Sarau Desamordaçados

Que tal ouvir e ler um pouco de Desamordaçados?

Sarau Desamordaçados, leitura de contos da Antologia 39 - Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. Não poderei ir, mas certamente bons amigos me representarão.

Quando? 27 de novembro, sexta-feira.
Que hora? 19h
Onde? Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165 - Porto Alegre)

Entrada franca, leituras honestas.

Mediação de Marcelo Noah.

Garanta o seu

Finalmente recebi meu exemplares do Desamordaçados. Quem quiser, dá um toque por comentário ou e-mail.

Fincapata e Toc-toc

Hoje é a vez de mais dos contos do Duas Ruas de um Beco, Fincapata e Toc-toc. O primeiro, no site, conta o que acontece quando a musa Claudia Caswel surge na vida de um rapaz ingênuo de uma pequena cidade do interior. O segundo, nas ruas, é o primeiro conto que escrevi tendo o frentista como protagonista. Toc-toc é inspirado num ex-vizinho que tive no apartamento da João Pessoa.

Fincapata está na Antologia Desamordaçados, lançada sábado (01/08) em Porto Alegre. Não pude comparecer, mas os relatos são ótimos. Na Feira do Livro terá outra tarde de autógrafos, espero que seja entre os dias que estarei por lá ministrando o curso sobre blogs literários.

Por Vinte Minutos

Mauro Paz, 24/06/2005

Ele sentou, olhou para o relógio e viu que estava vinte minutos atrasado. Em noites frias como aquela, detestava deixa-la esperando, mas não podia fazer mais nada. Se não fosse o tempo que ele perdeu com o zíper emperrado, chegaria a tempo. O grande problema de chegar atrasado era ela desconfiar e indagar sobre o que estava fazendo, com quem e onde. Como iria responder a essas perguntas? Ele não podia deixar dúvidas. No decorrer dos cinco anos em que estavam juntos, ela se mostrou uma companheira quase perfeita, com ressalva a fumar de manhã cedo.

Na sala, ela batia o pé. Via a novela das oito e pensava como esconderia quando ele chegasse. Há dias que estava saturada, sentia vontade de contar tudo: como, porque, com quem. No entanto, não sabia se valeria a união de cinco anos, pois ele era cara quase perfeito, com ressalva a mijar fora da patente.

O ônibus dobra a última esquina antes do ponto. Lembra de limpar as mãos. A sujeira o denunciaria de cara. Pegou um papel de dentro da pasta e limpou dedo por dedo, depois as palmas.

O cachorro da primeira casa da rua latiu. Ela sabia que ele estava chegando. Olhou para o forno, a carne não estava pronta. Percebeu as duas xícaras na mesa. Levantou e guardou uma.

Ele chegou. Contaram do dia. Jantaram. Transaram. Dormiram quase certos de que era o melhor a fazer.

O Beco

Mauro Paz 20/07/2005

O BECO é frio, escuro e não espera. Estava lá mais uma vez. Detestava o lugar, mas não havia outro caminho. Era necessário. Calculou as circunstâncias, no entanto o contexto QUASE o obrigava. Por mais que se importasse, há situações em que é obrigado a pensar: o mundo que se exploda, agora sou eu.

Sempre teve culpa por escolhas assim. Preocupa-se com a opinião dos demais. Muitos o consideram covarde por essas atitudes, como se nunca passassem pelo BECO.

Tentou esquecer a opinião pública. Bateu a poeira. E fugiu, com a esperança de que, DESTA VEZ, ninguém o tenha visto com as mãos sujas.

Boneco e Tua mãe e outras garotas

Hoje é o dia de mais dois contos do Duas Ruas de um Beco. Boneco está no site e Tua mãe e outras garotas, nas ruas. Esse segundo conto é muito especial pra mim, pois conta a história de uma amiga. Leia aqui a história real. Caso não o encontre pelas ruas, está na antologia Desamordaçados, que será lançada dia 01/08, em Porto Alegre.

Rodrigo

Por Mauro Paz

Vermelho, preto e verde é só o que Rodrigo enxerga. Final da Copa do Brasil. Flamengo e Internacional. Setenta mil pessoas no Maracanã. Trinta e cinco minutos do segundo tempo, zero-a-zero. O empate leva o time gaúcho ao título. A multidão rubro e negra grita a cada lance.

Rogério para Marquinhos, que dribla o meia do Internacional e devolve pra Rogério. O craque entra na grande área. Prepara o chute. Derrubado. A torcida levanta num grito só.

A onda vermelha rompe a tensão superficial do ar. Verde e azul é só o que Rodrigo vê. Sozinho, inerte. Rodrigo, a grama, o céu, Rodrigo. Inspira, escuta o vento cortar o gramado. Cada vez mais perto. Mais forte. Mais perto. Mais forte. Corre, corre. Corre tão rápido que o cérebro não comanda as pernas. Os passos se perdem na imensidão verde e azul desprovida de uma única árvore para Rodrigo agarrar.

