Toc-toc, que está na antologia Duas Ruas de um Beco.

Pra quem não viu essa ou a primeira gravação de 1997, o filme conta a história de dois rapazes que resolvem violentar uma família de classe média alta americana. O motivo? Nenhum. Violência por violência, como vemos na vida real. No fim do filme, os rapazes têm uma interessante conversa sobre essa questão. O que acontece no cinema não é real? E o que acontece na vida é?

Acho que desde sempre a ficção e realidade se namoram, até por que uma depende da outra. Sexta passada fui ao noitão do Belas Artes, com alguns amigos. Entre os filmes estava A Onda , de Dennis Gansel. A Onda mostra esse ponto de intersecção entre real e ficção. Vi o filme todo sem saber que era uma história real. A fotografia é ótima, as atuações, o roteiro. Mas eu diria que é impossível de ser verdade que uma turma de escola, hoje, seja induzida a formar uma organização fascista, na traumatizada Alemanha. Poderia, se o filme não fosse baseado em fatos reais.

A violência humana é mais inverossímil do que a própria ficção. E como Michael Heaneke propõe, só ela já basta pra grudar uma bunda duas horas em frente da tela.

Sinédoque Nova York (muy bueno)

Primeiro filme dirigido pelo cultuado roteirista Charlie Kaufman (Brilho eterno de uma mente sem lembrança), Sinédoque Nova York discute o oficio da arte. O filme que conta a trajetória do dramaturgo Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) de forma nada linear. A vida inteira pode caber numa peça de teatro ou num filme. Ficção, sonho e real se confundem num debate sobre desejo, criação e existência.

Pode parecer confuso, mas o filme é simples: mostra que quase tudo vale quase nada nesse grande teatro. Boa direção de arte, interpretações e pedida para o final de semana. Aconselho.

Debate sobre Exterminador do Futuro

Para promover o lançamento do filme O Exterminador do Futuro: A Salvação, na primeira edição do evento Multiverso o tema do debate é “Homem versus Máquina “. Na ocasião os participantes Gelson Weschenfelder (filósofo), Edson Gandolfi (publicitário) e Frederico Pinto (cineasta) discutem a luta pela supremacia entre as inteligências da humanidade e das máquinas nos filmes da franquia e projetam o novo filme da série . O evento, com mediação da jornalista Maressah Sampaio (RBS), tem entrada franca e ocorre na Fnac do BarraShoppingSul (Av. Diário de Notícias, 300. Porto Alegre /RS) às 19h30 da próxima quarta-feira, dia 3 de junho.

Além do debate, haverá sorteios de brindes e de ingressos do novo filme. Nesta edição o evento Multiverso, pertencente às produtoras Joy e Smash, está sendo organizado em conjunto com a Espaço Z, e conta com apoio da Fnac e da Obladi Produções.

O Exterminador do Futuro: A Salvação, é o quarto filme da franquia, e ao contrário dos anteriores não se passa no presente e sim no ano pós-apocalíptico de 2018. O agora líder da resistência John Connor(Christian Bale) luta contra a Skynet e seu exército de Exterminadores. Mas o futuro o qual Connor foi criado para acreditar foi alterado em parte pela aparição de Marcus Wright (Sam Worthington), um estranho cuja última lembrança é de estar no corredor da morte. Connor precisa descobrir se Marcus foi enviado do futuro ou se resgatado do passado. Enquanto a Skynet prepara seu ataque final, Connor e Marcus embarcam em uma odisséia que leva ambos ao centro de operações da Skynet onde eles descobrem um terrível segredo por trás da possível aniquilação da raça humana.

O elenco do filme conta também com Common, Helena Bonham Carter, Bryce Dallas Howard e Chris Browning. O roteiro é de Michael Ferris e John Brancato (de O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas), enquanto a direção está a cargo de McG (de As Panteras e As Panteras: Detonando). A estreia no Brasil ocorrerá no dia 5 de junho.

