A outra me deixou

E a dois palmos acima do chão
o vento coça-me a sola do pé
Setas de fogo indicam o caminho inverso
Onde ficava a casa, o rio passou

Você podia até deslizar sobre o asfalto comigo,
se as imagens te tomassem
com folhas de  macieira,
Fruta mordida
e rastro de cobra

Porém tua sombra é dura
prefere o caminho da  selva

Volta, Lilith
E a gente conta outra história
sem bichos falantes

Só mais um sem carro

Cidade, você que foi sustem de João
Hoje, só ouve o walkerman emundecer
Dissonante
Grito de feira
Minuto só
Toque de celular
Esquina inédita, em cada olhar
Sombra partida
De onde ainda canta o sabia

Insônia

A lua dora a figueira lá depois da Estiva
O gado dorme
O minuano canta a antiga canção guarani
Cavalo a trote
Cheiro de bosta e orvalho
Vida à frente
Campo que toca céu pra todo o lado
É campo de invernada,
contrabando,
risco de facão
É tanto campo que me perde pelo Pampa
É tanto Pampa que se perde em mim
Perdido gauche por capitais

* Mais um poema da série Preciso-parar-de-escrever-no-ônibus

Reparação

Feche a porta pra ninguém ver
Os teus braços tão marcados
Cacos perto da TV

Feche os olhos e tente ir
Lá pro alto da floresta
Onde tudo começou

Eu também não sei
Por onde o encontrar
Quais pegadas seguir
O estranho passou

E não importa
teus cabelos espalhados pelo chão
roupa rasgada, sangue
porta arrombada e o chupão

Eu também não sei
Por onde o encontrar
Quais pegadas seguir
O estranho passou
Deus eu quero sumir

*Reparação é a letra de uma música que fiz para a Banda Clint. Confira o mp3 tosco que coloquei no myspace.

O muro descalçou um rio

Nem a gana dos galhos
Nem o salto do grilo
Nem ondas laranjas
Nem passos compridos

Do outro lado, só chances perdidas
E um passaporte
Mas, sem horizonte,
O sol não vai decolar

Chove.
E, lá fora, o pai vaga descalço
No asfalto, que nem mais vaca dá

Desenho o furo do muro
Cabeças bóiam
E repetem sem parar
Bem-vindo, aqui é teu não-lugar

Desabafo

Nada vale a pena
Pena só pena dá
O ensaio do hoje é por não ter nada
Então, vamos de novo
E, dessa vez, faz bem feito
Não há do que reclamar

Duelo Fail

Praça, bancos, olhos, sei
As folhas murchas, lei
Cores de outono ao longe
E sob meus sapatos
O rio de esponjas se abriu

Damas, noite, copos, seis
Cartas, fumaça, reis
Trinca de Ases, sobras de outro baralho
E alguém viu

Fotos da viagem
Notícias breves
A vida toda cabe num trem
Partiu

Letra de música que escrevi para a Banda da Clint, extinta Device.
Essas e outras gravações toscas, clique aqui.

Fio do bigode

Quadrado, essa noite, o mundo se parte
Janelas batem. E trancados a gente vai ter que mudar
Mesmo que um beijo cale meus olhos
Mesmo que as horas ceguem o peito
Mesmo que rebente o barco das pedras
Mesmo que nem mesmo sejamos nós mesmos
E lá fora guarda-chuvas caiam
E mamutes rasguem flores
E o deserto engula todas as ilhas
Esses outros vão ter que mudar
Deixe verter, rolar, roubar
Eu também sei quase nada daqui
E com tuas pernas tão longas o céu vai ter que mudar

Escrevi hoje no ônibus. Achei melhor postar logo pra me livrar. Odeio meus poemas.

Floresta de Esmeraldas

Não nega que sou
Não nega que tem asas cobertas
Por penas de falcão

Não nega que vou
Não nega que o mar escorre solto
Nas fendas da tua mão

Palavras, roupas, portas,
todas querendo o real
Na sala, a velha rouca
chora as flores de um funeral

Tuas sombras da caverna
Mantém nossa conversa
Mais além, o tempo mais além

Os teus olhos derretidos
Contêm os comprimidos cor do sol,
o brilho cor dum anzol
partido lá na casa onde
a ideia quer pescar.