O vento segue no encalço de Rodrigo, brinca de o alcançar. O azul começa a devorar o verde à sua frente. No mesmo passo em que o chão acaba, o vento arremessa Rodrigo de volta ao estádio.

Apito, o juiz dá tiro de meta. A torcida cala, explode. A multidão rubra e negra derrama-se no gramado. Destroça o juiz. Rodrigo assiste imóvel ao espetáculo de som e fúria e tempo real.

Não Toca

Por Mauro Paz (07/2005)


São onze e quarenta e nove, quarta-feira, e ninguém ligou. Passou o dia todo em casa e nada. O telefone podia estar quebrado. Pegou o celular e fez o teste: o telefone fixo chamou sem problema algum. Estanho que durante um dia todo ninguém ligue. Veja bem, devemos levar em conta que da hora em que acordou, oito e dez da manhã, até agora, onze e cinquenta da noite, são quinze horas e quarenta minutos sem nenhum telefone chamar. Ou seja, ninguém sentiu a sua falta nem ao menos para resolver algum problema.

Num momento como esse, começa a se perguntar: O que fiz errado? Sou um bom amigo, filho exemplar, dedicado namorado? O quê? Nem a namorada ligou e já são onze e cinquenta e dois. Come o último bombom da caixa, serve um cálice de vinho. O que aconteceu tão interessante durante o dia que ninguém se dignou a pegar o telefone sequer para ver como estava?
Onze e cinquenta e cinco o telefone toca.

— Alô.
— Alô. Topa sexo anal?
— Como?
— É, por traz. Tipo cachorro.
— Com quem o senhor quer falar?
— Marcelão Vinte Centímetros.
— Meu senhor, aqui não tem nenhum Marcelão.
— Mas não precisa ser o Marcelão. Quantos centímetros tu tem? Topa sexo anal?
— Meu senhor, ligou pro número errado, aqui moro só eu, e não trabalho nesse ramo.
— Ok. Mas sabe de alguém que possa quebrar o galho?
— Não, meu senhor. Boa noite.

Onze e cinquenta e oito e o único telefonema foi de um velho à procura de sexo anal. Tem dias na vida em que só coisas estranhas acontecem. Pega o jornal de domingo > classificados > acompanhantes: Carla, morena, tipo ninfeta, universitária, corpo escultura. Prazer garantido.
Na última esperança de que alguém ligue, mira fixamente o celular. Meia-noite, quinta–feira, não se contem:

— Alô, Carla?
— Sim.
— Topa sexo anal?

A Praia e velhos contos

Como anunciei no Twitter, encontrei no HD alguns contos que escrevi entre 2004 e 2005. Não dá pra dizer que todos são contos, mas sofrerão algumas mudanças e virão para o blog. Além de fugirem da minha atual proposta de escrita, não há unidade alguma no conjunto desses textos. Postarei no blog porque acho interessante o registro dessa fase passada. O primeiro da série é A Praia.

A Praia

Por Mauro Paz

Dez da manhã. O céu sem nuvens, nada de vento. Escuto o mar, pessoas se divertindo e Jammin, do Bob Marley. Pego a prancha e caminho. A areia é fina, branca, polvilhada. A água verde toca os pés, morna. Não há corrente. Chego fácil ao outside. Cinco ou seis surfistas alternam-se nas ondas. Um metro e meio, tubulares. Remo. Dropo. A onda derrete rápida. Corro a parede, nenhuma preocupação. Distribuo o repertório.

A onda acaba na beira da praia. Remo em direção ao outside. Nuvens, a água marrom. Vento. Os banhistas saem da beira. O mar inquieta-se. Ao fundo, engorda a onda. Tem a altura de um prédio de sete andares. Alguns remam para dropá-la. Remo rumo ao outside. A onda quebra, arremessa-me na beira. A água toma a praia, e as cadeiras, e as bancas, e o cimento do calçadão.

Uma série de cinco ondas se levanta. Pessoas gritam, correm, retornam pra pegar pertences. Sacudo a cabeça. Testo os sentidos. E volto a remar. Subo a parede da primeira onda. Não consigo furar. Quebra. Estrondo. Luta. A água entra pelo pulmão. O corpo afunda. Canso. E acordo pronto pra surfar.

Alcides e Rodando

Hoje, mais dois contos de Duas Ruas de um Beco seguem seus rumos: Alcides pelas ruas e Rodando no site do projeto.

Pra quem ainda não sabe, Duas Ruas de um Beco é um projeto de publicação que iniciei dia 25/05. A cada duas semanas, um conto vai pras ruas e outro para o site do projeto. Acompanhe e mande sua opinião.

No ar: Duas Ruas de um Beco

Hoje dei início ao projeto DUAS RUAS DE UM BECO. Mais do que uma antologia de contos, DUAS RUAS DE UM BECO é uma proposta alternativa que rompe com o mercado editorial e alia internet e livro impresso de forma independente. Ao todo são 16 contos.  A cada duas semanas, um novo conto ganhará as ruas de diversas cidades do Brasil e, simultaneamente, o conto irmão estará em www.mauropaz.com.br/duasruas.

