Desabafo
Nada vale a pena
Pena só pena dá
O ensaio do hoje é por não ter nada
Então, vamos de novo
E, dessa vez, faz bem feito
Não há do que reclamar
Nada vale a pena
Pena só pena dá
O ensaio do hoje é por não ter nada
Então, vamos de novo
E, dessa vez, faz bem feito
Não há do que reclamar
Valeu a pena ficar acordado até tarde. Era quase duas da manhã quando Nanni Rios postou no twitter o link do vídeo abaixo no qual Henry Jenkins, teórico da mídia, fala sobre as transformações que a mídia participava está promovendo. Vale cada segundo. Amanhã pretendo escrever sobre.
Se você nasceu antes de 1990, provavelmente sabe do que estou falando. A rede mudou a forma como seu pai lê notícias, você escuta música e sua mãe compra um liquidificador. Informação que leva a informação num infinito redemoinho que não se limita à internet. Logo teremos a interatividade da televisão digital, aplicativos mais complexos para celular e outras coisitas.
No entanto, desde 2006, quando assisti a uma palestra de Ivan Isquierdo, penso não só na força da informação, mas nas formas com que nosso cérebro constrói as ligações da memória. Esquecemos momentos determinantes da nossas vidas e lembramos de coisas que nunca aconteceram, mas de alguma forma as colocamos lá guardadinhas, como num álbum de fotografias. O balanço entre todas essas lembranças e esquecimentos é que nos torna indivíduos no sentido mais pleno da palavra. Parece óbvio, mas imagine-se sem as memórias dos últimos 15 anos. De quem seriam todos aqueles nomes na agenda do teu celular? Ou aquele cachorro no porta-retratos? Ou por que você tem uma cicatriz no cotovelo, mesmo? Complicado, né?
A cada ano, estudos confirmam a capacidade absurda do cérebro humano em reter e conectar informações. Agora imagine uma pílula que multiplique esse potencial por dez. Certamente teus problemas de lembrar o motivo do feriado de 15 de novembro acabariam, assim como você nunca se esqueceria de como resolver um logaritmo ou de como distribuir os elétrons no diagrama de Pauling. Bacana, não? Então vamos mais longe. Que tal se você não precisasse perder anos e anos na escola e todas as informações técnicas fossem instaladas na sua cabeça, através de um chip, da mesma forma que um sistema operacional, como o Windows? Ok, Windows, não. Então como o Mac OS X. Em contra partida, suas memórias fossem parar num grande servidor como o do Google. Imaginou? Enquanto hoje você busca jpg’s de cavalos, buscaria lembranças de cavalos com imagens em movimento, sons e sentimentos relacionados à situação. Maravilhoso, né? Também acho. E há muitos cientistas trabalhando para que isso se torne realidade.
Porém, há um probleminha. Como comentei, as memórias são a única coisa que confirmam que você é você, fora essa embalagem meio desgastada que te leva de um lado e pro outro. Compartilhando as memórias o indivíduo passa a ser coletivo. Aí esquece aquela tua ilusão de ser especial. Tudo que você souber, os demais saberão. Não sei se esse fim da individualidade é bom ou ruim, mas uma coisa é certa a: a próxima grande revolução produtiva será a da memória. Lembre-se disso. Caso tenha interesse no assunto, a Super Interessante e a Rolling Stone desse mês trazem ótimas matérias. Confira também o poema Virtuoconcretizado que escrevi há uns anos e animei em março.
Semana passada recebi a divulgação da II Jornada de Literatura e outras linguagens. O Evento rolou na PUCSP, e não pude deixar de ir. Quatro painéis compunham a programação: Literatura x Teatro, Literatura x Ensino, Literatura x tradução e Literatura x Artes Plásticas. De todos, o que mais chamou atenção foi Literatura x Ensino, apresentado pelo Dr. Emerson de Pietri (UNICAMP). Em sua pesquisa, Emerson trata da forma com que os livros didáticos apresentam os textos literários. Como ele demonstrou, diversos livros recortam trechos importantes de poemas e apresentam apenas momentos secundários de clássicos da prosa.
Concordo com Emerson sobre as más escolhas editorias para a composição dos livros didáticos. No entanto, acredito que o conceito de ensino de literatura está errado na sua totalidade. O acesso da população geral à literatura é recente, data do romantismo (século XIX), pouco mais de duzentos anos. O cinema completa cem anos e nunca se discutiu dar aulas de cinema nas escolas. E as pessoas continuam assistindo apenas os blockbusters. Imagine você na sétima série obrigado a ver Terra em Transe do Glauber Rocha. Provavelmente, acharia tão chato quanto ler Iracema com essa mesma idade.
Amo a literatura. Porém, não foi o medíocre panorama da história literária que vi na escola que me fez apaixonar. Ler - assim como assistir um filme, ir a uma exposição de artes plásticas ou peça de teatro - é um processo de sensibilidade que deve ser desenvolvido gradualmente, não forçado goela abaixo. A literatura que é apresentada nas escolas só tem um objetivo: formar o aluno para o vestibular, para que tenha uma profissão e seja um consumidor. E, na maioria dos casos, o livro não estará na lista de compras.