Letra de uma música que escrevi por esses dias.
Caso queira escutar está com outras gravações toscas aqui.

Poética Sincrônica

A partir de hoje, postarei comentários sobre alguns textos teóricos que estou lendo. Para começar, o artigo Poética Sincrônica, de Haroldo de Campos, que compõe o livro A arte no horizonte provável.

Segundo Haroldo, existem dois critérios para abordar o texto literário. O critério diacrônico analisa os fatos históricos, sociológicos, aceitando a média evolutiva da tradição. Enquanto, o critério sincrônico observa questões estético-criativas. Dentro dessa dialogia, não há dúvidas de que o trabalho da crítica diacrônica é fundamental para estabelecer limites na produção literária. Porém, o olhar sincrônico, pouco utilizado entre os críticos, retifica julgamentos equivocados e classifica as obras pelo seu valor criativo.

Partindo de uma análise sincrônica, Haroldo sugere a composição de uma Antologia da Poesia Brasileira de Invenção, na qual sejam incluídos autores de contribuição definitiva para a renovação de formas na poesia brasileira entre a fase colonial e o modernismo. Nesse trabalho, seriam consideradas obras esquecidas como: as traduções criativas de Gregório de Matos para Quevedo e Gongora; a invenção de ritmos de Sousa Caldas em suas cartas; o pioneirismo de Odorico Mendes em invenções vocabulares que serviriam de base para Guimarães Rosa e a tradução de Ulysses por Antônio Houaiss; a poesia burlesca de Bernardo Guimarães que dão os primeiros passos de surrealismo no país.

Acredito que a composição de tal antologia seja fundamental para desconstruir o cânone baseado em modelos europeus. Pois apenas com essa desconstrução os verdadeiros criativos da literatura brasileira serão reconhecidos.

Parada

Apollinaire na janela em Paris
O parque, a figueira, o menino de bicicleta
Pedala como se corta cana
Pedala como se toca violino
Pedala como se folha um livro

Página 5: na avenida Paulista
A banca, a antena, Apollinaire
Bebe como se joga damas
Bebe como se compra flores
Bebe como se disca um número

Alô, a guria está no banco à minha frente
A mochila, a mala, o violão
Toca como se semeia trigo
Toca como se esmaga inseto
Toca como se pilota avião

Go to Porto Alegre. Temperatura prevista vinte e cinco graus
A asa, a brasa, o lampião
Brilha como se toca gado
Brilha como se rouba beijo
Brilha como se passa fax

Apollinaire, cheguei
E aonde o mundo foi parar

Fuga Casa Verde

Não olha assim
porque cheguei.
Queria que eu
deixasse a vida inteira adoecer?

O quarto torto,
o pé no chão,
a lua, o claro,
num canto, o vão.

Vozes trancando
o lamento dos hospedes.

Remédios pesados demais
forçam a entender.
O pano tosco
travando os braços pra trás
Nas salas, jalecos, doutores,
café com jornais.

Tentei fugir,
mais de uma vez,
mas sempre
enfermeiros grisalhos
fizeram eu descer.

O muro. A um salto,
a rua, um não.
A escada, o golpe,
o choque são.

Retrato obsceno
tirado com força e dor.

Às vezes restava só acreditar.
Em casa, sozinha, você a esperar,
guardando as palavras certas pra dizer:
Meu bem, você sempre tão desacostumado.

Confira a música em www.myspace.com/mauropazsong

Gancho Fim

Os homens gritam fazem festa
E eu aqui nesse porão
Ouvindo os ratos
Roer meu nome

Lá fora rola rum
em meio aos tiros de canhão
E a carne ferve
Solta os ossos

Hoje era para ser o dia mais feliz
Mas eu não posso
Não consigo encarar

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
E foi tão fácil

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
O que eu faço?