Juntar os 16 contos, tarefa impossível.

Mas você pode adquirir o impresso exclusivo com os 16 contos, pelo contato: paz.mauro@gmail.com

Acompanhe.

174 - Três tempos pra brilhar

Por Mauro Paz

Sentado no caixote de madeira, o menino observa a mãe registrar as compras do cliente. Frutas, verduras e diversas embalagens empoleiram-se nas estantes do pequeno mercadinho, no pé do Morro do Rato. Pessoas entram, cumprimentam, escolhem os produtos, contam as moedas e saem. O menino conhece a rotina. Sua brincadeira preferida é imitar a mãe atendendo a clientela do armazém.

Do outro lado da praça, o garoto vê a fogueira acessa e a roda formada embaixo da marquise. Junta-se ao grupo. Meninos, meninas, aproximadamente setenta menores. Falam ao mesmo tempo. O garoto só pensa em arrumar o que comer. A grana do dia virou pó. A busca por comida junto aos amigos é sem sucesso. Resta subir no telhado da banca de revista para ver, entre os prédios, o canto de céu.

A tarde é quente. No bairro chique, a multidão circula com pressa. O suor brota da pele preta do homem no ponto de ônibus. Bermuda e regata. Ele é alto, magro, os braços longilíneos têm músculos desenhados. Pela calçada, a estudante anda, confere os livros. O ônibus está atrasado. Ela esbarra no homem. Desculpa-se sem resposta.

A mãe do menino dá o troco à senhora com a sacola cheia de bananas. A senhora despede-se, sai. Silêncio no armazém. A mãe pega o menino no colo. Beija. Na rua, passos. Coloca o menino sobre a caixa de madeira. O menino levanta. Na ponta dos pés espia sobre o balcão.

Do alto da banca de revistas o garoto avista dois carros estacionando na rua lateral. As assistentes sociais que sempre trazem sopa nas noites de frio. Grita aos companheiros, “ as tia da sopa tão aí”. Pula do telhado da banca. A roda se desfaz. Acordam os que dormem. A mensagem replica-se: “as tia da sopa tão aí… as tia da sopa tão aí…”

Um, sete, quatro, no letreiro. O ônibus vem lento. A estudante dá um passo pra frente, estica o pescoço. Analfabeto, o homem apenas reconhece os números. O um, sete, quatro também é o seu ônibus. Aproximam-se do meio-fio.

Vinte e poucos anos, pele escura, cabelo raspado, bermuda e regata. Entra no armazém, olha as prateleiras. Procura por algum produto em particular. “Posso ajudar?”, pergunta a mãe. Puxando a faca das costas, anuncia, “É um assalto, dona. Não grita, que te furo”. O menino chora. A mãe entrega o dinheiro do caixa. “Quero tudo, porra. Não sacaneia que te furo, vadia”, grita o assaltante.

A molecada corre em busca de sopa. Há alguns metros para chegarem, as portas dos carros se abrem. Saltam oito homens. As máscaras de ninja vazam o ódio pelos buracos dos olhos. Os encapuzados sacam pistolas. Começa a caçada. O primeiro tiro amortece no peito de uma menina de nove anos. Os menores se dispersam. Os homens perseguem. O garoto corre. Corre. Corre mais do que as pernas podem correr.

O ônibus encosta. A estudante e o homem sobem. Quatro passageiros, agora seis. A menina passa pela roleta. Antes de o ônibus arrancar, o homem saca o trinta e oito e grita, “É nóis. Passa grana, filho da puta. Passa a grana”. Os passageiros se abaixam nos bancos. O trocador começa a tirar o dinheiro do caixa. O motorista salta do carro. O homem olha pra traz surpreso com a fuga. Vira-se, firma a arma na cabeça do cobrador.

“Não tem mais nada, moço”, grita a mãe, em histeria. O assaltante reforça, “Já falei, caralho, se achar mais grana vou te fura, vadia”. Ele passa para parte de traz do balcão e revira as cadernetas de fiado. O menino agacha-se, enquanto a mãe chora com as mãos entre o rosto, “não te mais nada. Deixa nóis em paz”. O bandido encontra o fundo falso da caixa registradora. Notas presas com atilho. “Acha que sou otário, vadia? Acha que engana?” grita o assaltante alterado. A mãe sussurra repetidamente, “Vai embora. Deixa nóis em paz”. Rasga o ventre da mãe. Junta o dinheiro e corre. Com a faca cravada, a mulher cai de joelhos. O menino aproxima-se, a abraça. “Chama alguém, meu filho. Chama a tia.”

O garoto despista os atiradores. Está a duas quadras da praça. Tiros e gritos. Carros passam. Encontra um orelhão. Pega um papel amassado do bolso e liga pra assistente social. “Tão matano a gente, tia.Os home de máscara tão dano tiro em nóis”. A mulher diz estar a caminho, pede que ele fique em lugar seguro. O garoto desliga o telefone. Esconde-se debaixo de uma caminhonete estacionada ao lado do orelhão.

