Peça em um ato inspirada no conto homônimo de Rubem Fonseca.
Personagens:
Pai
Mãe
Gabriel – garoto
Alice – professora
Lacerda – inspetor da secretaria de educação
CENA I
(Sala de estar. Meia Luz. Lacerda e Gabriel sentados ao fundo. Pai à frente do palco anda de um lado para o outro. Foco de luz direcionado no Pai. Olha o relógio.)
Pai – (para o público) É, as coisas estão mudadas. Hoje em dia, em tudo se vê maldade.
(Continua caminhando.)
Pai – (para o público) Que mal uma mulher pode fazer a um menino de quatorze anos? Imaginem se na minha época aconteceria uma coisa dessas.
(Pára no centro do palco.)
Pai – (para o público) Vocês não sabem do que estou falando, mas fiquem tranqüilos. (apontando para Larceda e Gabriel ao fundo) Pelo jeito, aqueles dois vão demorar. Terei tempo de contar tim-tim por tim-tim.
(Meia luz. Saem Larceda e Gabriel.)
Cena II
(Na escola, sentados à mesa, Alice, Pai e Mãe.)
Alice - Estão de parabéns, Gabriel é um ótimo menino.
(Pais sorriem agradecidos.)
Alice – É o caçula?
Pai – É o único.
Alice – Então, deve ser o xodó da casa.
Mãe – Tomamos cuidado para não mimá-lo demais. Há quem diga que a gagueira é devida a uma superproteção.
Alice – Bobagem. Com o tempo passa. Apesar da gagueira, aqui na escola, ele é muito sociável. Nunca se mete em confusão. Relaciona-se bem com os colegas e, principalmente, com as colegas. Daqui uns dois anos, preparem-se para fila de meninas desesperadas batendo na porta à procura do Gabriel.
(Pai ri.)
Mãe (séria) – E os estudos?
Alice – Esse foi o motivo pelo qual chamei os senhores aqui. O Gabriel está bem em quase todas as matérias, com exceção de língua portuguesa.
(Mãe sacode a cabeça em desaprovação. Pai arruma-se na cadeira.)
Alice – Sei que não devo me meter em questões fora da escola, mas acho que deveriam procurar um professor particular.
Pai – Pode ser uma boa solução.
Mãe (para o marido) – Com certeza é, mas… (para a professora) A senhora já deve ter percebido, não temos tanto dinheiro quanto as outras famílias da escola. Fazemos um esforço grande para mantê-lo numa escola particular.
Alice – Nesse caso, eu poderia ajudar.
Mãe – Jamais aceitaria. A senhora já faz muito por ele aqui na escola.
Alice – Não seria incomodo. É um bom menino. Precisa apenas só de um empurrãozinho.
Pai (para esposa) – Não queremos que o menino repita de ano, certo?
Alice – Então, terças e quintas, tenho as noites livres. As aulas podem ser na minha casa.
Mãe – Deve ter um milhão de ocupações além da escola: marido, filhos, casa pra arrumar.
Alice – Sou só. Minha vida basicamente é escola. Algumas horas de aula a mais não farão diferença.
(Meia luz. Alice e mãe saem de cena.)
Cena III
(Entra Gabriel. Senta à mesa. Pai e Gabriel esperam o jantar. Mãe entra trazendo forma imaginária.)
Gabriel (gaguejando) – Lasanha congelada de novo?
Mãe – Foi o que tive tempo de fazer.
Pai – De fato, cozinhar não é seu forte.
Mãe (braba) – Assim como ganhar dinheiro não é o seu.
(Mãe coloca a bandeja sobre a mesa.)
Pai – Não use esse tom de voz na frente do menino.
(Pai serve Gabriel.)
Mãe – Podíamos ter uma empregada.
(Mãe serve-se e ao marido. Gabriel come.)
Pai – Já temos despesas suficientes.
Mãe – Por falar nisso. Gabriel, falamos com sua professora hoje.
Gabriel (gaguejando) – Por que? Não fiz nada.
Mãe (para Gabriel) – E nem de bom. Ela disse que precisa de aulas particulares de português.
Gabriel (gaguejando)– Não quero mais aulas.
Pai (para Gabriel) – Alice propôs abrir mão de suas noites de folga para te dar aulas de reforço.
(Mãe larga os talheres.)
Mãe – Prefere repetir o ano e jogar fora todo trabalho que eu e teu pai tivemos para pagar aquela escola?
Gabriel debruça-se sobre a mesa.
Pai (afagando a cabeça do menino) – Tua mãe tem razão, filho.
(Meia luz.)
Cena IV
(Sentada Mãe penteia-se em frente ao espelho imaginário. Pai sentado em outra cadeira.)
Mãe – O que acha do Gabriel freqüentar a casa dessa mulher?
Pai –Ótimo.
Mãe – Ótimo? Não está certo. É solteira, mora sozinha.
Pai – Por favor, é só um menino. (levantando da cadeira) Não reparou que a gagueira está diminuindo?
Mãe – Reparou, também? (Pára de pentear)
(Pai retira o sapato.)
Pai – Dia desses, passei pela sala e ele estava lendo.
Mãe – Lendo?
Pai – Sim, lendo Machado de Assis.
(Pai retira meia.)
Mãe – Essa mulher é uma feiticeira. Uma feiticeira do bem. Nunca vi o Gabriel lendo, quem dera Machado de Assis, que nem eu tinha saco, nos tempos de escola.
Pai – Está levando a sério. Precisamos dar um crédito.
Mãe – Uma janta. Ofereceremos uma janta para agradecer.
Pai – Acha que ela aceitaria?
Mãe – Faço questão. É o mínimo.
Pai – Amanhã mandamos o convite pelo Gabriel.