É importante que um adolescente saiba que José de Alencar inventou o imaginário da nação brasileira com sua literatura? Sim é. Mais importante, porém, é que ele seja um ser humano capaz de se comover lendo a morte da cachorra Baleia, assim como se comoveu vendo a morte de Mufasa, pai do Rei Leão.
Trecho da Morte da Baleia - (Vidas Secas/Graciliano Ramos)
“A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
— Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinha Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
— Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
…
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco-, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, sinha Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova arredada Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.
Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.
Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar, as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinha Vitória guardava o cachimbo.”
Morte de Mufasa
Na última sexta-feira, o Portal Artistas Gaúchos completou um ano de existência. Iniciativa do escritor Marcelo Spalding, o site reúne artistas de diversas áreas, promove debates e informa sobre editais públicos, concurso e demais notícias relacionadas à produção cultural.
Nessa nova fase do site novos colunistas, entre eles eu, foram incorporados.
O site está de parabéns, não só pelo aniversário, mas por ter se tornado ponto de convergência para os artistas ao sul.
Visite e confira minha primeira coluna.
http://www.artistasgauchos.com.br/
Certas pessoas me impressionam por tamanha lucidez. Nessa segunda-feira, Saramago declarou, na coletiva de lançamento do filme Ensaio sobre a cegueira em Portugal, que Marx nunca teve tanta razão. “Onde estava todo esse dinheiro (desbloqueado para resgatar os bancos)? Estava muito bem guardado. Logo apareceu, de repente, para salvar o quê? Vidas? Não, os bancos”.
Não posso pensar a crise sem considerar que o capitalismo é fluxo. Fluxo que emprega, consome e acumula nas grandes corporações que justificam o lucro como reinvestimento. Porém, até onde se justifica atitudes como essa.
Passando por um frontligth da Coca-cola achei a estática muito próxima da moda dos anos 80. Por certo, essa referência não é uma exclusividade da Coca-cola. Os 80 estão em todos os lugares. No entando, fiquei pensando naos motivos pelo qual essas referências estão tão em alta.
Atualmente, a geração que nasceu e viveu os oitenta tem a vez. Estão todos com seus vinte ou trinta e poucos anos. Poderia deduzir que se trata apenas uma forma de reviver aquele tempo saudoso e ninguém tinha responsabilidade nenhuma e mesmo em meio ao segundo maior momento de inflação que nosso país já atravessou éramos felizes com nossa inocência irresponsável.
Porém, não acredito que se resuma a isso. Revendo o clipe da Take on Me dos guris do A-Ha, percebi o quanto os 80 simbolizaram um ideal de rebeldia, sexo, falta de propósito, consumo e violência gratuita (vide o clipe de Black or White no começo dos 90).
Acredito que somos uma caricatura dos 80. E como boa caricatura, ampliamos exageradamente os principais traços.
O Senador Marcelo Crivela, pastor e político, está prestes a aprovar, no Senado Federal, uma emenda à Lei Rouanet que permite a construção, reforma de templos religiosos e pagamento de “pastores” com renúncia fiscal, passando a disputar verbas com a cultura.
O argumento de Crivela é que os templos ao patrimônio histórico. No entanto, a Rouanet já atendia restaurações de igrejas históricas. Construção de templos não deveriam sair do bolso do contribuinte. Não basta que trabalhemos quatro meses por ano para pagar impostos, agora teremos que contribuir indiretamente com dizimo para construção de templos.
Quem for contra e quiser se manifestar, assine a petição no site abaixo. Vamos lutar para manter as poucas verbas para as artes e a cultura brasileira contra sanha por dinheiro
de alguns “pastores”. E repasse a informação a seus amigos gerando uma corrente na qual preservaremos a cultura e as Artes no Brasil.
Para assinar clique em http://www.petitiononline.com/cult2007/petition.html
Você tem ideia do que a reforma significa? Pois é, ideia mesmo. Você estudos anos da sua vida, a sôra da quarta série penou para te explicar as regras de acentuação e agora catapimba, uma bela baianada na nossa língua.
Tenho pena das pobres crianças alfabetizadas até 2010, ano em que a reforma chegará às escolas. Imagino que o MEC disponibilizará um upgrade, em seu site, para que as professoras instalem na cabeça dos alunos e substitua o que lhes foi ensinado sobre acentos, hífen e alfabeto.