“Anda rápido, com essa porra, cumpadi”, fala ao trocador. Do lado de fora do ônibus, curiosos. Chega uma viatura de polícia. Descem dois policiais. Um aproxima-se do ônibus, o outro fica junto à porta do carro, dando cobertura. “Tá veno, filho da puta, os cana chegaram. Agora já é”, pula a roleta e dá uma gravata no trocador. “Deixa eu sai, senão estoro a cabeça desse filho da puta”, grita aos policiais por uma das janelas. “Larga a arma que tudo vai ficar bem. Ninguém quer te fazer mal”, replica o policial próximo ao ônibus. O homem quer só escapar vivo. Talvez levar o tocador por algumas quadras e depois sumir entre os prédios. “Polícia é tudo filho da puta, irmão. Cês só qué dá esculacho. Não largo porra nenhuma. Deixa eu passar senão apago esse merda”.

O menino corre pela rua. Vê os carros passando. Precisa atravessar. A casa da tia fica do outro lado. Toma coragem, espera, corre. Chega à porta, “tia, mamãe tá machucada”. A mulher pega a criança no colo a corre para bar. A mãe está deitada de bruços. A tia larga o menino no chão. Aproxima-se da irmã. Vira-a. “Ela tá dormino?”, pergunta o menino. A mulher cala, chora. Pega-o no colo e leva pra casa.

Os gritos e tiros cessam. O garroto aguarda uns instantes. Sai debaixo da caminhonete. Desconfiado, caminha em direção da praça. Sirenes. Da ponta da quadra avista as ambulâncias. Aproxima-se. Muitos dos companheiros chorando. O saco preto é colocado na van branca. Em meio à confusão, a assistente social. “Tá bem, garoto?”, pergunta a mulher. Com o olhar estático, nada responde.

“Não tenho nada a perder. Não tenho mãe. Sobrevivi à chacina. Meu santo é forte, cumpadi. Deixa eu passa, filho da puta”, grita o homem da janela do coletivo. O trocador treme sentindo o cano frio tocando repetidas vezes o seu crânio. O homem agrupa os demais passageiros no banco último banco. A estudante escreve com batom no vidro: “Ele vai matar geral”. Mais duas viaturas chegam. Uma pequena multidão cerca o coletivo. Repórteres. Sem soltar do pescoço do trocador, o homem senta junto aos reféns no último banco. Respira fundo. Olha a estudante. Lembra da vida que não teve. Solta o trocador. Puxa a estudante, dá a gravata. Pela janela, grita: “Se não deixar eu passar, vou matar essa daqui. Vai ser no dez”. Caminha com a garota pelo corredor do ônibus em contagem regressiva. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três…

A Comerciante Maria Rosa de Oliveira foi morta a facadas, na tarde de ontem, enquanto atendia seu armazém na subida do Moro do Rato. A polícia acredita que Maria Rosa tenha sido atingida por reagir a um provável assalto. No entanto, são apenas especulações. Os investigadores esperam esclarecer maiores detalhes sobre o ocorrido assim que encontrarem o filho da comerciante, única testemunha do crime. Com apenas seis anos, o menino – desaparecido desde as dezessete horas de ontem - foi deixado em casa pela tia, que saíra para cuidar da remoção do corpo.

“Estamos aqui na décima terceira DP, onde estão sendo ouvidos os sobreviventes da chacina ocorrida há poucas horas no centro da cidade. Oito crianças foram assassinadas friamente por atiradores não identificados…”. Lentes de câmeras. O garoto precisa sair dali. “O que vai ser de nóis, tia? Vão prende?”, pergunta a assistente social. “Não. Pode ir, já te interrogaram”. Cabos, luzes. Policiais armados. Choro. O garoto sai quieto, em meio bagunça da DP. Precisa achar um canto pra dormir.

“… após a tentativa de assalto mal sucedida a um ônibus da linha 174, o homem, de vinte e poucos anos e de nome ainda desconhecido, fez o trocador e cinco passageiros de reféns. A negociação foi tensa. Quando todos acreditavam que a situação se estenderia por horas, o seqüestrador surpreendeu a todos ao descer do ônibus usando a estudante Marcela Silva como escudo. Na tentativa de neutralizá-lo, um policial, de nome não divulgado pelo Batalhão de Operações Especiais, alvejou a estudante, que foi removida já sem vida para o Pronto Socorro da cidade. Encaminhado para a DP o assaltante foi acidentalmente morto. Segundo relato dos policiais que o escoltavam, tiveram que usar de muita forma para imobilizá-lo devido à grande agitação. O que ocasionou a morte não intencional do bandido…”

Dois contos

Faz tempo que não posto nenhum conto no blog. Porém, não parei de escrever. Estou trabalhando numa série nova. Dois contos dessa nova série foram publicados semana passada pelo site Cronópios e pela editora Mojo Books. Além dos meus contos, os sites contam com conteúdo de primeira. Vale ler.