Na ilha, as fadas voam
Levam o corpo do menino
Segue o cortejo

Não, não pode ser tão tarde
Com tanta claridade
Eu deixei de existir

São dois meios que se abrem
Repartem a cara e caem
No estrondo que ele foi
Eu me fui

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
E foi tão fácil

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
O que eu faço?

Agora o motim é eminente
Os homens só esperam eu levantar

Na prancha, a venda, o vento, o corpo
O crocodilo, um poço, não vai regurgitar

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
O que me resta
É deixar me levar

Escute em http://www.myspace.com/mauropazsong

Arremate

Cacos perto de mim
Cacos que eu posso ver
O meu rosto no muro fitando um estranho
O meu gosto obscuro filmando teu banho
E na sala uma cena tão kit

Nos esperam descer
Todos em seus lugares
Com as placas na mão
Mostrando cinco, quinze, seu leilão
Mostrando vinte, trinta, um milhão
Mostrando sonhos velhos, ilusão
Mostrando frente a frente a contramão
Mas nessa tarde eu não vou trabalhar

Não vou,
porque não
Que hoje tem filme bom na TV

Escute em http://www.myspace.com/mauropazsong

Garotos Perdidos

Por Mauro Paz

Há dez dias só chove na Terra do Nunca
Meu deus, nunca vi uma coisa assim
Há dez dias não ponho o pé na rua
Não saio pra me divertir

Os garotos nunca usam guarda-chuvas
Ficam esperando a calçada secar

Há dez dias que eu só cuido o espelho
E ouso pingos a repetir:
Venha agora, aproveite
Compre a moça, dance, deite
Não deixe a chuva passar
Tenha tudo novo hoje
Pegue, pague no horizonte
Coisas que não pode comprar

As pobres fadas queimaram suas asas
A raiva da chuva não é de ninguém

Por isso, perco meu tempo fácil
Enquanto o pátio só faz encher
Por isso, o medo me manda raios
E o crocodilo não vai morrer

A outra me deixou

E a dois palmos acima do chão
o vento coça-me a sola do pé
Setas de fogo indicam o caminho inverso
Onde ficava a casa, o rio passou

Você podia até deslizar sobre o asfalto comigo,
se as imagens te tomassem
com folhas de  macieira,
Fruta mordida
e rastro de cobra

Porém tua sombra é dura
prefere o caminho da  selva

Volta, Lilith
E a gente conta outra história
sem bichos falantes

Só mais um sem carro

Cidade, você que foi sustem de João
Hoje, só ouve o walkerman emundecer
Dissonante
Grito de feira
Minuto só
Toque de celular
Esquina inédita, em cada olhar
Sombra partida
De onde ainda canta o sabia

Insônia

A lua dora a figueira lá depois da Estiva
O gado dorme
O minuano canta a antiga canção guarani
Cavalo a trote
Cheiro de bosta e orvalho
Vida à frente
Campo que toca céu pra todo o lado
É campo de invernada,
contrabando,
risco de facão
É tanto campo que me perde pelo Pampa
É tanto Pampa que se perde em mim
Perdido gauche por capitais

* Mais um poema da série Preciso-parar-de-escrever-no-ônibus

Reparação

Feche a porta pra ninguém ver
Os teus braços tão marcados
Cacos perto da TV

Feche os olhos e tente ir
Lá pro alto da floresta
Onde tudo começou

Eu também não sei
Por onde o encontrar
Quais pegadas seguir
O estranho passou

E não importa
teus cabelos espalhados pelo chão
roupa rasgada, sangue
porta arrombada e o chupão

Eu também não sei
Por onde o encontrar
Quais pegadas seguir
O estranho passou
Deus eu quero sumir

*Reparação é a letra de uma música que fiz para a Banda Clint. Confira o mp3 tosco que coloquei no myspace.