Mãe – Pode ser sexta-feira. Saio do trabalho e vou ao supermercado compras os preparos. Farei aquela receita de strogonoff da mamãe.
(Apagam-se as luzes.)
Cena V
(Sentados à mesa, Pai e Alice.)
Alice –Não precisavam ter se preocupado.
Pai – Temos muito que lhe agradecer. Até a gagueira do menino sumiu.
Alice – Falei que seria coisa de tempo.
(Mãe entra carregando travessa imaginária. Põe sobre a mesa e toma seu lugar.)
Mãe – Espero que goste de strogonoff, receita de família.
Alice – Adoro.
Mãe – (para marido) E Gabriel?
Pai – No quarto.
Mãe – Esse menino. (Para a coxia) Gabriel, a janta está pronta.
(Gabriel entra em cena cabisbaixo e toma seu lugar.)
Pai – Nem cumprimenta a Alice, filho?
(Gabriel acena com a cabeça e permanece olhando para baixo.)
Mãe – Isso são modos?
Alice – Não se preocupem. Conheço bem a timidez de Gabriel. Como todas essas aulas, descobrimos muitas coisas um do outro.
Mãe – Esse é outro motivo pelo qual marcamos a janta. Não queremos interferir na sua vida. As notas do Gabriel melhoraram. Talvez as aulas não sejam mais necessárias.
(Gabriel olha para Alice.)
Alice – Não! Ele mostrou melhoras, mas pode render muito mais. Gabriel é um menino com muito potencial. Acredito que nas séries anteriores não recebeu a devida atenção.
Pai – Se é melhor para o menino. (Dá de ombros.)
Alice - (para o prato imaginário) Uhmmm, parece maravilhoso. (para mãe) Não vamos deixar que esfrie.
(Mãe sacode a cabeça em desaprovação.)
(Meia luz. Saem Alice e Gabriel.)
Cena VI
(Sala de estar. Mãe sentada assistindo televisão imaginária. Pai a frente do palco. Foco de luz direcionado.)
Pai – (para o público) O tempo passou, as aulas continuaram e a gagueira sumiu por completa. O menino? Tornou-se um leitor voraz. Abandonou o futebol, a televisão, até o vídeo game. Porém, minha esposa continuava cismada.
(Pai senta-se ao lado da mulher.)
Mãe – Que horas são?
Pai – Onze e pouco.
Mãe – Não está certo isso.
Pai – (apontando para televisão) Claro que está certo. Vilão tem que morrer.
Mãe – Não se faça de bobo.
Pai – É só um menino, por favor.
(Gabriel entra em cena)
Mãe – Isso são horas?
Gabriel – (olhando para baixo) A professora…
Mãe – Sei que Alice é muito prestativa, mas não está certo. Ela tem outras coisas para fazer.
Gabriel – (olhando para mãe) Ela pediu que eu ficasse.
Mãe – Não importa. Tem que te dar conta e sair. Nove horas é o limite, entendeu?
(Silêncio)
Mãe – Entendeu, Gabriel?
Gabriel – (olhando para baixo) Entendi.
Pai – Sua mãe tem razão, filho. Há essa hora, a rua é muito perigosa. E tu precisa acordar cedo.
Mãe – Assim me mata de preocupação.
Gabriel – Ok. Nove horas.
(Apagam-se as luzes.)
Cena VII
(Sala de estar. Lacerda a beira da porta imaginária. Pai lendo jornal. Som de campainha.)
Pai – Já vai.
(Pai caminha até a porta. Abre.)
Pai – Pois não.
Lacerda – Bom dia. Meu nome é Lacerda, sou inspetor da secretaria de educação.
Pai – E no que posso ajudar?
Lacerda - Tenho um assunto não muito agradável. Tem alguns minutinhos?.
Pai – Claro, entre.
(Lacerda entra. Senta em um dos acentos da sala. Meia Luz. Gabriel senta ao lado do homem. Pai vai à frente do palco. Foco de luz direcionado.)
Pai – (Para o público) Lacerda contou que estava investigando Alice. Três anos antes, ela foi acusada de seduzir um aluno da oitava série. Nada foi provado. Para evitar falatório na cidade pequena, onde trabalhava, a secretaria de educação transferiu-a para capital. Desde então, Lacerda está no seu encalço. Falou também que estava desconfiado que Alice e Gabriel. (Enrola as mãos.) Bem vocês sabem. Tentei convencê-lo de que Gabriel é só um menino. Porém de nada adiantou. Disse é que a lei é uma só; que medidas sérias deveriam ser tomadas caso se comprovasse o assédio; e que eu não estaria tão calmo se Gabriel fosse uma menina e Alice, um professor de educação física. Tive que buscar o menino na escola. (Impaciente) Desde então, Gabriel está nesse interrogatório. Não entendem, é só um menino.
(acendem as luzes.)
Cena VIII
(Lacerda e Gabriel se levantam. O inspetor aperta a mão do menino. O pai vai de encontro a eles.)
Lacerda – Gabriel foi muito bem.
Pai – Tem o que queria?
Lacerda – (para o pai) Sim. Em vinte anos de carreira, nunca me enganei.
(Pai e Gabriel se olham.)
Lacerda – Não há nada entre seu filho e aquela mulher. Agradeço o tempo que os dois me emprestaram.
Pai – Não foi nada. Agora, fico tranqüilo de saber que meu filho está em boas mãos. (Indicando o caminho da porta.)
Lacerda – Esse é meu dever. Espero não incomodá-los mais. Até.
(Lacerda sai de cena.)
Pai – Como combinamos?
(Gabriel sacode a cabeça em sinal positivo.)
Pai – Que sua mãe nunca saiba dessa visita. Adultos se preocupam demais.
(Pai passa a mão na cabeça do menino. Apagam-se as luzes.)