Conto Societé Générale - Cronópios
Primeiro Andar - Mojo Books

Sarau Desamordaçados

Que tal ouvir e ler um pouco de Desamordaçados?

Sarau Desamordaçados, leitura de contos da Antologia 39 - Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. Não poderei ir, mas certamente bons amigos me representarão.

Quando? 27 de novembro, sexta-feira.
Que hora? 19h
Onde? Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165 - Porto Alegre)

Entrada franca, leituras honestas.

Mediação de Marcelo Noah.

Garanta o seu

Finalmente recebi meu exemplares do Desamordaçados. Quem quiser, dá um toque por comentário ou e-mail.

Fincapata e Toc-toc

Hoje é a vez de mais dos contos do Duas Ruas de um Beco, Fincapata e Toc-toc. O primeiro, no site, conta o que acontece quando a musa Claudia Caswel surge na vida de um rapaz ingênuo de uma pequena cidade do interior. O segundo, nas ruas, é o primeiro conto que escrevi tendo o frentista como protagonista. Toc-toc é inspirado num ex-vizinho que tive no apartamento da João Pessoa.

Fincapata está na Antologia Desamordaçados, lançada sábado (01/08) em Porto Alegre. Não pude comparecer, mas os relatos são ótimos. Na Feira do Livro terá outra tarde de autógrafos, espero que seja entre os dias que estarei por lá ministrando o curso sobre blogs literários.

Por Vinte Minutos

Mauro Paz, 24/06/2005

Ele sentou, olhou para o relógio e viu que estava vinte minutos atrasado. Em noites frias como aquela, detestava deixa-la esperando, mas não podia fazer mais nada. Se não fosse o tempo que ele perdeu com o zíper emperrado, chegaria a tempo. O grande problema de chegar atrasado era ela desconfiar e indagar sobre o que estava fazendo, com quem e onde. Como iria responder a essas perguntas? Ele não podia deixar dúvidas. No decorrer dos cinco anos em que estavam juntos, ela se mostrou uma companheira quase perfeita, com ressalva a fumar de manhã cedo.

Na sala, ela batia o pé. Via a novela das oito e pensava como esconderia quando ele chegasse. Há dias que estava saturada, sentia vontade de contar tudo: como, porque, com quem. No entanto, não sabia se valeria a união de cinco anos, pois ele era cara quase perfeito, com ressalva a mijar fora da patente.

O ônibus dobra a última esquina antes do ponto. Lembra de limpar as mãos. A sujeira o denunciaria de cara. Pegou um papel de dentro da pasta e limpou dedo por dedo, depois as palmas.

O cachorro da primeira casa da rua latiu. Ela sabia que ele estava chegando. Olhou para o forno, a carne não estava pronta. Percebeu as duas xícaras na mesa. Levantou e guardou uma.

Ele chegou. Contaram do dia. Jantaram. Transaram. Dormiram quase certos de que era o melhor a fazer.

O Beco

Mauro Paz 20/07/2005

O BECO é frio, escuro e não espera. Estava lá mais uma vez. Detestava o lugar, mas não havia outro caminho. Era necessário. Calculou as circunstâncias, no entanto o contexto QUASE o obrigava. Por mais que se importasse, há situações em que é obrigado a pensar: o mundo que se exploda, agora sou eu.

Sempre teve culpa por escolhas assim. Preocupa-se com a opinião dos demais. Muitos o consideram covarde por essas atitudes, como se nunca passassem pelo BECO.

Tentou esquecer a opinião pública. Bateu a poeira. E fugiu, com a esperança de que, DESTA VEZ, ninguém o tenha visto com as mãos sujas.

Boneco e Tua mãe e outras garotas

Hoje é o dia de mais dois contos do Duas Ruas de um Beco. Boneco está no site e Tua mãe e outras garotas, nas ruas. Esse segundo conto é muito especial pra mim, pois conta a história de uma amiga. Leia aqui a história real. Caso não o encontre pelas ruas, está na antologia Desamordaçados, que será lançada dia 01/08, em Porto Alegre.

Rodrigo

Por Mauro Paz

Vermelho, preto e verde é só o que Rodrigo enxerga. Final da Copa do Brasil. Flamengo e Internacional. Setenta mil pessoas no Maracanã. Trinta e cinco minutos do segundo tempo, zero-a-zero. O empate leva o time gaúcho ao título. A multidão rubro e negra grita a cada lance.

Rogério para Marquinhos, que dribla o meia do Internacional e devolve pra Rogério. O craque entra na grande área. Prepara o chute. Derrubado. A torcida levanta num grito só.

A onda vermelha rompe a tensão superficial do ar. Verde e azul é só o que Rodrigo vê. Sozinho, inerte. Rodrigo, a grama, o céu, Rodrigo. Inspira, escuta o vento cortar o gramado. Cada vez mais perto. Mais forte. Mais perto. Mais forte. Corre, corre. Corre tão rápido que o cérebro não comanda as pernas. Os passos se perdem na imensidão verde e azul desprovida de uma única árvore para Rodrigo agarrar.