O muro descalçou um rio

Nem a gana dos galhos
Nem o salto do grilo
Nem ondas laranjas
Nem passos compridos

Do outro lado, só chances perdidas
E um passaporte
Mas, sem horizonte,
O sol não vai decolar

Chove.
E, lá fora, o pai vaga descalço
No asfalto, que nem mais vaca dá

Desenho o furo do muro
Cabeças bóiam
E repetem sem parar
Bem-vindo, aqui é teu não-lugar

Desabafo

Nada vale a pena
Pena só pena dá
O ensaio do hoje é por não ter nada
Então, vamos de novo
E, dessa vez, faz bem feito
Não há do que reclamar

Duelo Fail

Praça, bancos, olhos, sei
As folhas murchas, lei
Cores de outono ao longe
E sob meus sapatos
O rio de esponjas se abriu

Damas, noite, copos, seis
Cartas, fumaça, reis
Trinca de Ases, sobras de outro baralho
E alguém viu

Fotos da viagem
Notícias breves
A vida toda cabe num trem
Partiu

Letra de música que escrevi para a Banda da Clint, extinta Device.
Essas e outras gravações toscas, clique aqui.

Fio do bigode

Quadrado, essa noite, o mundo se parte
Janelas batem. E trancados a gente vai ter que mudar
Mesmo que um beijo cale meus olhos
Mesmo que as horas ceguem o peito
Mesmo que rebente o barco das pedras
Mesmo que nem mesmo sejamos nós mesmos
E lá fora guarda-chuvas caiam
E mamutes rasguem flores
E o deserto engula todas as ilhas
Esses outros vão ter que mudar
Deixe verter, rolar, roubar
Eu também sei quase nada daqui
E com tuas pernas tão longas o céu vai ter que mudar

Escrevi hoje no ônibus. Achei melhor postar logo pra me livrar. Odeio meus poemas.

Floresta de Esmeraldas

Não nega que sou
Não nega que tem asas cobertas
Por penas de falcão

Não nega que vou
Não nega que o mar escorre solto
Nas fendas da tua mão

Palavras, roupas, portas,
todas querendo o real
Na sala, a velha rouca
chora as flores de um funeral

Tuas sombras da caverna
Mantém nossa conversa
Mais além, o tempo mais além

Os teus olhos derretidos
Contêm os comprimidos cor do sol,
o brilho cor dum anzol
partido lá na casa onde
a ideia quer pescar.

Letra de uma música que escrevi por esses dias.
Caso queira escutar está com outras gravações toscas aqui.

Poética Sincrônica

A partir de hoje, postarei comentários sobre alguns textos teóricos que estou lendo. Para começar, o artigo Poética Sincrônica, de Haroldo de Campos, que compõe o livro A arte no horizonte provável.

Segundo Haroldo, existem dois critérios para abordar o texto literário. O critério diacrônico analisa os fatos históricos, sociológicos, aceitando a média evolutiva da tradição. Enquanto, o critério sincrônico observa questões estético-criativas. Dentro dessa dialogia, não há dúvidas de que o trabalho da crítica diacrônica é fundamental para estabelecer limites na produção literária. Porém, o olhar sincrônico, pouco utilizado entre os críticos, retifica julgamentos equivocados e classifica as obras pelo seu valor criativo.

Partindo de uma análise sincrônica, Haroldo sugere a composição de uma Antologia da Poesia Brasileira de Invenção, na qual sejam incluídos autores de contribuição definitiva para a renovação de formas na poesia brasileira entre a fase colonial e o modernismo. Nesse trabalho, seriam consideradas obras esquecidas como: as traduções criativas de Gregório de Matos para Quevedo e Gongora; a invenção de ritmos de Sousa Caldas em suas cartas; o pioneirismo de Odorico Mendes em invenções vocabulares que serviriam de base para Guimarães Rosa e a tradução de Ulysses por Antônio Houaiss; a poesia burlesca de Bernardo Guimarães que dão os primeiros passos de surrealismo no país.

Acredito que a composição de tal antologia seja fundamental para desconstruir o cânone baseado em modelos europeus. Pois apenas com essa desconstrução os verdadeiros criativos da literatura brasileira serão reconhecidos.