Feliz Natal de Selton Mello

Dois irmãos. Uma mãe depressiva. Um pai malandro. Crianças. Amigos sem perspectiva. E o passado. Todos os ingredientes para uma GRANDE festa de natal. Assim é o primeiro filme dirigido por Selton Mello, Feliz Natal, que estreou em 2008. Além de um roteiro bem composto, a direção de Selton é impecável: trilha, cores, detalhes e planos fechados transmitem toda a angústia e tensão que um rencontro com a família pode causar num homem que busca por si mesmo. Ótimo filme, pena que o Brasil vai demorar para descobrir. Fosse europeu, teríamos filas nos cinemas cults.

EUA, um pais fora de série

Início da década de 80. À mesa, os vinte membros da direção da GM. Silêncio. Jack Smith passa a mão na nuca, tenta uma posição na cadeira.

— Isso deve ser piada, Jack — diz o presidente. — Todos aqui sabemos que pequenos geram lucros pequenos, e veículos grandes, lucros enormes.

Jack argumenta que o Japão vive uma nova fase do automobilismo, carros menores, mais baratos, mas vendas em grande escala. Gargalhada geral.

— Você está dizendo que os orientais vão nos ensinar a fazer carro? — o presidente joga o relatório sobre a mesa. — Além do mais, o relatório sugere que mudemos a linha de produção para utilizando apenas a metade dos funcionários. Impossível. A GM é a número um, reúne grandes marcas, e é isso que vendemos aqui: a força americana.

Quase trinta anos depois, a GM está perto da concordata, enquanto a Toyota é a primeira do mundo. Bem, não só na produção de carros que os EUA se tornaram anacrônico, mas também nas estruturas administrativas, postura diplomática e, principalmente, nos hábitos de consumo. E é sobre isso que trata Gran Torino, filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood.  Walt Kowalski é um veterano da guerra da Coréia e ex-operário da linha de montagem da Ford que, pressionado por seus vizinhos imigrantes, confrontar-se com um jovem que tenta roubar seu valioso Gran Torino 1972. Recomendo como obra cinematográfica e, também, para entender um pouco da crise que passamos.

Aulas de cinema nas escolas

Semana passada recebi a divulgação da II Jornada de Literatura e outras linguagens. O Evento rolou na PUCSP, e não pude deixar de ir. Quatro painéis compunham a programação: Literatura x Teatro, Literatura x Ensino, Literatura x tradução e Literatura x Artes Plásticas. De todos, o que mais chamou atenção foi Literatura x Ensino, apresentado pelo Dr. Emerson de Pietri (UNICAMP). Em sua pesquisa, Emerson trata da forma com que os livros didáticos apresentam os textos literários. Como ele demonstrou, diversos livros recortam trechos importantes de poemas e apresentam apenas momentos secundários de clássicos da prosa.

Concordo com Emerson sobre as más escolhas editorias para a composição dos livros didáticos. No entanto, acredito que o conceito de ensino de literatura está errado na sua totalidade. O acesso da população geral à literatura é recente, data do romantismo (século XIX), pouco mais de duzentos anos. O cinema completa cem anos e nunca se discutiu dar aulas de cinema nas escolas. E as pessoas continuam assistindo apenas os blockbusters. Imagine você na sétima série obrigado a ver Terra em Transe do Glauber Rocha. Provavelmente, acharia tão chato quanto ler Iracema com essa mesma idade.

Amo a literatura. Porém, não foi o medíocre panorama da história literária que vi na escola que me fez apaixonar. Ler - assim como assistir um filme, ir a uma exposição de artes plásticas ou peça de teatro - é um processo de sensibilidade que deve ser desenvolvido gradualmente, não forçado goela abaixo.  A literatura que é apresentada nas escolas só tem um objetivo: formar o aluno para o vestibular, para que tenha uma profissão e seja um consumidor. E, na maioria dos casos, o livro não estará na lista de compras.