O vento segue no encalço de Rodrigo, brinca de o alcançar. O azul começa a devorar o verde à sua frente. No mesmo passo em que o chão acaba, o vento arremessa Rodrigo de volta ao estádio.

Apito, o juiz dá tiro de meta. A torcida cala, explode. A multidão rubra e negra derrama-se no gramado. Destroça o juiz. Rodrigo assiste imóvel ao espetáculo de som e fúria e tempo real.

Não Toca

Por Mauro Paz (07/2005)


São onze e quarenta e nove, quarta-feira, e ninguém ligou. Passou o dia todo em casa e nada. O telefone podia estar quebrado. Pegou o celular e fez o teste: o telefone fixo chamou sem problema algum. Estanho que durante um dia todo ninguém ligue. Veja bem, devemos levar em conta que da hora em que acordou, oito e dez da manhã, até agora, onze e cinquenta da noite, são quinze horas e quarenta minutos sem nenhum telefone chamar. Ou seja, ninguém sentiu a sua falta nem ao menos para resolver algum problema.

Num momento como esse, começa a se perguntar: O que fiz errado? Sou um bom amigo, filho exemplar, dedicado namorado? O quê? Nem a namorada ligou e já são onze e cinquenta e dois. Come o último bombom da caixa, serve um cálice de vinho. O que aconteceu tão interessante durante o dia que ninguém se dignou a pegar o telefone sequer para ver como estava?
Onze e cinquenta e cinco o telefone toca.

— Alô.
— Alô. Topa sexo anal?
— Como?
— É, por traz. Tipo cachorro.
— Com quem o senhor quer falar?
— Marcelão Vinte Centímetros.
— Meu senhor, aqui não tem nenhum Marcelão.
— Mas não precisa ser o Marcelão. Quantos centímetros tu tem? Topa sexo anal?
— Meu senhor, ligou pro número errado, aqui moro só eu, e não trabalho nesse ramo.
— Ok. Mas sabe de alguém que possa quebrar o galho?
— Não, meu senhor. Boa noite.

Onze e cinquenta e oito e o único telefonema foi de um velho à procura de sexo anal. Tem dias na vida em que só coisas estranhas acontecem. Pega o jornal de domingo > classificados > acompanhantes: Carla, morena, tipo ninfeta, universitária, corpo escultura. Prazer garantido.
Na última esperança de que alguém ligue, mira fixamente o celular. Meia-noite, quinta–feira, não se contem:

— Alô, Carla?
— Sim.
— Topa sexo anal?

A Praia e velhos contos

Como anunciei no Twitter, encontrei no HD alguns contos que escrevi entre 2004 e 2005. Não dá pra dizer que todos são contos, mas sofrerão algumas mudanças e virão para o blog. Além de fugirem da minha atual proposta de escrita, não há unidade alguma no conjunto desses textos. Postarei no blog porque acho interessante o registro dessa fase passada. O primeiro da série é A Praia.

A Praia

Por Mauro Paz

Dez da manhã. O céu sem nuvens, nada de vento. Escuto o mar, pessoas se divertindo e Jammin, do Bob Marley. Pego a prancha e caminho. A areia é fina, branca, polvilhada. A água verde toca os pés, morna. Não há corrente. Chego fácil ao outside. Cinco ou seis surfistas alternam-se nas ondas. Um metro e meio, tubulares. Remo. Dropo. A onda derrete rápida. Corro a parede, nenhuma preocupação. Distribuo o repertório.

A onda acaba na beira da praia. Remo em direção ao outside. Nuvens, a água marrom. Vento. Os banhistas saem da beira. O mar inquieta-se. Ao fundo, engorda a onda. Tem a altura de um prédio de sete andares. Alguns remam para dropá-la. Remo rumo ao outside. A onda quebra, arremessa-me na beira. A água toma a praia, e as cadeiras, e as bancas, e o cimento do calçadão.

Uma série de cinco ondas se levanta. Pessoas gritam, correm, retornam pra pegar pertences. Sacudo a cabeça. Testo os sentidos. E volto a remar. Subo a parede da primeira onda. Não consigo furar. Quebra. Estrondo. Luta. A água entra pelo pulmão. O corpo afunda. Canso. E acordo pronto pra surfar.

Alcides e Rodando

Hoje, mais dois contos de Duas Ruas de um Beco seguem seus rumos: Alcides pelas ruas e Rodando no site do projeto.

Pra quem ainda não sabe, Duas Ruas de um Beco é um projeto de publicação que iniciei dia 25/05. A cada duas semanas, um conto vai pras ruas e outro para o site do projeto. Acompanhe e mande sua opinião.

No ar: Duas Ruas de um Beco

Hoje dei início ao projeto DUAS RUAS DE UM BECO. Mais do que uma antologia de contos, DUAS RUAS DE UM BECO é uma proposta alternativa que rompe com o mercado editorial e alia internet e livro impresso de forma independente. Ao todo são 16 contos.  A cada duas semanas, um novo conto ganhará as ruas de diversas cidades do Brasil e, simultaneamente, o conto irmão estará em www.mauropaz.com.br/duasruas.