CONFIRA AS MUDANÇAS:
HÍFEN
Não se usará mais:
1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em “antirreligioso”, “antissemita”, “contrarregra”, “infrassom”. Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, “hiper-”, “inter-” e “super-”- como em “hiper-requintado”, “inter-resistente” e “super-revista”
2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: “extraescolar”, “aeroespacial”, “autoestrada”
TREMA
Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados
ACENTO DIFERENCIAL
Não se usará mais para diferenciar:
1. “pára” (flexão do verbo parar) de “para” (preposição)
2. “péla” (flexão do verbo pelar) de “pela” (combinação da preposição com o artigo)
3. “pólo” (substantivo) de “polo” (combinação antiga e popular de “por” e “lo”)
4. “pélo” (flexão do verbo pelar), “pêlo” (substantivo) e “pelo” (combinação da preposição com o artigo)
5. “pêra” (substantivo - fruta), “péra” (substantivo arcaico - pedra) e “pera” (preposição arcaica)
ALFABETO
Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras “k”, “w” e “y”
ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usará mais:
1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos “crer”, “dar”, “ler”, “ver” e seus derivados. A grafia correta será “creem”, “deem”, “leem” e “veem”
2. em palavras terminados em hiato “oo”, como “enjôo” ou “vôo” -que se tornam “enjoo” e “voo”
ACENTO AGUDO
Não se usará mais:
1. nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas, como “assembléia”, “idéia”, “heróica” e “jibóia”
2. nas palavras paroxítonas, com “i” e “u” tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: “feiúra” e “baiúca” passam a ser grafadas “feiura” e “baiuca”
3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com “u” tônico precedido de “g” ou “q” e seguido de “e” ou “i”. Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem
GRAFIA
No português lusitano:
1. desaparecerão o “c” e o “p” de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como “acção”, “acto”, “adopção”, “óptimo” -que se tornam “ação”, “ato”, “adoção” e “ótimo”
2. será eliminado o “h” de palavras como “herva” e “húmido”, que serão grafadas como no Brasil -”erva” e “úmido”
Hoje escreveria sobre os ataques de onze de setembro, porém não faltarão comentários sobre a data. Não que eu despreze o impacto que geraram aqueles aviões, mas o terrorismo local sempre me impressiona mais.
Chego ao trabalho, confiro os e-mails e leio algumas notícias. Eis que um colega chama: Olha o Taz na Zero Hora. Taz é o nome “carinhoso“ dado a um mendigo que mora, com sua companheira, a beira do muro do Grêmio Naútico União, na Av. 24 de outubro. A foto no caderno ZH Moinhos, que circula apenas no bairro, estava junto à duas cartas comentando a inconveniência daquele “casal de mendigos que fedem mais que qualquer animal“.
Numa das cartas, o engenheiro e “antropólogo“ José Luiz Albuquerque explica: “É muito bonito pensar que as pessoas têm pena da miséria deles. Ocorre que vivem daquele modo por opção, pois, não querem se submeter às regras dos albergues que tentam recolhê-los.“.
OPÇÃO? No subtexto desse ilustre cidadão, está dito “Eles perderam. Não tiveram as oportunidades que eu e os outros membros da sociedade civilizada tivemos. O melhor a fazer é serem recolhidos como bosta, como latinhas vazias, como um animal atropelado.“
A outra carta, do advogado e “sociólogo“ Solon Mota e Silva, diz que trata-se de um caso de polícia: “o senhor barbudo, agride mulheres e homens e anda sempre bêbado e dando espetáculo, dizendo palavras chulas“. Nunca presenciei nenhuma agressão. E quanto a andar bêbado e dando espetáculo, é apenas mais uma OPÇÃO de um homem que poderia estar servindo à sociedade, mas optou por rir.
No entanto, o que incomoda os moradores do bairro Moinhos de Ventos, não é o casal ter optado por estar sempre bêbado, nem ter optado por viver como animais, tampouco ter optado por morar à margem de um muro. O problema é o casal ter optado por AQUELE muro. O muro de um clube “respeitável como o União“, um muro numa das avenidas mais “chics“ de Porto Alegre. O problema é ter optado por estar aos olhos de pessoas vencedoras que não precisam ver aquela merda, pois suas vidas são merdas cheirosas. O problema é Taz e sua companheira não estarem na periferia, para onde certamente pessoas como José e Solon destinariam suas roupas velhas que iriam para o lixo.
Gostaria de propor ao “antropólogo“ José Luiz Albuquerque, ao “sociólogo“ Solon Mota e Silva e a editora do caderno ZH Moinhos que optem por um lindo final de semana nas excelentes instalações dos Albergues Públicos de Porto Alegre.
Dias desses, vindo para o trabalho fiz um poema que publiquei no Velho Pituca. Republico aqui:
João Cabral pelo Moinhos
A pedra da calçada é dura,
dura como latão,
dura como o frio da grade,
da margem e do portão.
A noite, ela ainda é quente
de passos que vem e vão
castigam a pedra imóvel
cansada, de pé no chão.
Os passos, sempre apressados,
calçados, não olham, são
distantes da pedra-rua
do outro lado do portão.
Porém, toda pedra parte,
descasca, lasca, destoa
mira com dedo a vidraça
faz trato com o braço e voa.