É importante que um adolescente saiba que José de Alencar inventou o imaginário da nação brasileira com sua literatura? Sim é. Mais importante, porém, é que ele seja um ser humano capaz de se comover lendo a morte da cachorra Baleia, assim como se comoveu vendo a morte de Mufasa, pai do Rei Leão.

Trecho da Morte da Baleia - (Vidas Secas/Graciliano Ramos)

“A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.

Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

— Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.

Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinha Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:

— Capeta excomungado.

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco-, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, sinha Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.

Caiu antes de alcançar essa cova arredada Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.

Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.

Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.

Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.

Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.

Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar, as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinha Vitória guardava o cachimbo.”

Morte de Mufasa

Os inocentes

Ontem, na aula de escrita dramática do mestre Ivo Bender vi o filme “Os Inocentes” (Jack Clayton, 1961), adaptação William Archibald e Truman Capote para a novela “A Volta do Parafuso”, de Henry James. O filme é uma obra-prima do terror psicológico.
A temática principal da obra é mostrar a perda da inocência: a história gira em torno de uma governanta (Deborah Kerr) que, destinada a tomar conta de duas crianças num casarão no interior da Inglaterra, começa a desconfiar que fantasmas estão as corrompendo. Tanto no filme, quanto no texto de Henry nunca se tem a certeza da existência dos fantasmas (que podem ser apenas frutos da imaginação da governanta).
A direção de Jack Clayton filme é precisa: climas soturnos e atmosfera claustrofóbica típica das mansões e castelos ingleses. Ao contrário de outros clássicos do terror, o filme não abusa do contraste entre preto e branco. As sombras são suaves, mas carregadas do mal e escondendo segredos terríveis.
O filme foi um grande sucesso de público, virou clássico do cinema e estabeleceu parâmetros, suscitando uma série de imitações. Por isso, caso consiga o DVD, não perca a oportunidade de ver.

Ensaio Sobre a cegueira

Estréia nacional na última sexta-feira, o filme de Fernando Meireles, baseado na obra de José Saramago, surpreende. Uma epidemia de cegueira sem explicação leva a humanidade a potencializar seus impulsos animais. Cenas frias, cruas e de bela fotografia, somadas a um ritmo intrigante, grudam o espectador na cadeira.
Li que Fernando Meireles considerou como maior desafio prender o espectador uma vez que os personagens não criam uma identificação direta como manda os manuais de roteiro de Hollywood. Porém, não concordo com o diretor. A história de Saramago trata da essência humana, sendo impossível não haver identificação. O fato dos personagens não terem nomes e a narrativa não apresentar uma introdução pronta de cada estereotipo não interfere em nada.
Cenas do filme foram gravadas em diversas metrópoles do mundo para, também, contribuir com a indeterminação que suspende essa obra de ficção no plano do plausível.

O que Saramago achou:

Trailer

Ainda Orangotangos

Nesse findi, vi o Ainda Orangotangos, primeiro longa do diretor gaúcho Gustavo Spolidoro. O filme costura as histórias de seis contos do livro homónimo do escritor Paulo Scott. Até ai nada de extraordinário, certamente, você já viu um filme assim.
Porém, o bacana de Ainda Orangotangos é o fato de ser filmado num único plano sequência. Sim, a história começa e termina com apenas um fade out e impressiona com a bela fotografia, iluminação e a direção precisa, considerando que foi gravado em apenas 20h.
Pela espontaneidade e, quem sabe até pela performance de alguns atores, o filme pareceu-me um grande teatro passeando pelas ruas de Porto Alegre. E considero isso ótimo, esteticamente é a melhor coisa que vejo de cinema produzido aqui na Província de São Pedro desde Ilha das Flores, e vejo bastante coisa.
Quando li o livro de Paulo Scott, em 2006, havia gostado bastante das histórias insanas. Mas Ainda Orangotangos, o filme, quebra o clichê de que “o livro é bem melhor“. Nem melhor, nem pior, diferente: outra linguagem, outras imagens, outro tempo.

Por isso tudo vale você sair de casa e prestigiar.