Juntar os 16 contos, tarefa impossível.

Mas você pode adquirir o impresso exclusivo com os 16 contos, pelo contato: paz.mauro@gmail.com

Acompanhe.

174 - Três tempos pra brilhar

Por Mauro Paz

Sentado no caixote de madeira, o menino observa a mãe registrar as compras do cliente. Frutas, verduras e diversas embalagens empoleiram-se nas estantes do pequeno mercadinho, no pé do Morro do Rato. Pessoas entram, cumprimentam, escolhem os produtos, contam as moedas e saem. O menino conhece a rotina. Sua brincadeira preferida é imitar a mãe atendendo a clientela do armazém.

Do outro lado da praça, o garoto vê a fogueira acessa e a roda formada embaixo da marquise. Junta-se ao grupo. Meninos, meninas, aproximadamente setenta menores. Falam ao mesmo tempo. O garoto só pensa em arrumar o que comer. A grana do dia virou pó. A busca por comida junto aos amigos é sem sucesso. Resta subir no telhado da banca de revista para ver, entre os prédios, o canto de céu.

A tarde é quente. No bairro chique, a multidão circula com pressa. O suor brota da pele preta do homem no ponto de ônibus. Bermuda e regata. Ele é alto, magro, os braços longilíneos têm músculos desenhados. Pela calçada, a estudante anda, confere os livros. O ônibus está atrasado. Ela esbarra no homem. Desculpa-se sem resposta.

A mãe do menino dá o troco à senhora com a sacola cheia de bananas. A senhora despede-se, sai. Silêncio no armazém. A mãe pega o menino no colo. Beija. Na rua, passos. Coloca o menino sobre a caixa de madeira. O menino levanta. Na ponta dos pés espia sobre o balcão.

Do alto da banca de revistas o garoto avista dois carros estacionando na rua lateral. As assistentes sociais que sempre trazem sopa nas noites de frio. Grita aos companheiros, “ as tia da sopa tão aí”. Pula do telhado da banca. A roda se desfaz. Acordam os que dormem. A mensagem replica-se: “as tia da sopa tão aí… as tia da sopa tão aí…”

Um, sete, quatro, no letreiro. O ônibus vem lento. A estudante dá um passo pra frente, estica o pescoço. Analfabeto, o homem apenas reconhece os números. O um, sete, quatro também é o seu ônibus. Aproximam-se do meio-fio.

Vinte e poucos anos, pele escura, cabelo raspado, bermuda e regata. Entra no armazém, olha as prateleiras. Procura por algum produto em particular. “Posso ajudar?”, pergunta a mãe. Puxando a faca das costas, anuncia, “É um assalto, dona. Não grita, que te furo”. O menino chora. A mãe entrega o dinheiro do caixa. “Quero tudo, porra. Não sacaneia que te furo, vadia”, grita o assaltante.

A molecada corre em busca de sopa. Há alguns metros para chegarem, as portas dos carros se abrem. Saltam oito homens. As máscaras de ninja vazam o ódio pelos buracos dos olhos. Os encapuzados sacam pistolas. Começa a caçada. O primeiro tiro amortece no peito de uma menina de nove anos. Os menores se dispersam. Os homens perseguem. O garoto corre. Corre. Corre mais do que as pernas podem correr.

O ônibus encosta. A estudante e o homem sobem. Quatro passageiros, agora seis. A menina passa pela roleta. Antes de o ônibus arrancar, o homem saca o trinta e oito e grita, “É nóis. Passa grana, filho da puta. Passa a grana”. Os passageiros se abaixam nos bancos. O trocador começa a tirar o dinheiro do caixa. O motorista salta do carro. O homem olha pra traz surpreso com a fuga. Vira-se, firma a arma na cabeça do cobrador.

“Não tem mais nada, moço”, grita a mãe, em histeria. O assaltante reforça, “Já falei, caralho, se achar mais grana vou te fura, vadia”. Ele passa para parte de traz do balcão e revira as cadernetas de fiado. O menino agacha-se, enquanto a mãe chora com as mãos entre o rosto, “não te mais nada. Deixa nóis em paz”. O bandido encontra o fundo falso da caixa registradora. Notas presas com atilho. “Acha que sou otário, vadia? Acha que engana?” grita o assaltante alterado. A mãe sussurra repetidamente, “Vai embora. Deixa nóis em paz”. Rasga o ventre da mãe. Junta o dinheiro e corre. Com a faca cravada, a mulher cai de joelhos. O menino aproxima-se, a abraça. “Chama alguém, meu filho. Chama a tia.”

O garoto despista os atiradores. Está a duas quadras da praça. Tiros e gritos. Carros passam. Encontra um orelhão. Pega um papel amassado do bolso e liga pra assistente social. “Tão matano a gente, tia.Os home de máscara tão dano tiro em nóis”. A mulher diz estar a caminho, pede que ele fique em lugar seguro. O garoto desliga o telefone. Esconde-se debaixo de uma caminhonete estacionada ao lado do orelhão.