Parada

Apollinaire na janela em Paris
O parque, a figueira, o menino de bicicleta
Pedala como se corta cana
Pedala como se toca violino
Pedala como se folha um livro

Página 5: na avenida Paulista
A banca, a antena, Apollinaire
Bebe como se joga damas
Bebe como se compra flores
Bebe como se disca um número

Alô, a guria está no banco à minha frente
A mochila, a mala, o violão
Toca como se semeia trigo
Toca como se esmaga inseto
Toca como se pilota avião

Go to Porto Alegre. Temperatura prevista vinte e cinco graus
A asa, a brasa, o lampião
Brilha como se toca gado
Brilha como se rouba beijo
Brilha como se passa fax

Apollinaire, cheguei
E aonde o mundo foi parar

Fuga Casa Verde

Não olha assim
porque cheguei.
Queria que eu
deixasse a vida inteira adoecer?

O quarto torto,
o pé no chão,
a lua, o claro,
num canto, o vão.

Vozes trancando
o lamento dos hospedes.

Remédios pesados demais
forçam a entender.
O pano tosco
travando os braços pra trás
Nas salas, jalecos, doutores,
café com jornais.

Tentei fugir,
mais de uma vez,
mas sempre
enfermeiros grisalhos
fizeram eu descer.

O muro. A um salto,
a rua, um não.
A escada, o golpe,
o choque são.

Retrato obsceno
tirado com força e dor.

Às vezes restava só acreditar.
Em casa, sozinha, você a esperar,
guardando as palavras certas pra dizer:
Meu bem, você sempre tão desacostumado.

Confira a música em www.myspace.com/mauropazsong

Gancho Fim

Os homens gritam fazem festa
E eu aqui nesse porão
Ouvindo os ratos
Roer meu nome

Lá fora rola rum
em meio aos tiros de canhão
E a carne ferve
Solta os ossos

Hoje era para ser o dia mais feliz
Mas eu não posso
Não consigo encarar

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
E foi tão fácil

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
O que eu faço?

Na ilha, as fadas voam
Levam o corpo do menino
Segue o cortejo

Não, não pode ser tão tarde
Com tanta claridade
Eu deixei de existir

São dois meios que se abrem
Repartem a cara e caem
No estrondo que ele foi
Eu me fui

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
E foi tão fácil

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
O que eu faço?

Agora o motim é eminente
Os homens só esperam eu levantar

Na prancha, a venda, o vento, o corpo
O crocodilo, um poço, não vai regurgitar

Eu matei Peter Pan
Eu matei Peter Pan
O que me resta
É deixar me levar

Escute em http://www.myspace.com/mauropazsong

Arremate

Cacos perto de mim
Cacos que eu posso ver
O meu rosto no muro fitando um estranho
O meu gosto obscuro filmando teu banho
E na sala uma cena tão kit

Nos esperam descer
Todos em seus lugares
Com as placas na mão
Mostrando cinco, quinze, seu leilão
Mostrando vinte, trinta, um milhão
Mostrando sonhos velhos, ilusão
Mostrando frente a frente a contramão
Mas nessa tarde eu não vou trabalhar

Não vou,
porque não
Que hoje tem filme bom na TV

Escute em http://www.myspace.com/mauropazsong

Garotos Perdidos

Por Mauro Paz

Há dez dias só chove na Terra do Nunca
Meu deus, nunca vi uma coisa assim
Há dez dias não ponho o pé na rua
Não saio pra me divertir

Os garotos nunca usam guarda-chuvas
Ficam esperando a calçada secar

Há dez dias que eu só cuido o espelho
E ouso pingos a repetir:
Venha agora, aproveite
Compre a moça, dance, deite
Não deixe a chuva passar
Tenha tudo novo hoje
Pegue, pague no horizonte
Coisas que não pode comprar

As pobres fadas queimaram suas asas
A raiva da chuva não é de ninguém

Por isso, perco meu tempo fácil
Enquanto o pátio só faz encher
Por isso, o medo me manda raios
E o crocodilo não vai morrer