“Anda rápido, com essa porra, cumpadi”, fala ao trocador. Do lado de fora do ônibus, curiosos. Chega uma viatura de polícia. Descem dois policiais. Um aproxima-se do ônibus, o outro fica junto à porta do carro, dando cobertura. “Tá veno, filho da puta, os cana chegaram. Agora já é”, pula a roleta e dá uma gravata no trocador. “Deixa eu sai, senão estoro a cabeça desse filho da puta”, grita aos policiais por uma das janelas. “Larga a arma que tudo vai ficar bem. Ninguém quer te fazer mal”, replica o policial próximo ao ônibus. O homem quer só escapar vivo. Talvez levar o tocador por algumas quadras e depois sumir entre os prédios. “Polícia é tudo filho da puta, irmão. Cês só qué dá esculacho. Não largo porra nenhuma. Deixa eu passar senão apago esse merda”.

O menino corre pela rua. Vê os carros passando. Precisa atravessar. A casa da tia fica do outro lado. Toma coragem, espera, corre. Chega à porta, “tia, mamãe tá machucada”. A mulher pega a criança no colo a corre para bar. A mãe está deitada de bruços. A tia larga o menino no chão. Aproxima-se da irmã. Vira-a. “Ela tá dormino?”, pergunta o menino. A mulher cala, chora. Pega-o no colo e leva pra casa.

Os gritos e tiros cessam. O garroto aguarda uns instantes. Sai debaixo da caminhonete. Desconfiado, caminha em direção da praça. Sirenes. Da ponta da quadra avista as ambulâncias. Aproxima-se. Muitos dos companheiros chorando. O saco preto é colocado na van branca. Em meio à confusão, a assistente social. “Tá bem, garoto?”, pergunta a mulher. Com o olhar estático, nada responde.

“Não tenho nada a perder. Não tenho mãe. Sobrevivi à chacina. Meu santo é forte, cumpadi. Deixa eu passa, filho da puta”, grita o homem da janela do coletivo. O trocador treme sentindo o cano frio tocando repetidas vezes o seu crânio. O homem agrupa os demais passageiros no banco último banco. A estudante escreve com batom no vidro: “Ele vai matar geral”. Mais duas viaturas chegam. Uma pequena multidão cerca o coletivo. Repórteres. Sem soltar do pescoço do trocador, o homem senta junto aos reféns no último banco. Respira fundo. Olha a estudante. Lembra da vida que não teve. Solta o trocador. Puxa a estudante, dá a gravata. Pela janela, grita: “Se não deixar eu passar, vou matar essa daqui. Vai ser no dez”. Caminha com a garota pelo corredor do ônibus em contagem regressiva. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três…

A Comerciante Maria Rosa de Oliveira foi morta a facadas, na tarde de ontem, enquanto atendia seu armazém na subida do Moro do Rato. A polícia acredita que Maria Rosa tenha sido atingida por reagir a um provável assalto. No entanto, são apenas especulações. Os investigadores esperam esclarecer maiores detalhes sobre o ocorrido assim que encontrarem o filho da comerciante, única testemunha do crime. Com apenas seis anos, o menino – desaparecido desde as dezessete horas de ontem - foi deixado em casa pela tia, que saíra para cuidar da remoção do corpo.

“Estamos aqui na décima terceira DP, onde estão sendo ouvidos os sobreviventes da chacina ocorrida há poucas horas no centro da cidade. Oito crianças foram assassinadas friamente por atiradores não identificados…”. Lentes de câmeras. O garoto precisa sair dali. “O que vai ser de nóis, tia? Vão prende?”, pergunta a assistente social. “Não. Pode ir, já te interrogaram”. Cabos, luzes. Policiais armados. Choro. O garoto sai quieto, em meio bagunça da DP. Precisa achar um canto pra dormir.

“… após a tentativa de assalto mal sucedida a um ônibus da linha 174, o homem, de vinte e poucos anos e de nome ainda desconhecido, fez o trocador e cinco passageiros de reféns. A negociação foi tensa. Quando todos acreditavam que a situação se estenderia por horas, o seqüestrador surpreendeu a todos ao descer do ônibus usando a estudante Marcela Silva como escudo. Na tentativa de neutralizá-lo, um policial, de nome não divulgado pelo Batalhão de Operações Especiais, alvejou a estudante, que foi removida já sem vida para o Pronto Socorro da cidade. Encaminhado para a DP o assaltante foi acidentalmente morto. Segundo relato dos policiais que o escoltavam, tiveram que usar de muita forma para imobilizá-lo devido à grande agitação. O que ocasionou a morte não intencional do bandido…”

Dois contos

Faz tempo que não posto nenhum conto no blog. Porém, não parei de escrever. Estou trabalhando numa série nova. Dois contos dessa nova série foram publicados semana passada pelo site Cronópios e pela editora Mojo Books. Além dos meus contos, os sites contam com conteúdo de primeira. Vale ler.

Conto Societé Générale - Cronópios
Primeiro Andar - Mojo Books